Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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quinta-feira, 24 de julho de 2008

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O amor e a ténia

" Duas enfermidades há aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa práctica para descriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caìda."


Excerto de " A queda dum anjo", de Camilo Castelo Branco, Ed. Clássicos Público,1995

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O teatro lírico para Calisto Elói

" Como à força, fora ele uma noite ao teatro lírico, em companhia do abade de Estevães, que amava a música pelo muito amor que tinha à guitarra, delícias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado.
Calisto inteirou-se do enredo da ópera, e assistiu em convulsões ao espectáculo, que era a Lucrécia Bórgia.


G. Donizetti, "Lucrezia Borgia"Act II, sc. 2 (fragment)Joan Sutherland, Alfredo KrausCond. Richard Boning,Covent Garden, 1980

Saiu da plateia frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: «Amici, noctem perdidi! Melhor me fora estar lendo o meu Eurípedes e Séneca, o trágico! Medeia não mata os filhos cantando, como a celerada Lucrécia! As devassidões postas em música, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o estridor das trompas e dos zabumbas. É um tripúdio isto, amigo abade! Quem sai do seio da natureza rude, e de repente se acha à labareda destes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial filosofia destas tramóias de teatros!»
Assanhou-se o abade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o Estado subsidiava o Teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais. Calisto fez pé atrás, e exclamou:
- Obstupui!... O abade zomba!... O Estado!... o meu colega disse o Estado!
- Sim, o tesouro... - confirmou o clérigo.
- A res publica? o dinheiro da nação?
- Certamente: pois de quem há-de ser o dinheiro, senão da nação?
- Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do teatro de Lisboa!
- Vinte contos de réis.
Calisto Elói correu a mão pela fronte humedecida de suor cívico, e sentou-se nas escadas da Igreja de S. Roque, porque ao espanto, cólera e dor de alma seguiram-se cãibras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abade, e foi para casa. "

Excerto de " A Queda de um Anjo", de Camilo Castelo Branco, Ed. Clássicos Público,1995

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

" A caveira da mártir " - Camilo Castelo Branco

" Um dia, pouco depois de nascido o Sol, quando se não esperava, chegou à portaria de Odivelas D. Catarina de Castro em sege com sua mãe, e dois monges de S.Bernardo em outra sege. A prelada recebeu a nova que lhe levou a porteira juntamente com a ordem do dom abade-geral, em a qual se incluía a sentença absolutória da freira, acusada falsa e protervamente por denunciantes contra quem as leis civis iam proceder, se o Santo Ofício fosse, contra os usos e direitos, menos executivo.

A fim de não amotinar a comunidade, que ainda ressonava ensopada nas molezas da manhã, a prelada foi silenciosamente à portaria, recebeu com boa sombra a freira, e ordenou que se recolhesse a mãe à hospedaria do mosteiro.

Catarina entrou na cela, e fechou-se para chorar e gemer, abafando os gritos com o lenço premido na boca. Mas, às vezes, a pontada no coração era tão lancinante, agonizavam-na tão insofridas aflições, que os soluços estalavam-lhe agudíssimos da violenta represa."


Excerto de " A caveira da mártir ", de Camilo Castelo Branco, Ed. Domingos Barreira

segunda-feira, 21 de maio de 2007

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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