Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

sábado, 1 de dezembro de 2007

Sonhos de perigo

" Ele desconfiava de tudo isto. Dizia que os sonhos apropriados para um homem em perigo eram sonhos de perigo e que tudo o resto era o chamamento do langor e da morte. Dormia pouco e mal. Tinha sonhos em que ele e o rapaz caminhavam por um bosque em flor onde os pássaros voavam diante deles e o céu era tão azul que fazia doer a alma, mas estava a aprender a despertar precisamente quando penetrava nesses mundos em forma de canto de sereia. Ali deitado no escuro com o misterioso sabor de um pêssego proveniente de um qualquer pomar fantasma a dissipar-se na boca. Pensava que, se vivesse o suficiente, o mundo acabaria por se perder totalmente. Como o mundo agonizante habitado pelos que ficaram cegos há pouco tempo, todo ele a desvanecer-se lentamente da memória. "

TV on the Radio -" Dreams "

Excerto de " A estrada ", de Cormac Mccarthy,Trd. Paulo Faria,Ed. Relógio D´Água,2007

The Turtles -" Happy Together "

Sharon Jones & The Dap-Kings - "100 Days, 100 Nights"

"Green Onions" by Booker T on Hollywood a Go Go

A essência do mundo é musical

Randy Newman -" Sail Away "

" « A essência do mundo é musical» - disse para si Augusto quando morreu a última nota do órgão. - « E a minha Eugénia, não é musical também? Toda a lei é uma lei do ritmo, e o ritmo é o amor. Eis que a divina manhã, virgindade do dia, me traz uma descoberta: o amor é o ritmo: A ciência do ritmo é a matemática; a expressão sensível do amor é a música. A expressão não, a sua realização: entendamo-nos. » "

Excerto de " Névoa ", de Miguel Unamuno, Trd. Manuela Agostinho, Ed. Vega

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

" A vida de Brian " - Monty Python

Robert Wyatt - "Catholic Architecture"

" Tu, místico, vês uma significação em todas as coisas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.


Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
Ser uma coisa é não ser susceptível de interpretação. "


Excerto de " Poemas inconjuntos ", de Alberto Caeiro ( Fernando Pessoa )

The Housemartins -" Caravan of love "

Degolação de Baptista - Caravaggio


(1608) - Catedral da Valletta, Valletta, Malta

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O teatro lírico para Calisto Elói

" Como à força, fora ele uma noite ao teatro lírico, em companhia do abade de Estevães, que amava a música pelo muito amor que tinha à guitarra, delícias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado.
Calisto inteirou-se do enredo da ópera, e assistiu em convulsões ao espectáculo, que era a Lucrécia Bórgia.


G. Donizetti, "Lucrezia Borgia"Act II, sc. 2 (fragment)Joan Sutherland, Alfredo KrausCond. Richard Boning,Covent Garden, 1980

Saiu da plateia frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: «Amici, noctem perdidi! Melhor me fora estar lendo o meu Eurípedes e Séneca, o trágico! Medeia não mata os filhos cantando, como a celerada Lucrécia! As devassidões postas em música, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o estridor das trompas e dos zabumbas. É um tripúdio isto, amigo abade! Quem sai do seio da natureza rude, e de repente se acha à labareda destes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial filosofia destas tramóias de teatros!»
Assanhou-se o abade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o Estado subsidiava o Teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais. Calisto fez pé atrás, e exclamou:
- Obstupui!... O abade zomba!... O Estado!... o meu colega disse o Estado!
- Sim, o tesouro... - confirmou o clérigo.
- A res publica? o dinheiro da nação?
- Certamente: pois de quem há-de ser o dinheiro, senão da nação?
- Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do teatro de Lisboa!
- Vinte contos de réis.
Calisto Elói correu a mão pela fronte humedecida de suor cívico, e sentou-se nas escadas da Igreja de S. Roque, porque ao espanto, cólera e dor de alma seguiram-se cãibras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abade, e foi para casa. "

Excerto de " A Queda de um Anjo", de Camilo Castelo Branco, Ed. Clássicos Público,1995

Arquivo do blogue

Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

FEEDJIT Live Traffic Feed