Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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domingo, 15 de novembro de 2009

...

« - Não há microfones pois não tem a certeza que não há microfones escondidos?
e o que eu escutava ao servir-lhes refrescos eram tosses e pigarros, e o que eu via ao entregar-lhes os copos eram pobres velhotes inofensivos, em camisa, desidratados, à beira da síncope, enxugando-se com o lenço, à procura de bobines e de gravadores nos saquinhos de sementes e na terra dos vasos, militares que prometiam regimentos façanhudos e colegas que profetizavam aldeias inteiras desembarcando de autocarro em São Bento, abades cabeludos aos berros nos púlpitos de Trás-os-Montes, você vai ver isto é facílimo acredite, a assembleia disposta a votar por unanimidade
por unanimidade afianço-lhe
o derrube do usurpador enquanto um cavalheiro centenário, a dormitar num banquinho de lona de nariz nas orquídeas, emergia de tempos a tempos do seu coma para exigir a espreguiçar-se num crocito sonâmbulo
- Não me vou daqui sem as Finanças não me vou daqui sem as Finanças
e até à noite, já sem se distinguirem nas trevas, distribuíram pastas, secretarias, embaixadas, comendas, direcções-gerais, esquartejando Portugal entre si como um borrego, com o velhote a insistir numa teimosia férrea
- Não me vou daqui sem as Finanças
partindo finalmente numa prudência de sussurros, com medo de aparelhos de escuta da polícia disfarçados nas guelras dos peixitos do lago, a esbarrarem no caramanchão e na capoeira enervando as galinhas, a picarem-se nos espinhos das rosas que boiavam no escuro, o senhor doutor para mim desiludíssimo
- Uma cambada de gágás Titina »


Excerto de " O Manual dos Inquisidores ", de António Lobo Antunes, Ed. Planeta DeAgostini, 2000

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Banqueiros...

« e cinco minutos depois descia as escadas para a rua no centro de uma chusma de militares maltrapilhos que os caixas aplaudiam, que os comunistas aplaudiam, que as empregadas da limpeza aplaudiam, que até a cabra da secretária, após um momentinho de hesitação, aplaudia mais forte do que os outros, de dedos tão carregados de ouro que ainda hoje estou para saber como lograva movê-los, cá fora os aplausos transformados em ameaças, um contínuo a pontapear-me o traseiro, um paquete a cuspir-me e eu de auscultador na orelha, incapaz de distinguir se era o pessoal do banco ou o delegado de Zurique quem me insultava, eu para o bocal enquanto me empurravam para uma furgoneta do Exército
- Perdão?
na cela de Caxias dei com os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus sócios, cada qual com o seu telefone em punho, a arrastar um pedaço de fio na ilusão de transferirem uma ninharia de dólares para Denver, para Paris, para Tóquio, para Barcelona, todos eles sem atacadores nem gravata a perguntarem à uma aos aparelhos mudos
- Perdão?»
Excerto de " O manual dos Inquisidores ", de António Lobo Antunes

domingo, 25 de outubro de 2009

O nosso Cisco Kid


«Cada bairro é um xadrez, com os seus reis, e é disso que António Lobo Antunes agora fala, da malandragem. A gente sabe como ele gostava de ter sido o Cisco Kid, e já viu o que ele leu de policiais.»
Excerto de " Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes ", entrevista de Alexandra Lucas Coelho, publicada na Ípsilon de 23/10/2009.

sexta-feira, 6 de março de 2009

estrebaria de porta aberta

«na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo à frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com umas tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado ao balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader's Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo de João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos, a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito»

Excerto de crónica de António Lobo Antunes, publicada na edição de aniversário do Público(05/03/2009), ler aqui artigo completo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As meninas

« A que nos vinga, a que nos enche de vida?

O quadro que eu prefiro é " As Meninas ", do Velasquez. Aquilo é um grande livro, um grande tudo. Mas onde é que está o livro? Não há livro, há vida. Aquele quadro ou o Vermeer: enquanto houver pessoas destas, a nossa vida não foi em vão. Não acabou com o absurdo final e a injustiça final da morte.

Excerto de entrevista efectuada por Anabela Mota Ribeiro a António Lobo Antunes, publicada na Pública de 12/10/2008

Infância traumática...

« A Maria Adelaide parece a encarnação de qualquer coisa boa, um desejo da infância.

A infância é boa retrospectivamente. Na realidade é um período dramático, de grande sofrimento, como a adolescência é. A maior parte das crianças são infelizes. Estão sempre a frustrá-las. Por que carga de água tenho de estar sempre a lavar os dentes?, porque é que tenho de comer a sopa?

Excerto de entrevista de Anabela Mota Ribeiro a António Lobo Antunes, publicada na Pública de 12/10/2008

Bofetada lúdica!


«Quando é que, realmente, andou à pancada a última vez?


Há uns meses dei um estalo a um gajo de mão aberta, de propósito. Não foi com muita força, mas foi um estalo - e isso humilha. Um murro não humilha. Porque é que foi? Não me lembro. Aquilo é feito com sentido lúdico. Como se fosse um miúdo. »
Excerto de entrevista efectuada por Anabela Mota Ribeiro a António Lobo Antunes, publicada na Pública de 12/10/2008

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Leituras de infância(1)





António Lobo Antunes, escritor português que tem sido cogitado para o Nobel de Literatura, cita de forma favorável "Flash Gordon", Júlio Verne e os quadrinhos, entre outras obras/autores, em entrevista no programa "Espaço Aberto Literatura", do canal Globo News, em dezembro/2007.


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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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