Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Com bikini e sem bikini

Gisele Bündchen, para a Calzedonia, ver aqui.


«Mucho antes de que se inventara el bikini, antes incluso de que Indonesia fuera un país o se escribiera el Corán, las mujeres de las tribus de la isla de Papúa ya lo hacían. Esto es: top less.
Lo que no es seguro es si podrán seguir haciéndolo por mucho tiempo ahora que la práctica ha sido ilegalizada por la nueva ley antipornografía, aprobada el pasado mes de octubre por el parlamento de Indonesia. El texto, redactado con intencionada ambigüedad, declara prohibidos "el desnudo o las representaciones de desnudos", así como los "movimientos del cuerpo contrarios a la moral pública".» continuar a ler aqui.


David Jiménez, El Mundo, 12/06/2009

Exemplos



«Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus
melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas
responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira
preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para
quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.»
Excerto do discurso de António Barreto, no 10 de Junho de 2009, dia de Portugal

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A cidade das aldeias*

« O presente trabalho, realizado sob a forma de reportagem fotográfica e vídeo, visa possibilitar a leitura do que subsiste dos antigos Lugares da cidade do Porto e dos caminhos entre eles, registando e divulgando o que ainda hoje se pode observar, revelador de uma forma de assentamento e formação de território, de construção e de vivência de uma outra cidade, a cidade das aldeias, que corre o sério risco de ser literalmente engolida pela velocidade desenfreada própria dos dias em que vivemos, resultado das dinâmicas de desestruturação urbana e social que, infelizmente, vão esquecendo estes espaços, as suas gentes e os conjuntos edificados.

Comparando a planta da cidade do Porto desenhada sob a direcção de Augusto Teles Ferreira e impressa no ano de 1892 com a cidade actual verificamos que, ainda hoje, subsiste uma substrutura rural que, à época, constituía uma rede de caminhos e lugares exteriores ao centro urbano em processo de consolidação.Esses lugares, aquando da delimitação administrativa da cidade ocorrida no final do século XIX, seriam integrados no perímetro urbano, ficando a Estrada de Circunvalação como linha de fronteira da nova cidade que acolhia no seu interior um conjunto de lugares e de freguesias novas, incorporava áreas de freguesias vizinhas e deixava de fora algumas parcelas de terreno, que, embora pertencentes ao concelho, sempre foram consideradas exteriores à cidade que se havia circunvalado.

Pela imagem, pretende-se tornar pública essa outra cidade que abrange, na área geográfica do concelho do Porto, núcleos como Pinheiro de Campanha, S. Pedro, Azevedo, Areias, Contumil, Pego Negro, Granja, Vila Cova, Campo, Aldeia Nova do Monte, Fojo, Águas Férreas, Outeiro do Tine, Aval de Baixo, Ramalde do Meio, Vilanova de Cima, Furamontes, Ribeirinho, Campinas, Arrábida, Olivais, entre muitos outros lugares que nos vão falando de percursos, de espaços, de construções e de gentes.

Este sentimento de viver periférico, presente nos lugares visitados, poderá, um dia, vir final e felizmente a desaparecer e dar lugar a uma realidade policêntrica, assente em contínuos de território, o qual, ligado por redes e canais, será capaz de unir e esbater as sensações de dentro e fora, contribuindo para minimizar a sensação de centro e periferia, quer no plano físico quer no plano das mentalidades e sentimentos, consolidando e dando espessura ao tecido urbano.Assim, as redes vão-nos ligar os pontos e os canais vão-nos traçar as rectas e articular a sobreposição das redes, cosendo-as ao concelho ao qual pertencem e aos concelhos limítrofes, promovendo um tecido forte e coeso, permitindo que não sejam áreas conflituantes, mas sim conjugadas e convergentes num só objectivo: a ampliação da cidadania e a gestão participada do território municipal pelas populações, comprometendo todos num esforço unitário, em busca de uma estrutura onde todos tenham lugar.

É um registo fotográfico que permite pensar que, numa cidade equilibrada, esta diversidade de ocupação do solo ajuda a qualificar o ambiente urbano, oferecendo a leitura de várias épocas históricas, de vários tempos, de vidas que podem, trinta e cinco anos passados sobre o 25 de Abril, se todos quisermos, coexistir em harmonia, derrubando a última muralha desta cidade e pensar, na Área Metropolitana do Porto, mais do que na metropolitanidade, na rur-urbanidade.»

Mário João Mesquita, apresentação da *exposição a decorrer no CPF.

terça-feira, 9 de junho de 2009


Movimento Perpétuo Associativo

«O jornal britânico The Times elogiou na terça-feira a actuação dos portugueses Deolinda em Londres, destacando a presença em palco de Ana Bacalhau e as canções que preenchem o álbum Canção ao lado» continuar a ler aqui.

Sol, 09/06/2009

Em nome do desenvolvimento(2)

«El gobernador de California, Arnold Schwarzenegger, ha presentado un plan de ahorro mediante la apuesta por la enseñanza on line en detrimento de los libros de texto tradicionales, según informa la BBC. Con esta iniciativa, el gobernador pretende reducir el gasto anual en millones de dólares. Además, añade que al privilegiar el estudio digital los alumnos conseguirán una mejor formación.» continuar a ler aqui.

El País, 09/06/2009

Em nome do desenvolvimento(1)

«La petrolera anglo-holandesa Royal Dutch Shell ha acordado el pago de una indemnización de 15,5 millones de dólares (11,1 millones de euros) para evitar un juicio por su complicidad en el asesinato de nueve activistas ogonis en Nigeria en los años noventa, condenados a muerte por la dictadura del país por manifestarse contra las extracciones petroleras en el delta del Níger. Entre los ejecutados estuvo Ken Saro-Wiwa, célebre ecologista y poeta, un escándalo que en buena parte contribuyó a la salida de Shell de un país en el que había estado presente desde el descubrimiento del crudo en 1958, cuando todavía era colonia británica.» continuar a ler aqui.

El País, 09/06/2009

Viver com menos...

Ilustração de Raúl Arias


«Hay crisis. Todos hablan de ella. A todos nos afecta. Todos coinciden en que es grave. Pero nadie acaba de explicarnos bien lo que pasa. Los analistas académicos hablan como si sufriéramos una fiebre más o menos pasajera, un desajuste del sistema que se solucionará con alguna receta.
Pero hay otras voces. Economistas, sociólogos, pensadores de diversos ámbitos que opinan que estamos ante algo más que un desarreglo de los mercados financieros. ¿Qué crisis es ésta? Para muchos, más que una crisis económica es una crisis ecológica: no hay planeta suficiente para mantener el ritmo de vida que llevamos. El modelo de crecer y gastar, usar y tirar, explotar y contaminar llega a su fin.
«Aunque tengamos la mirada puesta en la debacle de los mercados financieros, la convulsión que estamos experimentando denota mayor hondura, remitiéndonos a los modos de producir, consumir y vivir hoy predominantes en el planeta», afirma Santiago Álvarez, director del Centro de Investigaciones para la Paz, en el último número de la revista» continuar a ler aqui.
Pedro Cáceres, El Mundo, 09/06/2009

domingo, 7 de junho de 2009

« Num país democrático, como os Estados Unidos, o deputado quase nunca tem um poder duradoiro sobre o espírito dos seus eleitores. Por muito pequeno que seja um corpo eleitoral, a instabilidade democrática leva-o a mudar constantemente de fisionomia. Portanto, é preciso cativá-lo todos os dias. Ele nunca pode estar seguro dos eleitores e, caso estes o abandonem, perde imediatamente os seus recursos, pois não goza de uma posição assaz elevada para ser facilmente notado por aqueles que não lhe são próximos e, na independência completa em que vivem os cidadãos, não pode contar com o facto de que os seus amigos ou o governo o venham a impor facilmente a um corpo eleitoral que não o conhece.É portanto no cantão que representa que estão depositados as sementes da sua fortuna: é desse canto de terra que ele tem de sair para se elevar até uma posição de chefia e para poder influenciar o destino do mundo.»

Excerto do Capítulo XXI, da eloquência parlamentar nos Estados Unidos, " Da Democracia na América ", de Alexis de Tocqueville, Trd. João Carlos Espada, Ed. Principia

Recenseamento das almas

« - Olha lá, meu rapaz, quantos camponeses morreram desde o último censo?
- Quantos? - Uma porção deles! - respondeu o intendente, pondo a mão diante da boca para dissimular um soluço.
- Sim, era justamente isso o que eu pensava - murmurou Manilov. - Morreram bastantes...
- Mas quantos? - insistiu Chichikov.
- Sim, quantos? - repetiu Manilov.
- Quantos? Como posso eu saber ao certo? Ninguém os contou... - desculpou-se o intendente.
- Sim, claro ninguém os contou... - pronunciou Manilov. E voltando-se para Chichikov: - É o que eu supunha, morreram muitos, mas não se sabe bem quantos.
- Pois bem, meu amigo - disse Chichikov, dirigindo-se ao intendente -, não há outro remédio agora senão contá-los. Arranje-me, por favor, uma lista completa dos mortos, com os nomes de todos.
- Isso mesmo - confirmou Manilov. - Uma lista com os nomes de todos os mortos.
- Às suas ordens, senhor! - proferiu o intendente, e retirou-se.
- E para que quer essa lista? - inquiriu então Manilov.
A pergunta confundiu um pouco o visitante. Corou, tartamudeou, fazendo visíveis esforços para encontrar as palavras adequadas. E o caso não era para menos. Manilov ia ouvir coisas extraordinárias, como nunca antes escutara nenhum ouvido humano.
- Deseja saber para que quero esta lista? Pois bem, vou dizê-lo: tenciono comprar-lhe os camponeses que...
Não chegou a concluir a frase, Manilov interrompeu-o:
- Permita-me que lhe pergunte: deseja comprá-los com ou sem as terras?
- Não se trata precisamente de camponeses... - esclareceu Chichikov. - Só quero comprar os que morreram...
- Como?... Desculpe-me... Sou um pouco duro de ouvido, creio que percebi mal...
- Pretendo adquirir as almas mortas que figuram ainda como vivas no recenseamento - explicou Chichikov.»

Excerto de " Almas mortas ", de Nicolai Gogol, Trd. José António Machado, Ed. Estampa

sábado, 6 de junho de 2009

Anjos





Fotografias: Azulejos da Igreja de Santo Ildefonso, no Porto.

Música: Ópera Semele de Haendel, cantada por Kathleen Battle.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Kung Fu

maoinvisivel, viseu 04/06/09 19:00(comentário publicado na edição online do Diário Económico)

Lamento o desaparecimento do actor David Carradine, para mim, será sempre o bom monge de Shaolin, de nome Caine, o meu Kung Fu, que desbaratava com uns golpes fantásticos hordas de malfeitores. É uma referência da minha infância, e da melhor época televisiva que passou por este país. Apetece dizer, que os bons não deviam partir. Talvez no além se encontre com os malfeitores dos novos tempos, usurários disfarçados de banqueiros e afins, que para além de amnésicos, são falsos surdos, mudos e cegos e, ainda por cima não sabem escrever e alegam que outros escrevem e assinam por eles. Outros, troçam, afirmam que alguém se esqueceu de entregar um qualquer bilhete de identidade. Chega-lhes Kung Fu. Está explicado, porque afinal os bons se vão embora. É para continuarem a espadeirarem os maus quando lá chegam. Recebem-nos à porta e zás. Nem sequer, chegam a entrar. Justiça, vale mais tarde do que nunca. Depois, os pedaços são capaz de ficar espalhados num qualquer limbo. Paz, e que nunca te falte a força, Kung Fu! Já agora, peço-te: dá um abraço apertado ao Vasco Granja e diz-lhe, olá e obrigado amiguinho, da minha parte. Até sempre!

Repousando na frescura de um bosque



Fotografias inéditas de Marylin Monroe, por Ed Clark. Publicadas na Life.

Só neste País

Mudar de vida

Tudo isto é triste, tudo isto é fado

«O Presidente da República, Cavaco Silva, revelou hoje aos jornalistas que está a perder muito dinheiro com as poupanças que tem nos bancos e que parte delas “estão desaparecidas”.

“Eu e a minha mulher, antes de eu estar nesta posição, quando éramos apenas professores, não tínhamos as nossas poupanças debaixo do colchão, nem tão pouco no estrangeiro. E agora também não. Entregámos as nossas poupanças a quatro bancos, incluindo o BPN, para eles gerirem as nossas poupanças. Esperávamos que eles gerissem as poupanças bem, que conseguissem um bom rendimento. Infelizmente estamos a perder muito, muito dinheiro. Boa parte das nossas poupanças estão desaparecidas”, afirmou o chefe de Estado citado pela TVI.» ler mais aqui.

Lusa, Público, 03/06/2009

Tudo isto é triste, tudo isto é fado.

Este homem é doutorado em Economia, foi director do Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, primeiro-ministro entre 1985 e 1995. É Presidente da Républica desde 2006.

E, não sabe gerir as suas economias?!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Fomos enganados???!!!

«Os clientes do Banco Privado Português que se manifestam hoje junto à sede do banco em Lisboa acusam o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, de ter falhado enquanto presidente da CMVM, entre 2000 e 2005.

"O sr. ministro das Finanças tem responsabilidades pela situação em que nos encontramos, porque liderou a CMVM [Comissão de Mercado de Valores Mobiliários] entre 2000 e 2005, período no qual o BPP lançou os produtos de retorno absoluto", afirmou à agência Lusa Ruy Ribeiro, cliente do BPP.

"Não temos culpa que a supervisão tenha falhado. Somos aforradores, não somos especuladores", reforçou Ruy Ribeiro. "Fomos enganados", sublinhou, numa altura em que os manifestantes gritam o 'slogan' "Queremos o nosso dinheiro!".» Lusa, Público Online, 02/06/2009

1) Teixeira dos Santos presidiu a CMVM entre 2000 e 2005, actualmente é ministro das Finanças.

2) Victor Constâncio é presidente do Banco de Portugal desde 2000.

Ambos, tiveram conhecimento da comercialização dos chamados produtos de retorno absoluto. Todos os bancos comercializaram esses produtos, embora a designação dos mesmos fosse diferente de banco para banco. A outra designação mais usada era "produtos de taxa garantida".

Inicialmente, as aplicações eram feitas com base num acordo verbal entre o funcionário bancário e o cliente. O cliente raramente questionava o risco porque pressupunha que o banco garantia sempre o capital aplicado e os juros acordados.

Mais tarde, com base em instruções do Banco de Portugal/CMVM foi criado um mandato para ser assinado pelo cliente dando poderes ao banco para comprar e vender acções,obrigações, warrants, etc.

Durante toda a década, apesar do risco para o cliente, não foi criada legislação que permitisse enquadrar juridicamente estas aplicações.

Os clientes com a ambição de terem uma taxa superior às taxas habitualmente praticadas, ou não questionavam, ou quando questionavam era-lhes transmitido que a garantia era dada pelo banco, sendo o risco nulo.

Muitos deles, saltaram de banco em banco na procura de melhores taxas. Quando eram confrontados com a possibilidade de risco inerente ao banco onde tinham feito a aplicação, recusavam-se a acreditar. " Os Bancos não vão à falência "- diziam eles -" se houver problema o Estado resolve "!

Pois !

Não devia de resolver, mas moralmente tem a obrigação de o fazer. A regulação não existiu. Foi conivente.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

«Vera em tudo uma rapariga de bem. Boas maneiras, bem vestida e com uma cultura superior. Excepto que, sempre que só na presença de qualquer homem, logo se despia e exigia que o coitado, ou talvez não, a penetrasse urgentemente. A família, alarmada e em vergonha profunda pelo comportamento descabido dela, arranjou um casamento apressado para resolver a situação. Nada feito. Mesmo apaixonada pelo marido, continuava a oferecer-se em bandeja a todo e qualquer par de calças ou calções que lhe aparecesse pela frente. assim permaneceu a sra. V. até à sua morte, com a profícua idade de 73 anos. Imagem de decoro quando vigiada por terceiros, depravação sexual em pessoa sempre que a ocasião o permitia, em jeito de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
Caso nrº 189 apresentado por Kraftt-Ebing, psiquiatra alemão do século XIX, a sra. V. surge como exemplo de ninfomania, doença imaginária que era diagnosticada em mulheres que não ficavam no seu cantinho sexualmente reprimido e revelavam ter desejos libidinosos próprios. Tal como os homens faziam porque assim se esperava. Ebing chega a descrever o que intitula "ninfomania aguda mortal", em que raparigas até entâo insuspeitas revelavam um súbito "desejo ilimitado de gratificação sexual", "delírios obscenos", "exigindo" o coito e terminando por morrer de "exaustão". Tadinhas.
É certo que as senhoras descritas por Ebing bem não estavam. Alguma coisa terá causado a morte das que se ficaram. Porém, tal não terá sido, poderei jurar, o excesso de desejo sexual. Uma infecção que lhes afectou os neurónios?
Uma intoxicação acidental? O que tiver sido, antes de acabar com elas, diluiu-lhes as inibições sociais, levando ao seu comportamento tão contrário às convenções da época.
Passado mais de um século, espera-se que já ninguém diagnostique ninfomania a mulheres que exigam o coito com frequência, porque elas andam por aí e recomendam-se! Mas outras etiquetas vieram continuar a tradição. Veja-se, por exemplo, como a promiscuidade, palavra feia, tanto foi usada durante a crise HIV. De súbito, os novos malcomportados eram esses tais, os promíscuos, que andariam por aí a ter sexo que nem o pacman do jogo de video. A "promiscuidade" foi incluída na lista dos comportamentos a evitar, tal como o sexo sem preservativo, quando na verdade, desde que se use a borrachinha maravilha, o número de parceiros não vai ser causa de infecção.
Escreveu Ebing: "Estas pobres mulheres disseminam o espírito da lascívia, desmoralizam o ambiente e tornam-se num perigo para rapazes e raparigas." Se então o moralismo era mais descarado, agora ele surge encapotado. E promiscuamente se continua assim a julgar o comportamento alheio. Que com a libertinagem dos outros sempre se pode muito mal.»


Fotografia de Brassaï e crónica de Nuno Nodin " A promiscuidade da ninfomania ", publicada na Pública de 31/05/2009
Henri Matisse, fotografado por Brassaï em 1939

'Matisse: 1917-1941' (Os anos voluptuosos*)


*«La estancia está inundada de luz. Entre biombos y sillones de mimbre, un hombre de cabello ralo, bigote y barba encanecidos, con traje, corbata y una bata blanca a modo de guardapolvo, sujeta un bloc en sus rodillas mientras dibuja a una bella mujer desnuda. Matisse (1869-1954), el gran pintor francés, aparece en su estudio de Niza retratado en 1939 por un prometedor fotógrafo, Brassaï. Wilma Javor, una joven húngara, posa sin pudor mientras el ya anciano artista aparece abstraído en lo que más le interesa, la figura humana.» continuar a ler aqui.

Julia Luzán, El País, 31/05/2009

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Joaquín Sorolla
























Ver aqui site do Museu Sorolla.

Facada Leite-Moça


Ver aqui blogue Facada Leite-Moça.
« - Há uma certa diferença entre a Santa Igreja e Jesus. E S. Paulo, se me autoriza a dizê-lo, é, aos meus olhos, o continuador, mas também o falsificador de Jesus. Primeiro, há aquela súbita passagem de Saulo a Paulo! Como se não conhecêssemos já bem demais esses fanáticos apaixonados que trocam uma fé por outra no espaço de uma noite! São moralistas que resmungam os seus dez mandamentos. Mas Jesus não era um moralista. Lembre-se do que ele disse quando o censuraram por não celebrar o Sabbat. Jesus gostava das mulheres! E consegue imaginar S. Paulo sob a aparência de um amante? S. Paulo condenar-me-ia porque eu gosto das mulheres. Mas Jesus não. Não vejo nada de mal no facto de se gostar de mulheres, de muitas mulheres, e de se ser amado pelas mulheres, por muitas mulheres.»


Excerto de " A Valsa do Adeus ", de Milan Kundera, Trd. Miguel Serras Pereira

O sabor da melancia

O Sexo e as ideias
























Pintura de Tracey Emin

«"Lo único que me importaba antes era el sexo, no el dinero. El sexo me retenía en la cama y me sacaba de ella por la mañana, pero ahora está desvaneciéndose rápidamente. No estoy tan loca por el sexo como antes, ahora me interesan más las ideas", afirma la artista en declaraciones al diario 'The Guardian'.» ler aqui no El Mundo.

«Os heróis da civilização que se tornaram os santos do cristianismo pegaram na imagem do corpo clássico e reconstituíram-na da forma mais chocante. A ideia bíblica da «obediência a Deus» cristalizou-se numa noção de escravatura humana que trouxe consigo o aviltamento, o sofrimento, a humilhação e a tortura do escravo - mas enquanto qualidades positivas. O cristianismo não emanou simplesmente de Jesus ou de São Paulo: a sua inovação radical deriva de uma revolução precisa dos valores clássicos tradicionais. Trata-se do inicio da batalha longa e turbulenta empreendida pelo cristianismo contra a Grécia e Roma. Durante os primeiros séculos de formação, o cristianismo, para provar o amor a Deus a um mundo atónito, significou protagonizar uma lógica de alienação, privação e dor anticlássica.»


Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira, Ed. Alêtheia, 2004

domingo, 24 de maio de 2009

O discreto encanto do desejo*






* Exposição em Madrid, de Juan Manuel Díaz Burgos, por Miranda Torna no El Mundo, ler aqui.

recordando Vicente Aleixandre

Teu nome,
pois tens nome. A minha vida inteira foi isso.
um nome. Porque sei que não existo.
Um nome respirado não é um beijo.
Um nome perseguido sobre uns lábios
não é o mundo, mas o seu sonho às cegas.
Assim sob a terra, respirei a terra.
Sobre o teu corpo respirei a luz.
Dentro de ti nasci: morri por isso.

" Tens nome ", poema de Vicente Aleixandre, incluído na " Antologia de Vicente Aleixandre ", Trd. José Bento, Ed. Inova/Porto

«Acera y alumbrado. La calle de Vicente Aleixandre, en Madrid, está estos días en obras. Se diría que la memoria del poeta que le da nombre, también. En el número tres vivió el Nobel de la generación del 27, que se instaló allí precisamente en ese año mágico. Pero a lo que el callejero madrileño llama Aleixandre, la historia de la literatura lo llama Velintonia. Al escritor sevillano no le hizo gracia el cambio pero, educado, se resignó a él. Hoy el chalet es una metáfora de las turbulencias que ha vivido la figura de su dueño desde que murió el 13 de diciembre de 1984, hace 25 años: el número arrancado, la puerta cerrada con una cadena que contagia su herrumbre al buzón de correos...» continuar a ler aqui.

Javier Rodríguez Marcos - Madrid - 24/05/2009, El País

Não há Direito

sábado, 23 de maio de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

João Guitar Bénard


«Quem consegue pensar em “Johnny Guitar” sem pensar em João Johnny Bénard (que sobre este filme mil vezes disse “Porque era ele, porque sou eu”)?» ler aqui excertos do obituário, escrito por Alexandra Lucas Coelho, a publicar no Público de amanhã.

Nós e o Japão*

«Com que então o Japão tem o mesmo rating financeiro do que Portugal. Ou é preciso um ponto de interrogação? Ambos foram despromovidos para "Aa2" pela agência Moody´s, que julga estas coisas. Ainda não percebi se é bom para nós ou mau para os japoneses. Teoricamente até pode ser mau para ambos. Bom para ambos é que não é de certeza.

O Japão é um dos cinco países infinitamente admiráveis do mundo, acima das embirrações e dos amores. Os outro quatro até podem variar consoante o gosto do freguês - mas o Japão é sempre um dos cinco.

Se Portugal tem a mesma classificação do que o Japão, então estamos de parabéns. Mesmo que o Japão esteja financeiramente a passar por um mau bocado. Mas não será muita fruta? Cheira-me que sim. E o culpado quem é? Os bacocos contabilistas da Moody´s. São tão úteis a prever o tempo como os barómetros. Se os medidores de pressões da Moody´s soubessem que vai chover, poderíamos despedir todos os meteorologistas. Que não podemos, mesmo sabendo que os melhores metem água.

Moody em psicologuês significa bipolar; tem dias; tanto lhe dá para um lado como para o outro. Os pirosos que são vê-se logo pela tabela que usam. Engraxa toda a gente. É bajulador. O "Aa2" deles é um duplo A mas quer dizer "ha ha"; duas vezes. É como chamar extrafabuloso-grau 2 aos leitores que eu odeio.

Daí que à Moody´s atribua Zz99. Que vá ao Japão. Que venha a Portugal. E que pense no que diz.»

*" Nós e o Japão ", crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada hoje no Público.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Passadiço


























Nem sempre, é fácil, compreender o carácter aleatório das nossas memórias. Algumas, estão sempre presentes, outras, estão escondidas à espera que algo as desperte.

Encontrei recentemente esta fotografia de Vilar(Barrô), tirada em finais dos anos cinquenta(?).
E, fiz uma viagem no tempo:

Chamava-mos passadiço à passagem pedonal em madeira que unia a casa -em pedra, madeira e lousa -ao quintal que encimava o muro do lado direito. Ao longe vislumbra-se o Marão.

Nem a casa, nem o quintal, eram da minha família. Não me lembro, se algum dia, cheguei a atravessar o passadiço.

Sentia, um desejo imenso de subir as escadas em pedra, atravessar a pequena ponte a correr e penetrar no mundo desconhecido do quintal que eu não conseguia ver da estrada.
Imaginava, enormes árvores de fruto, e, flores, desconhecidas ainda para mim.

O meu pensamento vagueava pelas divisões da casa imaginando gestos, dizeres e amores escondidos.

O Marão, em fundo, fazia-me sonhar com a possibilidade de um dia o escalar.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sem trabalhadores






































Cortes nos salários

«Alguns cortes nos salários, como os dos trabalhadores da Chrysler, são o preço da ajuda federal. Outros, como o acordo experimental de cortes salariais no The Times, são o resultado de negociações entre os empregadores e os empregados sindicalizados. Outros ainda são o brutal reflexo da fraqueza do mercado laboral. Os trabalhadores não se atrevem a protestar contra a baixa nos salários porque pensam que poderiam não encontrar outro emprego.

Sejam quais forem as especificidades de cada caso, salários em queda são sintoma de uma economia doente. E mais, são um sintoma que pode tornar a economia ainda mais doente.

Comecemos pelo princípio: as histórias sobre salários em queda estão a proliferar, mas qual é o real alcance do fenómeno? A resposta é: muito profundo. » continuar a ler aqui.»

Paul Krugman, Jornal i,publicado em 18/05/2009

domingo, 17 de maio de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Don McCullin











Fotografias de Don McCullin, ver aqui na Wikipédia.

« Pensava ele que a saída da prisão iria marcar o início da sua libertação... Mas é a partir de agora que se vai sentir acossado, acossado por uma matilha de pessoas, sem entender porquê. Fugi de Paris porque já não tinha forças... e provavelmente também porque me sentia farto do cerco que me faziam antigos e novos amigos, escreve ele a alguém que o não esqueceu quando ele estava preso. Foi então que os jornais começaram a publicar certas anedotas como a que se segue:

Há dois anos e meio, Jean Galmot recebia a visita dum jornalista com um nome bem parisiense: chamemos-lhe...
Jacob.
Acabada a entrevista, ia-se despedir a criatura quando Jean Galmot, depois de o ter observado, lhe perguntou:
- Está a olhar para essa pepita de ouro?... Trouxe-a da Guiana.
- É espantosa.
- Gosta? ... Pode ficar com ela. Mas seja amável comigo.
Jacob fica com a pepita, mas esquece-se mais tarde, quando Galmot está em apuros, de ser amável com ele ao escrever a entrevista...
Há dias atrás, depois da libertação do ex-deputado da Guiana, o nosso jornalista tentou de novo entrevistá-lo.
Mas não consegue e obtém de Galmot estas palavras:
- Tenho muita pena, meu caro... Agora já não há mais pepitas de ouro para lhe oferecer.»


Excerto de " Rum A vida secreta de Jean Galmot ", de Blaise Cendrars, Trd. Armando Silva Carvalho, Ed. Assírio & Alvim, 2005

terça-feira, 12 de maio de 2009

Jessica Tremp

Ver aqui site de Jessica Tremp.

"Burbujas" de Daniel Torres

« Es la historia de un tipo gris que tiene una epifanía viendo una pecera. Y la de ese tipo gris que se da cuenta de que le hubiera gustado ser carpintero. Y la de ese mismo tipo gris que atraviesa por una crisis vital. Y también la de su familia, la de un amigo filósofo con alma de Piolín, la de unas vértebras que hablan, y la del poder (o debilidad) de la memoria. Definir "Burbujas", la última obra del dibujante valenciano Daniel Torres ('Opium', Roco Vargas) es difícil, pero sea cual sea la respuesta se trata, sin lugar a dudas, del mejor trabajo de uno de los grandes del tebeo español de todos los tiempos y de una obra condenada a cosechar más de un premio.» ler aqui.
Javier Cavanilles, El Mundo, 12/05/2009

domingo, 10 de maio de 2009

Nua, absolutamente nua


Quando uma coisa se torna popular como os espectáculos de strip-tease, aparece sempre alguém a tentar fazê-lo às avessas. Certo dia o Sr. Samuel J. Burger telefonou para a redacção a dizer que passara a ser o agente de «uma dama de Chicago, e c´um caraças, ela é tão fora de série que me põe maluco.» Nesse dia não me sentia muito bem, e por isso mandaram-me entrevistá-la. O Sr. Burger é um empresário da Broadway, magro, inspirado, de bigodes encerados, que contrata para os espectáculos de vaudeville números como os júris dos julgamentos de homicídios, bubble dancers e índios que lêem a mente.
A sua última atracção revelou-se como sendo uma jovem com uma formação da escola profissional, com umas risadinhas e um par de gâmbias de anúncios de meias. Tinha dezanove anos e chamava-se Jan Marsh. Encontrámo-nos com ela num hotel com teatro e ela fez uma demonstração do seu número.
«Talvez esteja maluca», disse ela, desenfiando o vestido, «mas parece-me que tenho aqui um número capaz de arruinar os esquemas de extorsão do streap-tease.»
Atirou o vestido para o braço de uma cadeira, e depois tirou os sapatos e as meias. A seguir despiu um conjunto de roupa interior de renda preta.
«Agora, olhem», disse ela, desnecessariamente. «É assim que eu começo o meu número. Começo onde o strip-tease acaba. Estou nua, absolutamente nua. Oh, absolutamente. Apareço diante do público assim. Enfio as minhas cuequinhas de renda preta. Depois ponho o cinto de ligas. Depois enfio as meias de rede pretas. O preto é tão fascinante. Depois calço os sapatos. Depois ponho o vestido, um vestido de fecho, do género a que chamam «vestido táxi.» Depois ponho um alfinete de flores, orquídeas talvez. E vou continuando a enfiar peças de roupa até o público começar a resmungar. Visto aí uma tonelada de roupas. Pode ser que eu seja maluca, absolutamente maluca, mas estou convencida de que o meu número vai acabar com os escroques do strip-tease, o que seria prestar um grande serviço ao meu país.»
Miss Marsh sorriu. Depois executou uns passos de dança.
«Claro», disse ela «Faço isso pela arte e não estou a dizer que o meu namorado se chama Art. Reparei no enorme sucesso dessas mulheres voluptuosas do strip-tease, mas não me parece que o público esteja realmente interessado nesse género de coisas. Sou uma rapariga terna e simples. Não sou como essas mulheres aos pulos. Penso que quando eu fizer o inverso do strip-tease, ele se tornará imensamente popular e iniciará um novo movimento. Não fumo nem bebo. Claro que se apreciasse o sabor bebia, mas acho o whisky um horror. Sou boa nadadora. Sou apenas uma rapariga americana simples, e acho que o público preferia isso a uma dessas mulheres aos pulos.»
Miss Marsh disse ter nascido em South Amboy, em New Jersey, mas que a família se mudara para Chicago quando era criança. Os pais tinham-se divorciado. Disse que a mãe sabe que ela viera a Nova Iorque para dar cabo dos escroques do strip-tease e não se importa. Disse que andou no liceu de Chicago e na Drake´s Business College. Depois arranjou um emprego como secretária de uma senhora que trabalhava para a administração da cidade.
«Estava no departamento dos impostos, ou coisa assim», disse Miss Marsh.
Depois informou-nos de que, quando era mais nova, tinha posado para artistas.
«Gosto de posar para artistas», disse ela. «São muito sérios. Ficamos nuas diante deles durante horas, mas eles não se interessam por nós, a não ser de um ponto de vista artístico, e eu gosto disso. Somos apenas um uma inspiração para eles. Sou uma rapariga séria. Nem sequer apalpanços admito.»
Miss Marsh sorriu.
«É do estilo alta-roda», disse o Sr. Burger.
«É isso», disse Miss Marsh.
Disse que recentemente tinha poupado algum dinheiro e decidira vir a Nova Iorque e subir ao palco.
«Tinha na cabeça esta ideia de deitar abaixo o strip-tease», disse ela, «e as pessoas diziam-me que era louca. Foi então que ouvi falar no senhor Burger e pensei que ele devia ter as mesmas ideias. Fui ter com ele e achei que tinha.»
«Os grandes espíritos trabalham no mesmo comprimento de onda», disse o Sr. Burger, sacudindo umas cinzas do cravo branco que trazia na lapela do sobretudo.

Crónica de Joseph Mitchell, incluída no livro " Sou todo ouvidos ", Trd. José Lima, Ed. Ambar, 2006

Sophie Evans


























«Sophie Evans es una estrella. Perfeccionista y exigente. Se cuida. Pasa controles de hepatitis, VIH y herpes genital. Es monógama. No fuma ni bebe ni se droga. Lleva una vida ordenada. Como una deportista de élite. Ha intervenido en 200 películas. Ha rodado en Los Ángeles y Budapest, las mecas del sector. A la orden de los más grandes directores del cine para adultos. Junto a los galanes del género. Ha protagonizado miles de escenas sexuales. Sin trampa ni cartón. Ni condón. Felaciones, sexo anal y vaginal; números lésbicos; dobles penetraciones. Su récord en pantalla ha sido mantener sexo con cinco hombres a la vez. “Fue muy bonito. Una sensación diferente. Era precioso ver a esos cinco chicos tan excitados conmigo. He hecho de todo en pantalla salvo cosas extremas; no me gusta que me aten; ni hago nada con animales ni lluvia dorada. Y prefiero la doble penetración al anal, me excita más y pagan mejor”.», ler aqui.

Jesús Rodríguez, El País Semanal, 10/05/2009
« Era do lado de Méséglise, em Montjouvain, casa situada à beira de um grande charco e encostada a um talude de silvedos, que morava o senhor Vinteuil. Por isso, encontrávamos muitas vezes no caminho a sua filha, que conduzia um buggy a toda a velocidade. A partir de um certo ano, nunca mais a vimos só, mas acompanhada de uma amiga mais velha, que tinha má fama na região e que um dia se instalou definitivamente em Montjouvain. Dizia-se: «É preciso que o pobre senhor Vinteuil esteja cego pela ternura para não dar por aquilo que se conta, e para permitir, ele que se escandaliza com uma palavra deslocada, que a filha ponha a viver debaixo do seu tecto uma mulher daquelas. Diz ele que é uma mulher superior, um grande coração, e que teria predisposições extraordinárias para a música se as tivesse cultivado. Mas pode estar certo de que não é de música que ela trata com a sua filha.» O senhor Vinteuil dizia aquilo; e, com efeito, é notável como uma pessoa provoca sempre admiração pelas suas qualidades morais em casa dos pais de qualquer outra pessoa com quem tem relações carnais. O amor físico, tão injustamente desacreditado, força de tal modo todo e qualquer ser a manifestar até às mínimas parcelas que possui bondade e desprendimento de si mesmo, que estas qualidades resplendem mesmo aos olhos dos que o rodeiam de perto. O doutor Percepied, cuja voz grossa e grossas sobrancelhas permitiam representar quando quisesse o papel de pérfido, para que não possuía o físico adequado, sem comprometer em nada a sua inquebrantável e imerecida reputação de ríspido benfeitor, sabia a fazer rir até às lágrimas o prior e toda a gente dizendo num tom rude: «Bem! Acho que ela faz música com a amiga, a menina Vinteuil. Parece que se admiram com isso. Eu cá não sei. Foi o pai Vinteuil que ainda ontem mo disse. No fim de contas, a rapariga tem todo o direito de gostar de música. Mas eu não sou daqueles que contrariam as vocações artísticas dos filhos. E parece que Vinteuil também não. E, além disso, ele também faz música com a amiga da filha. Ah, coa breca, tanta música que se faz naquela casa. Mas porque é que se estão a rir? A verdade é que aquela gente faz música de mais. No outro dia encontrei o pai Venteuil perto do cemitério. Mal se tinha nas pernas.»

Excerto de "Do lado de Swann "( Em busca do Tempo Perdido), de Marcel Proust, Trd. Pedro Tamen, Ed. Círculo de Leitores, p.p. 156/157

Arquivo do blogue

Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

FEEDJIT Live Traffic Feed