Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Agustína Bessa-Luís - " Memórias Laurentinas "








« Há homens sós, mas não há mulheres sós; elas sempre encontram maneira de emparceirar com tudo o que não lhes oferece resistência, inclusive um deus.»


«As mulheres não reconhecem a glória senão nos filhos, nos amantes e nas coisas razoáveis da vida, como a chave de casa e do coração das amigas.»

«Um homem apaixonado, mesmo morto, convence mais do que cem poetas vivos. Digo isto porque os poetas nunca se apaixonam. São pessoas litigiosas e que seguem os caminhos da poesia para sequestrar a admiração dos outros.»

« - As mulheres gostam de quem as sustenta. Mesmo quando são ricas não sabem gastar o que é delas. Só sabem gastar o que é nosso.
- As mulheres gostam de dois tipos de homens: os que as despem e os que as vestem.»

«Os tempos eram rudes, e ainda são. Não me venham dizer que isto só acontece aqui, neste país folião e miserável, que não acontece. A Europa profunda ainda tinha trogloditas há pouco tempo, as crianças dormiam na palha e iam trabalhar aos sete anos. As coisas mudam tragicamente, ou não mudam. A habitualidade funciona como um travão e as leis levam uma eternidade a ser aceites e adequadas ao génio da mendicidade, que é mais poderoso do que se julga. Basta dizer que o génio da mendicidade vive em todo o lado, tanto no palácio como na barraca. Um político que queira ter sucesso tem que servir o génio da mendicidade; da sua camarilha, primeiro, depois dos ricos e do povo em geral. Tem de prometer aos que precisam e aos que não precisam. Tem de dar ou fingir que o fará; tem de viver com a dívida permanente do auxílio que não pode prestar, e lega aos seus sucessores a má-fé desse acordo com o génio da mendicidade que devora a alma do povo e não chega para acudir a todos os desastres que se acumulam sobre a cabeça dos cidadãos.»

domingo, 15 de maio de 2011

«Estás em perpétua contradição. Inutilizas-me metade da vida e nunca me pude desfazer de ti. Nesta luta de todos os dias, quando me julgo livre, é quando te sinto todo o peso.

Isto é de certo a vida. Mas a vida é também o instinto que me diz: - Aproveita, não deixes fugir o único minuto. Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveitá-lo.»




Excerto de "Húmus", Raul Brandão
«É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma influência oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira na existência, que é metade do nosso ser. Incerteza, dúvida, remorso... Nunca se cerra de todo a porta do sepulcro, sentimos-lhe sempre o frio. Agora não, a vida pertence-nos. A morte não existe, desapareceu a morte...»



Excerto de "Húmus", Raul Brandão
«Só a insignificância nos permite viver. Sem ela já o doido que em nós prega tinha tomado conta do mundo. A insignificância comprime uma força desabalada.»
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«Estamos aqui todos à espera da morte! Estamos aqui todos à espera da morte!»


Excertos de "Húmus", de Raul Brandão

A propósito da Alma

« - A alma - diz ele - , ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia toma cor. Há-os cuja alma é duma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes de a matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluídos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. É assim que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.»


Excerto de "Húmus", de Raul Brandão

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Onde está Deus, mesmo que não exista?

" Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço...
Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas... "



Excerto de " Livro do Desassossego " de Fernando Pessoa, Ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A confissão de Vara

« Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei a processos - confesso-lhe, meu amigo, que não olhei a processos; empreguei tudo quanto há - açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar às armas com que combatia a tirania?!»

Excerto de " O Banqueiro Anarquista ", de Fernando Pessoa

domingo, 15 de novembro de 2009

...

« - Não há microfones pois não tem a certeza que não há microfones escondidos?
e o que eu escutava ao servir-lhes refrescos eram tosses e pigarros, e o que eu via ao entregar-lhes os copos eram pobres velhotes inofensivos, em camisa, desidratados, à beira da síncope, enxugando-se com o lenço, à procura de bobines e de gravadores nos saquinhos de sementes e na terra dos vasos, militares que prometiam regimentos façanhudos e colegas que profetizavam aldeias inteiras desembarcando de autocarro em São Bento, abades cabeludos aos berros nos púlpitos de Trás-os-Montes, você vai ver isto é facílimo acredite, a assembleia disposta a votar por unanimidade
por unanimidade afianço-lhe
o derrube do usurpador enquanto um cavalheiro centenário, a dormitar num banquinho de lona de nariz nas orquídeas, emergia de tempos a tempos do seu coma para exigir a espreguiçar-se num crocito sonâmbulo
- Não me vou daqui sem as Finanças não me vou daqui sem as Finanças
e até à noite, já sem se distinguirem nas trevas, distribuíram pastas, secretarias, embaixadas, comendas, direcções-gerais, esquartejando Portugal entre si como um borrego, com o velhote a insistir numa teimosia férrea
- Não me vou daqui sem as Finanças
partindo finalmente numa prudência de sussurros, com medo de aparelhos de escuta da polícia disfarçados nas guelras dos peixitos do lago, a esbarrarem no caramanchão e na capoeira enervando as galinhas, a picarem-se nos espinhos das rosas que boiavam no escuro, o senhor doutor para mim desiludíssimo
- Uma cambada de gágás Titina »


Excerto de " O Manual dos Inquisidores ", de António Lobo Antunes, Ed. Planeta DeAgostini, 2000

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Banqueiros...

« e cinco minutos depois descia as escadas para a rua no centro de uma chusma de militares maltrapilhos que os caixas aplaudiam, que os comunistas aplaudiam, que as empregadas da limpeza aplaudiam, que até a cabra da secretária, após um momentinho de hesitação, aplaudia mais forte do que os outros, de dedos tão carregados de ouro que ainda hoje estou para saber como lograva movê-los, cá fora os aplausos transformados em ameaças, um contínuo a pontapear-me o traseiro, um paquete a cuspir-me e eu de auscultador na orelha, incapaz de distinguir se era o pessoal do banco ou o delegado de Zurique quem me insultava, eu para o bocal enquanto me empurravam para uma furgoneta do Exército
- Perdão?
na cela de Caxias dei com os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus sócios, cada qual com o seu telefone em punho, a arrastar um pedaço de fio na ilusão de transferirem uma ninharia de dólares para Denver, para Paris, para Tóquio, para Barcelona, todos eles sem atacadores nem gravata a perguntarem à uma aos aparelhos mudos
- Perdão?»
Excerto de " O manual dos Inquisidores ", de António Lobo Antunes

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

No seu aniversário


« Senão, era ver Rosamaria, com o seu ar de bruxa em sabat, com aquele riso carnívoro que só de ouvi-lo era como um galope de garanhões e um voo de pretas aves em eucaliptos; como se trocassem moradas, rotas, mapas dos desejos. Era só ver a sua própria mulher, Beth, tão gasta como um pano de cozinha, dessa beleza que se convencionou ser austera, mas que é afinal sinal de maus ovários, mau fígado, más veias. O sangue corria aos tropeções nos seus capilares e eles rebentavam, e ficava a dor lancinante que ela dizia ser como uma agulha que passasse nas suas veias. Mas não dispensava ser amada, doente como era, sempre prestes a receber a dor como um filho, a enfaixá-la, a carregá-la no aconchego da carne; até tinha lubricidades, carinhos, apetites; era preciso, senão contentá-la, ao menos respeitar esses grotescos parênteses de amor que ela não merecia. O amor era para jovens belos e rapídissimos, que correm como o vento, saltam até às estrelas; e não aquele rugido triste de homem e mulher, aquela perseguição cheia de artes falsas, de ameaças, de ódio até, e que as crianças suspeitam como a chaga que respiram e que fede no quarto do casal. Os homens sabem que o amor é uma coisa divina, feita para gente divina; e, por isso, matam, porque não são divinos nem suportam interpretar o amor como uma farsa vulgar. Por isso morrem, e dão à morte nomes heróicos, como Sócrates deu, cruelmente marcado na sua prisão, que ele pediu para o corpo velho e sem esplendor, de verme com consequências divinas, mas não divino.»
Fotografia de Agustina Bessa Luís, por Jorge Afonso
Excerto de " Os meninos de ouro "(1983), Ed. Guimarães Editores, 7ª Edição(1987)

domingo, 23 de agosto de 2009

« O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão práctica do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir. »


Excerto de " Livro do Desassossego ", de Fernando Pessoa, Ed. Richard Zenith para a Assírio & Alvim

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

«A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o obstáculo para a energia.
A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. O que gozei destes campos vastos, gozei-o porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido.
A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma apreciação do natural.
É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da alma humana superior.»

Excerto do " Livro do Desassossego ", de Fernando Pessoa, Ed.Richard Zenith para a Assírio & Alvim

segunda-feira, 6 de julho de 2009


«Em tempos, o lavrador do Douro era alguém muito especial,que não precisava de ter uma psicologia, bastava significar um cargo dentro de um território. A Marca era esse território, e dentro dele tudo se passava sem muitas surpresas; interessado nas obrigações, o lavrador era uma espécie de místico que a filoxera estremeceu, mas que sobrevive ainda numa certa alegoria onde lampeja o espírito rácico. Talvez isto aconteça com todos os territórios e as suas populações e os seus clãs; mas no Douro é particularmente evidente essa convulsão de opiniões que expulsam tudo o que não se refere aos seus costumes e à sua organização modelada pelo clima, a sedentariedade, a minúcia de uma cultura e o método que repudia transformações e crescimento. Diferente do que pensam os economistas, uma área produtiva não se destina apenas a ser rentável; sobretudo é uma área onde a vida se condensa e se transmite. Representa uma condição histórica que se reflecte e se repercute, pondo a tónica principal, não no lucro, mas sobretudo na circulação da energia, que implica o lucro também, mas que acentua a persuasão da inteligência, do investimento moral. Pode acontecer que, mercê de uma imobilidade sentimental, mais do que motivada por carência material, um território se degrade e a crise se instale irremediavelmente. O perigo de uma civilização local é o de ela se tornar incomunicável; com o Douro, com o Nordeste Transmontano, com o País inteiro talvez, passa-se isto: ama a sua anexão ao hábito, á energia que não dinamiza e que se circunscreve a uma intriga momentânea e suburbana. Nada mais, tudo se converte em rotina. E, com ela, procede-se à sensibilidade barroca, ao apanágio do pormenor, ao retraimento cívico em favor da gesta privada. Enquanto se degusta a passividade, cai-se no arcaico. E a pessoa provincial dificilmente se recupera para universalidade da esperança, ficando-se no diálogo com os mortos e o colóquio com os antepassados, elevados à qualidade de monitores pelo conforto que a sua distância ministra.»

Excerto de " Os meninos de ouro ", de Agustina Bessa Luís, Ed. Guimarães Editores, 7ªEdição, 1987

sábado, 11 de abril de 2009

Páscoa Feliz de José Rodrigues Miguéis

« Sinto-me bem nesta cadeia. É um belo edifício claro, em pavilhões de dois andares, isolados no meio duma grande cerca arborizada, que um alto muro separa, julgo eu, de caminhos e terras cultivadas. Nenhum rumor chega de fora. Às vezes, vou até junto desse muro, que a hera muito densa envolve de poesia, e, numa sombra repousante e fresca, abandono-me a ouvir os pequenos murmúrios da terra e do ar - uma folha que tomba, um pássaro que tila, um insecto que zumbe, um gorgolejo de água - e assim levo muitas horas do meu dia, meditando e escrevendo, como os frades antigos, até que um toque de sineta me venha chamar para a comida ou para o recolher.
Tudo me parece raro, novo e extraordinário. Só agora descubro o oculto sentido de muitas coisas - e mais pela emoção que me provocam do que pelos juízos que formulo. Assim, depois dos meus erros e crimes, pergunto a mim mesmo se será legítimo viver com tanta calma e despreocupação: um criminoso não deveria ter dores, ser torturado? A punição é apenas isto?
Sim, tenho há muito a impressão de que vivo num sonho. A vida corre com uma serenidade impressionante. Penso quanto, noutro tempo, eram felizes os homens a quem se concedia o direito de fugir, como eu fugi, afinal, à vida angustiosa do mundo. Quase me julgo feliz. E porque não?
A cadeia não é como eu supunha, nem o que se diz lá fora. Nada nos falta, tratam-nos bem, embora vivamos numa quase completa solidão. Isto a mim agrada-me, de resto: aborreço o convívio dos homens. Só na aparência os considero meus semelhantes. Aqui, sou apenas um número: o 28.»

Excerto, ler aqui pp. 19 a 27.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Leituras na retrete(2)

"É uma experiência única, diziam na TV: «Em Famalicão, crianças ensinam idosos a escrever.» Por acaso, não é uma experiência única. A televisão tendência para os exageros, é perdoável. A televisão é um abajur com meio século de idade num mundo que existe há biliões de anos e na história de uma humanidade que já vai em quatro mil anos bem escritos e cheios de escrita. Ainda assim é (e isso devia bastar) uma bela experiência: crianças a ensinarem adultos.
No entanto, devo dizer que, apesar de bela, se trata de uma experiência mais do que banal. O que acontece é que nem sempre os adultos estão disponíveis para aprender. Nisso lembram-me muito os meus alunos. Às vezes não lhes apetece aprender, e depois dizem que eu não ensinei nada. Palermas."(04/03/2009-06:15)

Retrete da Namibia e excerto da crónica 7. Lições de vida, incluído no livro "Luto pela felicidade dos portugueses", de Rui Zink, Ed. Quasi, Colecção Inéditos Sábado

sábado, 31 de janeiro de 2009

Castelo da Feira

Fotografia de Jorge Orfão

« A vida tem sido amarga para mim. Mas, enfim, eu sonhei usar óculos, e uso-os; sonhei ter botas altas, e pude arranjá-las, quando estive na tropa; sonhei ter carta de condução, e tirei-a nessa altura; sonhei - ó sempre Capitão Morgan e meu pai, capitão de navios em que eu navegava da Rocha do Conde de Óbidos a Santa Apolónia! - navegar de longo curso às Áfricas e aos Brasis, e, sabe Deus como, naveguei; sonhei visitar o Castelo da Feira, aquelas torres, aquele eirado dos retratos, e visitei-o sozinho, fechado à chave pelo guarda, que é como aquilo gostosamente se visita.»

Excerto do artigo " Castelos e outros objectos de influência ", de Jorge de Sena, publicado no Jornal de Letras, Nrº 1000

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O lugar do gelo

Uma ocasião, Marina Mota, a jovem mulher do Zeca da Carris, acordou sobressaltada de noite, com um berro na casa. Era o marido que andava lá para dentro e que lhe dera para gritar, como se tivesse visto uma aventesma. Marina soergueu-se, abriu a luz. Aventesma não havia, era antes o Zeca que se tinha queimado, provavelmente na cozinha, onde costumava esgueirar-se pelas madrugadas para ir ao armário das comidas.
- Ai - explicitou o Zeca em novo grito - ai que me queimei! - E seguiam-se imprecações, em fiada, indignas de impressão.
Num credo, estava Marina ao lado do Zeca, na sala de estar, presenciando a estranha dança que ele desempenhava, muito dobrado, os pés muito juntos, a mão entre as coxas resguardada.
- Que é que foi, homem, que é que te deu? - perguntou a Marina, como lhe convinha.
- Foi que me queimei na puta da máquina de costura, é o que foi - respondeu de lá o Zeca agastado, continuando naqueles pulinhos miúdos que até faziam desandar o soalho.
Em pouco estavam os pais do Zeca, que dormiam no outro quarto, a observar aquele preparo todo de dentro dos pijamas, com a mãe a benzer-se e o pai a fazer gestos de apelo à calma.
- Mas quê? - avançou o pai. - Há fogo? Tá alguma coisa a arder?
- Ó senhor - disse o Zeca. - Abram mas é a luz e venham cá ver.
Tinha metido a mão debaixo do sovaco do outro braço e olhava com um ar suspeitoso para a máquina de costura.
A Marina observou que não lhe cheirava a esturro e, mais afoita, estendeu a mão para a máquina. Era um aparelho de segunda mão, em muito bom estado, entregue na véspera, que estava ali, junto à janela, para ajudar ao rendimento do casal.
- Cuidado com isso! - gritou o Zeca.
- É preciso é calmaria - respondeu o pai, que seguia interessado o movimento da nora, satisfeito por se saber dispensado de tomar a iniciativa e o risco.
Mas aí a um palmo da máquina, Marina retirou a mão, num sobressalto:
- Irra, tá frio.
E todos repararam que, à luz eléctrica, a máquina rebrilhava como se coberta de pequenos flocos brancos, luzentes.
- Tá frio o caraças... - disse de lá o Zeca. - Então como é que eu me queimei?
A mãe dizia: - Ai que coisa mais escanifobética! - e o pai, devagarinho, foi estendendo também a mão, que logo sacudiu num movimento brusco.
- Tá frio, pois - exclamou, exibindo os dedos arroxeados nas pontas. - Tá um frio que até trespassa!
Bateram à porta: eram vizinhos, a saber se havia azar...
Que não havia, mas que o espaço em volta da máquina de costura estava frio como o camandro.
Todos foram experimentar, dedo aqui, mão acolá, pé por baixo, queixo por cima. O próprio Zeca passou ao de leve o indicador da outra mão pela área suspeita.
- Tem graça, agora deu-me o frio, mas há bocado queimei-me mesmo.
Mas o vizinho de baixo, que tinha um irmão emigrado no Canadá, explicou logo o fenómeno, numa voz muito pausada: o amigo Zeca tinha-se queimado porque o frio também queima.O irmão dele, uma vez lá em Dawson tinha apoiado uma mão ao guarda lamas de um tractor e quase lá ia deixando a pela, tal a ferroada da queimadura.
E isso acontecia quando a temperatura estava muitos graus abaixo de zero.
- Mas se isto é um país de clima temperado... - queixava-se o Zeca - ainda mais temperada havia de ser a minha casa, ou não é verdade?
O miúdo, entretanto, tinha-se insinuado por debaixo das pernas de todos e chegado à zona da máquina de costura.
Logo rompeu num berreiro alto e dasaustinado agitando os dedos num frenesi: - Pica - gritava - pica...
A mãe subiu-o ao colo e chegou-lhe o bafo à mão.
Mas o Zeca já recobrara o sangue frio e dirigia agora ponderadas operações. Empoleirado numa cadeira, o vizinho estendia vagarasomente os braços por cima da máquina de costura:
- Pronto, agora mais abaixo - comandava o Zeca.
O vizinho teve um rebate: - Olhe - disse - começa aqui mesmo o frio, por esta altura - e passava a mão por um plano distante do tecto cerca de um metro - Daqui para cima está normal, para baixo é que há frio.
E, lembrado das coisas do Canadá perguntou ao Zeca:
- Ó Zeca, vocês deixam-me fazer uma experiência? Não levam a mal, hã?
Alçou o queixo, remoeu qualquer coisa na boca, ruidosamente, e cuspinhou com força para a máquina de costura.
O cuspo descreveu um arco rápido, mas ao chegar à zona do frio estalou no ar e desfez-se em pequenos grãos de saraiva que embateram com estrondo contra a máquina - Taclac-lactac.
Breve havia muita gente a cuspir e o chão em volta estava pontilhado de pedaços de granizo:
- Vamos lá a parar com cuspinheira qu´isto aqui não é a aldeia dos macacos - comandou o pai do Zeca.
Mas já por então estava delimitada a zona de frio: era um paralelepípedo com cerca de um metro e meio de frente por oitenta centímetros de largura e dois metros de altura.
Corpo que avançasse para além, era traçado pelo griso.
- Traz lá o jarro da água - disse para a Marina - mas cheio, hã?
Veio o jarro, meio cheio, que a Marina antevia águas derramadas, e o Zeca atou-lhe uma guita à asa. Todos ficaram a vê-lo subir para uma cadeira e a desenrolar o fio muito de mansinho, até que o jarro entrou na zona crítica.
- Plak klak - rachou-se o jarro, por todo o lado. Os cacos de vidro espalharam-se por cima da máquina de costura, com excepção da asa que ficou presa à guita. E um grande bloco de gelo rebolou sonoro pelo tampo da máquina e veio quebrar-se no lajedo do chão.
- Tudo gela instantaneamente - comentou o vizinho. - Gela o cuspo, gela a água... Que bonito par de botas vocês arranjaram...
E toda a gente estava embasbacada com aquilo.
- O que me rala - comentou o Zeca - é não saber se isto é da máquina ou se é do sítio. Ora arredem-se para lá.
E entrou no quarto de dormir, donde regressava momentos depois, muito inchado de casacos, sobretudos, luvas e cachecóis e com a cara envolta por duas toalhas das grandes.
Todos riram de o ver naquele preparo, a que não faltava uma estola da Marina a envolver-lhe a nuca.
- Lá a calari que o homem tá a trabalhar - ordenou o Trindade.
O Zeca então, praguejando, chegou-se à máquina e puxou-a com força. Todos lhe viam o vapor da respiração que parecia uma fumarada de comboio velho. Mas o Zeca deu um grande impulso à máquina e o grupo afastou-se, num salto, para não ser tocado pelo frio.
A máquina estava agora no meio da sala e o Zeca entre os outros. Uma fina camada de gelo cobria-lhe as sobrancelhas, as pestanas e a ponta das patilhas. Esfregava as mãos uma na outra que nem um desalmado.
- Safa, que ia morrendo gelado. Mas não há dúvida, o frio vem desta engenhoca.
- É - comentou o vizinho de baixo, hóspede de D. Constança,que se passeava impunemente, em pijama, pelo sítio em que, antes, junto à parede, estivera pousada a máquina e agarrava agora o bloco de gelo que começava a derreter - em volta da máquina é que faz frio... O amigo Zeca tem de decidir, tem de escolher onde é que lhe faz menos diferença o frio.
- Então fica onde estava - respondeu o Zeca, limpando os beiços à mão, depois de emborcada uma «amarelinha» que a mãe lhe trouxe, para aquecer.
- Vamos a isto? - disse - e reentrou na zona do frio, empurrando de novo a máquina contra a parede, com grande estridor de ferragens deslocadas.
Logo saltou para fora, com os beiços roxos, cheio de poalha branca na cara e reclamou um aquecedor. Ligaram um radiador eléctrico. O Zeca despiu-se, devagar, daquelas roupagens todas, e, por fim, disse para todos:
- Bom, o espectáculo que havia a ver já tá visto. Agora agradecia que me desamparassem a loja que amanhã é dia de trabalho.
Todos foram saindo, resmungando, contrariados. O Zeca ainda pensava em procurar no dia seguinte o vendedor da máquina de costura e pedir-lhe contas. Mas a Marina dissuadiu-o:
- Nem pensar em tal semelhante - arengou muito espevitada e de mão na cara. - Então não vês que isto nos dispensa de comprar o frigorífico? É o melhor congelador que há, homem... Até podemos alugar espaço à vizinhança para guardarem as coisas deles.
Não era mal pensado e assim se fez, porque comprometer a utilidade com a estranheza é ainda mais parvo que confundir género humano com Manuel Germano.


Conto de Mário de Carvalho, incluído no livro " casos do Beco das Sardinhas ", Ed. Contra Regra,1982

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Os projécteis pesados

As únicas ilusões são sobre os mortos. Julgas que eles são melhores do que realmente são.
A vida é uma só - obter dinheiro ou reputação e filhos para justificar perante os outros o facto de não te atirares de um prédio abaixo - e a morte faz parte dos vivos, é a 2ª parte como nos filmes. Não penses que os mortos são anjos.
Nem as crianças o são. E por que fazem estas coisas? Fechou duas crianças numa casa e durante três semanas só lhes deu água. Vimos imagens. As crianças quase não tinham nádegas. Já viste crianças assim?
A minha mulher repetia: Por que fazem isto?
Eu lia um livro e não queria ver, mudei de canal.
Leio: «Cerca de 500 a.C os Gregos e os Cartagineses utilizavam máquinas para o lançamento de projécteis pesados».
Na verdade, utilizar-se máquinas para o lançamento de projécteis pesados é bom, como o coração, que é pesado, demasiado pesado, e, em alguns momentos, como era bom atirá-lo para longe. Bem satisfeitos ficaríamos, sem coração, com um buraco no sítio do peso, como em algumas esculturas de santos e de Cristo, com uma gaveta no lugar do coração. Gaveta na qual os velhos guardam jóias de família. Usura e caridade no mesmo espaço para poupar metro quadrado, assim é que é.
A catapulta tem um braço de lançamento que termina numa concha exactamente como uma colher. E é na colher que ponho o coração. Como diz no livro:
«A força propulsora da catapulta resultava da elasticidade das cordas torcidas à volta do extremo do braço de lançamento.»
O projéctil é enviado para longe, como se pretende, quando o braço de lançamento embate numa trave que o pára, obrigando-o, assim, a expulsar o que antes segurava. Se não existir algo que trave o braço, o braço anda à volta, em círculos e círculos, e tudo se repete, e nada se expulsa.
Para mandar para longe alguma coisa é necessário primeiro segurar com força nessa coisa, depois efectuar um movimento rápido com o braço, e por último travar subitamente e projectar o pulso para a frente. É assim que as prostitutas expulsam o coração quando com a boca pintada de bâton chupam o pénis do velho que não conhecem, e a cama tem molas que emitem ruídos (guinchos)ao mesmo tempo que a prostituta chupa o pénis do velho que está sentado e espera, e é assim que a catapulta funciona.
Nos rapazes e raparigas com desgostos amorosos e que são cumprimentados na rua também se usa a mesma técnica, já conhecida dos antigos: uma máquina de guerra. Atirar o coração para longe. A catapulta.
E nos que sobrevivem ao adultério também.

Conto de Gonçalo M.Tavares, incluído no livro "água, cão, cavalo, cabeça", Ed. Caminho

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Os vivos

Claro, a raiva domestica-se como os cães. Mas, certas vezes, alguém cede e atira uma bala a dois metros na cara do outro, em pleno café.
Uma tese; esta.
«Um homem só pode actuar porque pode ignorar, e contentar-se com uma parte do conhecimento.» (E sobre o conhecimento escreve que é o capricho particular do homem: ultrapassa o necessário.)

Tens dois metros para saltar e saltas quatro, mas esses dois a mais nada contam senão para o orgulho: não recebes mais pontos nem menos doenças: foi exibida uma habilidade, e é tudo.

As oportunidades de suícidio perdem-se como as moedas. Mas se fazem muito barulho a cair no chão, voltas atrás, baixas o corpo e recuperas essa moeda: guarda-a bem, um dia poderás ter que a utilizar.

A mesma moeda que não sai da posse da mesma pessoa. É imaginar um acaso destes, quinze anos com a mesma moeda: foi um acaso, nada de intencional.

Atirou-se da ponte. Parou o carro. Andou uns metros sobre a ponte. E depois atirou-se. No funeral, mulheres choravam e homens que choravam sem esconder a cara: nada assusta mais que uma coisa vertical e séria que chora, aceitação de tudo: eu aceito, ele aceita, todos aceitam.

E, claro, a ponte: o suicídio. É que por vezes é a raiva que domestica o corpo. Nem sempre os vivos são fortes como alguns vivos são fortes.


Conto de Gonçalo M.Tavares, incluído no livro " água, cão,cavalo, cabeça ", Ed. Caminho

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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