Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Noites Brancas

« Há qualquer coisa de indizivelmente enternecedor na nossa natureza petersburguense quando ela, à chegada da Primavera, revela de um jacto toda a sua potência, todas as forças que o céu lhe doou, se cobre de penugem, se desprende, se esmalta de flores multicoloridas... Lembra-me aquela rapariga definhada e enfermiça para quem olhamos umas vezes com comiseração, outras com uma espécie de amor compassivo, mas a quem, o mais das vezes, não prestamos atenção, e que de repente, por um único instante, se torna divina, indubitavelmente bela, e então nós, espantados, maravilhados, perguntamo-nos: que força fez que lhe brilhassem com aquele fogo os olhos tristes e cansados? O que fez subir o sangue àquelas faces pálidas e chupadas? O que lhe vestiu de paixão os enternurados traços do rosto? Por que se lhe levanta tanto aquele peito? O que chamou a força, a vida, a beleza ao rosto da pobre rapariga, o que lho fez brilhar com aquele sorriso, animar-se com aquele riso radiante, resplandecente? Olhamos em volta, procuramos alguém, adivinhamos... Mas o instante passa e, o mais certo, é vermos-lhe o mesmo rosto pálido, a mesma submissão e timidez dos gestos, e até um arrependimento, até vestígios de desgosto, de mortífera náusea pela paixão momentânea... E temos pena que tão depressa, tão irremediavelmente tenha murchado a beleza de um instante, a beleza que, tão enganadora e inútil, cintilou à nossa frente - temos pena porque nem sequer tivemos tempo de nos apaixonarmos dela...»






1 ) Excerto de " Noites Brancas ", de Fiódor Dostoiévski, Trd. Nina Guerra e Filipe Guerra, Ed. BI

2 ) Excerto do filme de Luchino Visconti, baseado na novela e realizado em 1957.

domingo, 7 de junho de 2009

Recenseamento das almas

« - Olha lá, meu rapaz, quantos camponeses morreram desde o último censo?
- Quantos? - Uma porção deles! - respondeu o intendente, pondo a mão diante da boca para dissimular um soluço.
- Sim, era justamente isso o que eu pensava - murmurou Manilov. - Morreram bastantes...
- Mas quantos? - insistiu Chichikov.
- Sim, quantos? - repetiu Manilov.
- Quantos? Como posso eu saber ao certo? Ninguém os contou... - desculpou-se o intendente.
- Sim, claro ninguém os contou... - pronunciou Manilov. E voltando-se para Chichikov: - É o que eu supunha, morreram muitos, mas não se sabe bem quantos.
- Pois bem, meu amigo - disse Chichikov, dirigindo-se ao intendente -, não há outro remédio agora senão contá-los. Arranje-me, por favor, uma lista completa dos mortos, com os nomes de todos.
- Isso mesmo - confirmou Manilov. - Uma lista com os nomes de todos os mortos.
- Às suas ordens, senhor! - proferiu o intendente, e retirou-se.
- E para que quer essa lista? - inquiriu então Manilov.
A pergunta confundiu um pouco o visitante. Corou, tartamudeou, fazendo visíveis esforços para encontrar as palavras adequadas. E o caso não era para menos. Manilov ia ouvir coisas extraordinárias, como nunca antes escutara nenhum ouvido humano.
- Deseja saber para que quero esta lista? Pois bem, vou dizê-lo: tenciono comprar-lhe os camponeses que...
Não chegou a concluir a frase, Manilov interrompeu-o:
- Permita-me que lhe pergunte: deseja comprá-los com ou sem as terras?
- Não se trata precisamente de camponeses... - esclareceu Chichikov. - Só quero comprar os que morreram...
- Como?... Desculpe-me... Sou um pouco duro de ouvido, creio que percebi mal...
- Pretendo adquirir as almas mortas que figuram ainda como vivas no recenseamento - explicou Chichikov.»

Excerto de " Almas mortas ", de Nicolai Gogol, Trd. José António Machado, Ed. Estampa

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Identificação de uma mulher(3)


" Eu continuei sem dizer nada, olhando-o com grande tristeza, os meus lábios mascarados pela franja do meu xaile preto. Ficou um momento junto à vidraça pela qual, hesitante, esbarrando-se e zumbindo, uma mosca subia, subia e caía de novo. Depois passou o dedo pelas lombadas dos livros na minha estante. Como a maior parte das pessoas que lêem pouco, sentia uma afeição rasteira por dicionários e vai então de tirar um grosso volume cor-de-rosa com uma corola de dente-de-leão e uma rapariga de cabelos ruivos na capa.

- Korochaia chtuka - disse ele: pôs no sítio a chtuka(coisa) e de súbito desatou a chorar. Mandei-o sentar-se ao meu lado no divã, ele tombou para um lado, com os soluços a aumentarem, e acabou por enterrar a cara no meu regaço. Dei uma palmadinha leve na lixa do seu escalpe e na robusta nuca rosada que considero tão atraente nos homens. Aos poucos, os espasmos foram cedendo. Ele mordeu-me de mansinho através da saia e sentou-se.

- Sabes que mais? - disse Pavel Romanovitch, e enquanto falava estalou sonoramente as palmas côncavas das suas mãos colocadas na horizontal ( não pude deixar de sorrir ao lembrar-me de um tio meu, proprietário rural no Volga, que costumava descrever assim o som de uma procissão de dignas vacas ao deixarem cair a bosta ). - Sabes que mais caríssima? Vamos para minha casa. Não suporto a ideia de estar lá sozinho. Jantamos, bebemos umas vodcas, depois vamos ao cinema... Que dizes?

Não podia recusar a sua oferta, embora soubesse que me ia arrepender. enquanto telefonava para o antigo emprego de Niki ( ele precisava das galochas de borracha que lá deixara ), vi-me ao espelho da entrada, parecia uma freira decadente com cara de cera austera; mas no minuto seguinte, quando passei ao acto de me embelezar e de pôr o chapéu, como que mergulhei no fundo dos meus grandes olhos negros experientes e aí encontrei um brilho nada freirático: mesmo através da voilette, como eles ardiam, céus, como ardiam!


Excerto do conto " Um caso verídico ", de Vladimir Nabokov, Trd. Telma Costa
Fotografia de Ewa Brzozowska

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


" Mas aquelas duas crianças conseguiriam ou não alcançar ao menos a última carruagem do comboio? Ivanov debruçou-se da carruagem e olhou para trás.


As duas crianças, de mãos dadas, continuavam a correr em direcção à passagem de nível. Caíram as duas ao mesmo tempo, levantaram-se e continuaram a correr. A mais crescida levantou o braço e, voltando o rosto no sentido da marcha do comboio, acenou como quem chama alguém e lhe pede que volte. E então caíram de novo. Ivanov reparou que a criança mais crescida tinha um pé calçado com uma bota de feltro e o outro com uma galocha de borracha - e era por isso que caía tantas vezes.


Ivanov fechou os olhos, não querendo ver nem sentir a dor das crianças exaustas caídas no chão, e de repente sentiu um calor dentro do peito, como se o coração, encerrado e ansioso dentro dele, estivesse a bater há muito e em vão durante toda a sua vida, e só agora começasse a bater em liberdade, enchendo todo o seu ser de calor e de frémito. De repente reconheceu tudo aquilo que já conhecia antes, com muito mais precisão e autenticidade. Dantes sentia a vida através da barreira do amor-próprio e do seu próprio interesse, e agora de súbito tocava-a de coração descoberto.


Do estribo da carruagem olhou uma vez mais na direcção da cauda do comboio, para as crianças distantes. Agora já sabia que eram os seus filhos, Petruchka e Nástia. Certamente tinham-no visto quando a carruagem atravessava a passagem de nível, e Petruchka chamava-o para casa, para junto da mãe, e ele não lhe prestara atenção, pensava noutra coisa e não reconhecera os seus próprios filhos.


Agora Petruchka e Nástia corriam atrás do comboio, longe, pelo caminho de areia ao lado da linha; continuava a segurar a mão da pequena Nástia, arrastando-a quando ela não conseguia acompanhá-lo na corrida.


Ivanov atirou o saco para o chão, depois desceu para o último degrau e saltou do comboio para o caminho de areia por onde os seus filhos corriam atrás dele."




Excerto do conto " O regresso ", de Andrei Platónov, Trd. António Pescada

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Os demónios...



" Constava na cidade que a nossa assembleia não era mais do que um viveiro de livres-pensadores, libertinos e ateus. Este zunzum circulava há muito tempo. No entanto, só tínhamos conversas à russa, isto é, absolutamente inofensivas, alegres e liberais. «Liberalismo puro», sem nenhum alcance prático, só é possível na Rússia. Estevão Trophimovich, como qualquer homem de espírito, necessitava de auditório - tanto mais que se queria convencer que cumpria uma obrigação propagando «ideias». Enfim, precisava de um grupo de amigos com que se pudesse beber, trocar opiniões respeitantes à Rússia, discutir a existência de Deus em geral e de um «Deus russo» em particular, e repetir pela centésima vez uma anedota escabrosa muito conhecida. Não desgostavam de espalhar notícias meio divulgadas e rematavam-nas sempre com uma sentença moral. Ali discutiram o futuro da Europa e de toda a humanidade. A França, depois de ter sofrido o domínio do cesarismo, ver-se-ia de um instante para outro relegada entre as potências de segunda categoria e todos se persuadiram de que isso aconteceria em breve e inevitavelmente. Quanto ao Papa, tinham profetizado que o seu papel depressa ficaria reduzido ao de simples arcebispo numa Itália unificada; aliás, nesta época de humanismo e de grandes indústrias, esse problema milenário não mais apresentava interesse. O «liberalismo russo» também nunca tratara desses assuntos."


Excerto de " Os Demónios ", de Dostoievski, Trd. Reis Madeira, originalmente publicado em 1872.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


" Mas eis que, no Inverno de 1918, a Cidade conheceu uma vida estranha, contrária à natureza, uma vida que, provavelmente, ficaria sem par nos anais do século XX. Todas as casas se encheram, a abarrotar. Os habitantes antigos e tradicionais apertavam-se cada vez mais, para acolher, de bom ou mau grado, os recém-chegados à Cidade. E estes vinham, precisamente, pela ponte esguia como uma flecha, vinham das regiões longínquas donde subiam misteriosas nuvens de fumo azulado.

Chegavam banqueiros em fuga, de cabelos grisalhos e acompanhados por mulheres; sensatos homens de negócios, que tinham deixado em Moscovo procuradores encarregados de estabelecer relações com o novo mundo prestes a nascer no império moscovita; proprietários que, secretamente, haviam confiado os seus imóveis a administradores fiéis; industriais, comerciantes, advogados e políticos. Chegavam, também, jornalistas de Moscovo e Sampetersburgo, almas vendidas, gananciosas e cobardes; cortesãs e mulheres honestas; famílias aristocráticas, cujas filhas puras se misturavam com as pálidas debochadas de Sampetersburgo, de lábios avivados a carmim; secretários de directores de gabinete e jovens pederastas passivos; príncipes e sovinas, poetas e usurários; polícias e actrizes dos teatros imperiais... Em suma, uma multidão que se esgueirava por todas as fendas e convergia para a Cidade."
Excerto de " A Guarda Branca ", de Mikhaïl Bulgakov, Trd. do francês por Fernanda Pinto Rodrigues, Ed. Pórtico, 1970
Revolução Russa, ver aqui na Wikipédia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Em busca do essencial

" Que género de homem era aquele? Como acreditar que o amara ao ponto de unir a sua vida à dele? E, agora, como explicar aquela singular e profunda tristeza, na solidão do quarto, junto daquelas janelas cuja obscuridade lhe parecia, repentinamente, sepulcral? Mas nem naquele dia, nem durante todo o tempo - ano e meio - que vivera com ele, a sua alma encontrara o essencial, o não-sei-quê sem o qual nenhuma união pode subsistir, nem mesmo o brilhante casamento da bela, da maravilhosa Helena de cabelos de ouro vermelho com o ambicioso oficial do estado-maior general, apesar de todos os perfumes, capelines e esporas. De mais a mais fora uma união fácil, sem filhos, um casamento com um oficial do estado-maior general, um báltico sensato e circunspecto...
Mas que género de homem era aquele? E que essencial era esse, sem o qual a alma de Helena permanecia vazia?"


Excerto de " A Guarda Branca ", de Mikhaïl Bulgakov, Trd. do francês por Fernanda Pinto Rodrigues, Ed. Pórtico, 1970

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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