Lembrei-me do prior da Cartuxa, que me falou do dia em que deixou de acreditar em Deus. Um homem que desistiu de tudo, para passar a vida fechado num convento. E de repente, sozinho na sua cela, à noite, descobre que perdeu a fé. "Deus ausenta-se", sussurrava o prior, apavorado.»
Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Lembrei-me do prior da Cartuxa, que me falou do dia em que deixou de acreditar em Deus. Um homem que desistiu de tudo, para passar a vida fechado num convento. E de repente, sozinho na sua cela, à noite, descobre que perdeu a fé. "Deus ausenta-se", sussurrava o prior, apavorado.»
domingo, 1 de novembro de 2009
Leituras de domingo(4)
Hoje vi um poema na parede com o teu nome por baixo. Quando morreste, o Mário Correia, do centro de música de Sendim, ficou sem fala. Depois foi ao livro dos visitantes e emoldurou aquilo que lá tinhas deixado no dia 23 de Julho de 2003.
E assim estás lá, no meio dos discos, dos filmes, das 1800 horas de música recolhidas pelas aldeias, e até hoje há uma cadeira vazia no Festival Intercéltico que é tua, diz o Mário. Foi ele que pela primeira vez te pôs uma gaita-de-foles nos braços, que festa.
O país de Lisboa enfeita-se de vez em quando com Miranda, mas aquilo eras tu.
Quantas textos nos mandaste daqui? Quantos concertos da June Tabor, quantos Intercélticos, quanta paixão?
Havia a música, a gente tocava, dançava, comia e bebia. E às tantas tu ias sozinho pelo planalto, ver a lua, ver o rio.
Diante do princípio do mundo que é o Douro em Miranda talvez Lisboa esteja extinta. Ou talvez tudo possa ainda começar.
Nas arribas hoje de manhã era Verão, o rio polido, as pedras quentes. Ma já havia árvores douradas e vermelhas e as folhas dos choupos flutuavam na água.
À hora do almoço fomos comer a posta à Gabriela. As alheiras, de entrada, tinham sido feitas ontem. Provámos compota de figo, abóbora, marmelo, ginja, cereja e pêra.
A Adelaide diz que já ninguém passa fome em Sendim, mas o pastor Lázaro, de Duas Igrejas, contou-nos que um pastor se enforcou há dias, deixando oito filhos, porque já não podia com as dívidas.
Ao lusco-fusco, as pedras entre Sendim e Bemposta pareciam grandes animais deitados.
A lua entrou antes do sol sair, quase cheia.
Não via a casa do teu Sporting, só a do Benfica, e à noite, na televisão, passou o Porto-Belenenses.
Na associação dos pauliteiros em Duas Igrejas poucos olhavam para o jogo. Os mais velhos batiam cartas, as raparigas comiam castanhas, os rapazes abriram o salão e fizeram três danças com os paus, incluindo a do salto de cavalo. Estavam cheios de proa por terem ido à América em Junho. Puseram-se a dançar em Times Square com as saias e tudo.
Hoje, domingo, 1 de Novembro, Miranda vai ver os seus mortos, levar-lhes flores, falar com eles. Parece que daqui se ouve melhor.
O Mário contou que quando vocês iam às arribas, ele dizia: " Como somos pequenos." E tu dizias: "Estás enganado, aqui somos enormes."
No poema que deixaste em Sendim, há este verso: "E das pedras se faz luz."
Fazias tu, e era isso que a gente lia.
( Fernando Magalhães, jornalista fundador do Público, morreu a 15 de Maio de 2005, aos 49 anos)»
" Carta de Miranda para o Fernando ", crónica de Alexandra Lucas Coelho, P2, Público, 01/11/2009
domingo, 16 de agosto de 2009
Meu querido mês de Agosto*
A música das moscas
Começa o meio de Agosto e são as festas em toda a parte. De Senhoras nossas. Da Agonia; da Assunção; do Desespero; da Angústia; da Depressão; das Dores: de todos os castigos imagináveis que possam ajudar a disfarçar o prazer que dão.
É um prazer ouvir a música ao fundo das bandas a ensaiar aqui ao pé, para a festa de amanhã. Das filármonicas mal preparadas que se querem preparar num dia só; das charangas desafinadas que mais ninguém vai ouvir.
Agosto é um mês de partilhas indesejadas. São as pessoas perto de mais. São as estradas e praias que nos fazem sentir parte de um horrendo organismo multicelular. É o bacanal das moscas, esquecidas até do açucar, tal é a febre pela marmelada. Mas, tal com no amor, não é por uma coisa ser indesejada que é desnecessária.
Ouço a filármonica a deglutir a melodia, já de si escassa, do Malhão, Malhão e, atrás da nuvem de moscas, ainda consigo vislumbrar o coreto onde tudo se vai passar. Aqui ao pé, mas longe de mim. E chego a esta chocante conclusão: afinal gosto. Sem participação e com queixume entredentes, a proximidade destas coisas celebratórias até comove um bocadinho. É como se estivéssemos lá sem termos de lá estar. É como concordar que é melhor ser humano a aturar as moscas do que ser mosca a aturar seja o que for.
Faz-nos bem estarmos perto, estando separados. São os erros dos músicos coagidos que tornam bonito o assassinato musical que cometem.
Miguel Esteves Cardoso, Público, 16/08/2009
*Dino Meira - " Meu querido mês de Agosto "
domingo, 2 de agosto de 2009
Paris,Texas
«E eis pai e filho, emboscados em Houston, de binóculos e walkie-talkies, à espera da mãe, à procura da mãe, perseguindo um carro vermelho que talvez seja ou não seja dela. Travis descobre que Jane trabalha num peep-show, lá está Nastassja Kinski esplendorosa, um vestido de lã cor-de-rosa sem ombros, naquela casa de fantasmas e fantasias. Ele finge que é um cliente, do outro lado do espelho, onde ela não o vê, e fica decepcionado, quer de novo acusá-la, mas ela diz que é uma confidente dos clientes. Não é uma prostituta: é uma mulher que ouve os homens. Travis vai-se embora, e conta a Hunter que o pai gostava que a mãe fosse uma "fancy woman", uma mulher parisiense, mas que ela era apenas uma mulher simples e boa, e que isso é o mais difícil. Mas o pai gostava de uma ideia de dela, tal como Travis gosta de uma ideia de família. Percebe então que não há família possível, que o que ele fez não tem cura, os anos de ciúmes, álcool, violência, uma história de amor que começou com uma aventura e que acabou com ele literalmente em chamas. Grava uma carta de despedida e vai de novo ter com Jane, como se fosse um cliente.
Num longo monólogo, de costas para não a ver, ele conta a história trágica de Jane e Travis. Sabe que o passado não volta, que a zona de segurança não existe, mas existe Hunter. "(E) ele precisa de ti." Jane, loura, vestido preto, sotaque sulista, reconhece-o enfim, como nos grandes textos clássicos, um "Oh, Travis" que é um eco de Bresson ("Oh, Jeanne"), e diz: "Todos os homens têm a tua voz." Eles os dois mal se vêem, não se tocam, estão unidos apenas num mesmo reflexo, a cara dele e dela sobrepostas.
E chega a felicidade possível: Hunter em silêncio, quase a medo, surpreendido com Jane a entrar no quarto, e depois tão natural como um filho e uma mãe, a mexer-lhe no cabelo louro, louro como o dele, e depois um abraço que é uma dança. E Harry Dean Stanton, noite e luzes no rosto de meia-idade, desaparece de novo, cantou já, agora vai chorando, e o seu último sinal de tristeza é um sorriso. O casal acabou, mas teremos sempre Paris, Texas.»
Excerto da crónica " A sagrada família ", de Pedro Mexia, publicada no P2(Público) de 02/08/2009
domingo, 31 de maio de 2009
«Vera em tudo uma rapariga de bem. Boas maneiras, bem vestida e com uma cultura superior. Excepto que, sempre que só na presença de qualquer homem, logo se despia e exigia que o coitado, ou talvez não, a penetrasse urgentemente. A família, alarmada e em vergonha profunda pelo comportamento descabido dela, arranjou um casamento apressado para resolver a situação. Nada feito. Mesmo apaixonada pelo marido, continuava a oferecer-se em bandeja a todo e qualquer par de calças ou calções que lhe aparecesse pela frente. assim permaneceu a sra. V. até à sua morte, com a profícua idade de 73 anos. Imagem de decoro quando vigiada por terceiros, depravação sexual em pessoa sempre que a ocasião o permitia, em jeito de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.Caso nrº 189 apresentado por Kraftt-Ebing, psiquiatra alemão do século XIX, a sra. V. surge como exemplo de ninfomania, doença imaginária que era diagnosticada em mulheres que não ficavam no seu cantinho sexualmente reprimido e revelavam ter desejos libidinosos próprios. Tal como os homens faziam porque assim se esperava. Ebing chega a descrever o que intitula "ninfomania aguda mortal", em que raparigas até entâo insuspeitas revelavam um súbito "desejo ilimitado de gratificação sexual", "delírios obscenos", "exigindo" o coito e terminando por morrer de "exaustão". Tadinhas.
É certo que as senhoras descritas por Ebing bem não estavam. Alguma coisa terá causado a morte das que se ficaram. Porém, tal não terá sido, poderei jurar, o excesso de desejo sexual. Uma infecção que lhes afectou os neurónios?
Uma intoxicação acidental? O que tiver sido, antes de acabar com elas, diluiu-lhes as inibições sociais, levando ao seu comportamento tão contrário às convenções da época.
Passado mais de um século, espera-se que já ninguém diagnostique ninfomania a mulheres que exigam o coito com frequência, porque elas andam por aí e recomendam-se! Mas outras etiquetas vieram continuar a tradição. Veja-se, por exemplo, como a promiscuidade, palavra feia, tanto foi usada durante a crise HIV. De súbito, os novos malcomportados eram esses tais, os promíscuos, que andariam por aí a ter sexo que nem o pacman do jogo de video. A "promiscuidade" foi incluída na lista dos comportamentos a evitar, tal como o sexo sem preservativo, quando na verdade, desde que se use a borrachinha maravilha, o número de parceiros não vai ser causa de infecção.
Escreveu Ebing: "Estas pobres mulheres disseminam o espírito da lascívia, desmoralizam o ambiente e tornam-se num perigo para rapazes e raparigas." Se então o moralismo era mais descarado, agora ele surge encapotado. E promiscuamente se continua assim a julgar o comportamento alheio. Que com a libertinagem dos outros sempre se pode muito mal.»
Fotografia de Brassaï e crónica de Nuno Nodin " A promiscuidade da ninfomania ", publicada na Pública de 31/05/2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Nós e o Japão*
«Com que então o Japão tem o mesmo rating financeiro do que Portugal. Ou é preciso um ponto de interrogação? Ambos foram despromovidos para "Aa2" pela agência Moody´s, que julga estas coisas. Ainda não percebi se é bom para nós ou mau para os japoneses. Teoricamente até pode ser mau para ambos. Bom para ambos é que não é de certeza.
O Japão é um dos cinco países infinitamente admiráveis do mundo, acima das embirrações e dos amores. Os outro quatro até podem variar consoante o gosto do freguês - mas o Japão é sempre um dos cinco.
Se Portugal tem a mesma classificação do que o Japão, então estamos de parabéns. Mesmo que o Japão esteja financeiramente a passar por um mau bocado. Mas não será muita fruta? Cheira-me que sim. E o culpado quem é? Os bacocos contabilistas da Moody´s. São tão úteis a prever o tempo como os barómetros. Se os medidores de pressões da Moody´s soubessem que vai chover, poderíamos despedir todos os meteorologistas. Que não podemos, mesmo sabendo que os melhores metem água.
Moody em psicologuês significa bipolar; tem dias; tanto lhe dá para um lado como para o outro. Os pirosos que são vê-se logo pela tabela que usam. Engraxa toda a gente. É bajulador. O "Aa2" deles é um duplo A mas quer dizer "ha ha"; duas vezes. É como chamar extrafabuloso-grau 2 aos leitores que eu odeio.
Daí que à Moody´s atribua Zz99. Que vá ao Japão. Que venha a Portugal. E que pense no que diz.»
*" Nós e o Japão ", crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada hoje no Público.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Cortes nos salários
«Alguns cortes nos salários, como os dos trabalhadores da Chrysler, são o preço da ajuda federal. Outros, como o acordo experimental de cortes salariais no The Times, são o resultado de negociações entre os empregadores e os empregados sindicalizados. Outros ainda são o brutal reflexo da fraqueza do mercado laboral. Os trabalhadores não se atrevem a protestar contra a baixa nos salários porque pensam que poderiam não encontrar outro emprego.
Sejam quais forem as especificidades de cada caso, salários em queda são sintoma de uma economia doente. E mais, são um sintoma que pode tornar a economia ainda mais doente.
Comecemos pelo princípio: as histórias sobre salários em queda estão a proliferar, mas qual é o real alcance do fenómeno? A resposta é: muito profundo. » continuar a ler aqui.»
Paul Krugman, Jornal i,publicado em 18/05/2009
domingo, 10 de maio de 2009
Nua, absolutamente nua

A sua última atracção revelou-se como sendo uma jovem com uma formação da escola profissional, com umas risadinhas e um par de gâmbias de anúncios de meias. Tinha dezanove anos e chamava-se Jan Marsh. Encontrámo-nos com ela num hotel com teatro e ela fez uma demonstração do seu número.
«Talvez esteja maluca», disse ela, desenfiando o vestido, «mas parece-me que tenho aqui um número capaz de arruinar os esquemas de extorsão do streap-tease.»
Atirou o vestido para o braço de uma cadeira, e depois tirou os sapatos e as meias. A seguir despiu um conjunto de roupa interior de renda preta.
«Agora, olhem», disse ela, desnecessariamente. «É assim que eu começo o meu número. Começo onde o strip-tease acaba. Estou nua, absolutamente nua. Oh, absolutamente. Apareço diante do público assim. Enfio as minhas cuequinhas de renda preta. Depois ponho o cinto de ligas. Depois enfio as meias de rede pretas. O preto é tão fascinante. Depois calço os sapatos. Depois ponho o vestido, um vestido de fecho, do género a que chamam «vestido táxi.» Depois ponho um alfinete de flores, orquídeas talvez. E vou continuando a enfiar peças de roupa até o público começar a resmungar. Visto aí uma tonelada de roupas. Pode ser que eu seja maluca, absolutamente maluca, mas estou convencida de que o meu número vai acabar com os escroques do strip-tease, o que seria prestar um grande serviço ao meu país.»
Miss Marsh sorriu. Depois executou uns passos de dança.
«Claro», disse ela «Faço isso pela arte e não estou a dizer que o meu namorado se chama Art. Reparei no enorme sucesso dessas mulheres voluptuosas do strip-tease, mas não me parece que o público esteja realmente interessado nesse género de coisas. Sou uma rapariga terna e simples. Não sou como essas mulheres aos pulos. Penso que quando eu fizer o inverso do strip-tease, ele se tornará imensamente popular e iniciará um novo movimento. Não fumo nem bebo. Claro que se apreciasse o sabor bebia, mas acho o whisky um horror. Sou boa nadadora. Sou apenas uma rapariga americana simples, e acho que o público preferia isso a uma dessas mulheres aos pulos.»
Miss Marsh disse ter nascido em South Amboy, em New Jersey, mas que a família se mudara para Chicago quando era criança. Os pais tinham-se divorciado. Disse que a mãe sabe que ela viera a Nova Iorque para dar cabo dos escroques do strip-tease e não se importa. Disse que andou no liceu de Chicago e na Drake´s Business College. Depois arranjou um emprego como secretária de uma senhora que trabalhava para a administração da cidade.
«Estava no departamento dos impostos, ou coisa assim», disse Miss Marsh.
Depois informou-nos de que, quando era mais nova, tinha posado para artistas.
«Gosto de posar para artistas», disse ela. «São muito sérios. Ficamos nuas diante deles durante horas, mas eles não se interessam por nós, a não ser de um ponto de vista artístico, e eu gosto disso. Somos apenas um uma inspiração para eles. Sou uma rapariga séria. Nem sequer apalpanços admito.»
Miss Marsh sorriu.
«É do estilo alta-roda», disse o Sr. Burger.
«É isso», disse Miss Marsh.
Disse que recentemente tinha poupado algum dinheiro e decidira vir a Nova Iorque e subir ao palco.
«Tinha na cabeça esta ideia de deitar abaixo o strip-tease», disse ela, «e as pessoas diziam-me que era louca. Foi então que ouvi falar no senhor Burger e pensei que ele devia ter as mesmas ideias. Fui ter com ele e achei que tinha.»
«Os grandes espíritos trabalham no mesmo comprimento de onda», disse o Sr. Burger, sacudindo umas cinzas do cravo branco que trazia na lapela do sobretudo.
Crónica de Joseph Mitchell, incluída no livro " Sou todo ouvidos ", Trd. José Lima, Ed. Ambar, 2006
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Lavagem

domingo, 8 de março de 2009
Antes as mulheres*
Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores. Nos vintes, fica-se com a certeza. Nos trintas, aprende-se a disfarçar. Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se. Nos cinquentas, começa-se a dar graças a Deus que seja assim. Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez. Geralmente as três coisas.
Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja superioridade - que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando - tem vindo a revelar-se cada vez mais. As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo. Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade. Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixa treinar. Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos. Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo vão leva à escravatura vil.
Isto não é conversa de engate. É até um tira-tesões. Mas é a verdade. E é bonita.
* Crónica de Miguel Esteves Cardoso, Público, 08/03/09
sexta-feira, 6 de março de 2009
estrebaria de porta aberta
Excerto de crónica de António Lobo Antunes, publicada na edição de aniversário do Público(05/03/2009), ler aqui artigo completo.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Desatracados*
Os atracados andam a reboque da mesma caravana de agendas. Cada um tem uma opinião diferente. Mas todos vêem os mesmos programas e falam das mesmas pessoas e dos mesmos casos. Não é a discussão que é oprimente: é a agenda. A agenda é a lista das coisas escolhidas pelos empresários, políticos e editores para nós lermos; vermos; comprarmos; conhecermos, discutirmos.
É como o futebol. E basta não ligar ao futebol para ver o que se perde: nada. O pouco que importa acaba por chegar a toda a gente, já muito bem filtradinho, muito obrigado.
Graças à Internet, cada vez há mais desatracados. Lêem livros que mais ninguém está a ler; mergulham em mundos esquecidos; descobrem coisas tão novas que ainda nem coisas são; ouvem música fora de todas as modas; acompanham pessoas e problemas e pensamentos que se diria nada terem a ver com eles. Mas têm, acabam por ter. E isso é bom.
Desatracar não é rejeitar a realidade nem é ser hostil aos marcadores de agenda. É apenas pedir licença para não seguir o fio da realidade que está a ser distribuído a dado momento. É seguir outro fio, escolhido por cada um, sem grandes critérios ou seriedade até. E, quando se cruzam os dois, costuma ser interessantíssimo. E é giro.»
*Miguel Esteves Cardoso, Público de 18/01/2009
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Casai com as mouras*
«Pensei duas vezes antes de escrever sobre o cardeal Policarpo; pensei muito seriamente, consciente de que me vou meter num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde acabarão. Mas aqui estou, ao altar da asneira.Gosto muito do Dom Policarpo, que fuma e faz Bem e diz o que lhe vai na santa cabeça. Disse o que qualquer pai diria. Pedir que se sente duas vezes não é proibir.
Acho mesmo que não foi consensual no que toca às religiões monoteístas. Nenhum imã ou rabino o contradiria nisso de pensar duas vezes. Ou seja: "Vê lá se o amas o suficiente para conseguires aturar as pancadas religiosas da família dele."
O que me intrigou foi o Dom Policarpo ter-se dirigido só às raparigas. Então e nós, os moços? Quer ele dizer que, devido ao(digamos assim) carácter pró-masculino do Islão, que as noivas muçulmanas são outra história?
Serão dóceis e submissas como as nossas se recusam a ser?
Será que, apesar de estas Fátimas não nos esperarem à porta de casa com um Dry Martini na mão(como se calhar também não espera a Campos Ferreira), as outras inconfessáveis qualidades das moças muçulmanas(não nos porem os cornos; não explorem o pernil em público; poder divorciá-las num minuto) fazem com que valha a pena aprender a amar o chá açucarado de menta acima do gin?
Parece que sim. A misoginia, por muito bem ou mal disfarçada, não é bem um exclusivo do Islão.»
*Miguel Esteves Cardoso, Público, 16/01/2009
Ver aqui mais fotografias.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Sonhos para 2009
« Soñé que en una fulgurante operación de Interpol se procedía al arresto de los Papás Noel apostados a la entrada de los grandes almacenes del mundo entero en cuanto sospechosos de genocidio y de limpieza étnica, como el disfrazado serbobosnio Karadzic, actualmente enchironado en su cómoda prisión neerlandesa.Que la comunidad internacional incluía en la lista de terroristas más buscados del planeta a los crupieres de casino y trileros de Wall Street por un desplome de efectos más pavorosos que el derrumbe espectacular de las Torres Gemelas.
Que al finalizar su mandato, el actual inquilino de la Casa Blanca anunciaba su alistamiento voluntario como soldado raso para servir a la Patria en Irak, compensando así su travesura juvenil de eludir el servicio militar en Vietnam.», Sueños de Nochevieja para 2009, por Juan Goytisolo, El País Online,02/01/2009
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Sinais do tempo*
DAF - " Der Mussolini
« Uma pessoa abre o jornal ou liga a televisão e revê, pasmado, a velha propaganda antidemocrática de1930. Umas vezes, subtil; outras vezes, quase triunfante. A miséria geral e perspectiva de uma miséria maior, a fraqueza do regime e uma irritação crescente anunciam o caos. Manifestamente, a bota deixou de rimar com a perdigota. "
Excerto da crónica " Sinais do tempo "*, de Vasco Pulido Valente, publicada no Público de 23/11/2008.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
O ponto do Capitalismo(1)
Só a intervenção dos norte-americanos nos mercados evitou uma queda do iene que poderia atingir o sistema económico-financeiro mundial na véspera de Clinton ir a Pequim. No entanto, a fuga de capitais da Ásia ficou bem expressa nas bolsas europeias e norte-americanas.
Ao contrário do que foi moda acreditar, a grande aliança já não se vislumbra entre a América do Norte e o Pacífico e avança entre a América do Norte e a União Europeia.
Uma vez mais na História, a Ásia afunda-se perante o Ocidente. No entanto, desta vez, as dezenas de milhões de desocupados e a brutal crise económica num mundo globalizado vão provocar no continente asiático grandes e dramáticas mudanças políticas e sociais, com inevitáveis reflexos, a prazo, também no Ocidente.
A compra pelos americanos de alguns sectores mais rentáveis da economia asiática, principalmente na área financeira, não bastará para evitar esses reflexos.
O Novíssimo Império capitalista é a realidade inegável do fim deste século e sê-lo-á no início do próximo, tanto mais que o petróleo abunda e está pelo preço da chuva. Mas não há Novíssima Economia. Ela é a de sempre - muito parecida, agora, com a dos anos 20 segundo bom número de analistas...norte-americanos.
Crónica de Victor Cunha Rego, Diário de Notícias, 28/06/1998
O ponto do Capitalismo(2)
Quer dizer: a «libertação» dos preços no mercado e a «liberdade» da propriedade dos meios de produção associam-se aos chamados direitos do homem e partiram para a globalização das nossas vidas.
Ironia das ironias. Essa situação de hegemonia, ou até monopólio, é absolutamente contrária à natureza desse mesmo capitalismo, cujo primeiro fundamento - o mercado - é o da concorrência. É exactamente por não existir essa concorrência na práctica do seu poder triunfante que ele nos obriga ao pensamento único - uma faca de dois gumes.
Bem podem os partidos ditos socialistas e sociais-democratas usar o unguento da solidariedade que nada pode afastá-los da farmacologia dos ultraliberais. A aceitação do modelo globalizante obriga-os a idêntica corrida à prosperidade dentro da maior ortodoxia financeira.
Pedir, por exemplo, ao Estado e ao Governo portugueses maior distância do empresariado seria pedir uma tarefa impossível porque é o capital - financeiro ou não - que hoje domina em toda a parte, como se pode ver nos balanços das grandes multinacionais e nos orçamentos de um vasto número de estados.
Renegados os sentimentos que lhes deram vida, esses estados e partidos não podem experimentar a paixão. Por isso buscam a excitação no desafio do sucesso sem perceberem, sequer, que o poder está a fugir-lhes das mãos.
Crónica " O ponto do Capitalismo ", de Victor Cunha Rego, publicada em 28/06/1998, no Diário de Notícias
Ontem como hoje
Note-se que estas quedas se deram apesar de o fundo em questão não ter sido liquidado! De facto, as consequências de uma liquidação forçada ( a acrescer às que vêem sendo feitas desde meados de Julho) seriam tais que o FED, quebrando todos os seus princípios, evitou a falência e montou (forçou?) um sindicato bancário internacional que pôs quase setecentos milhões de contos de dinheiro fresco. A verdade é que não só os maiores bancos do mundo lá estavam investindo, como, a título pessoal, alguns dos presidentes desses bancos lá tinham as suas fortunas pessoais... Ninguém sabe a extensão do risco assumido (e vivo neste momento) , mas as estimativas mais conservadoras apontam para 17 ou 18 mil milhões de contos, ou seja, mais do que o PIB anual português. Que tais riscos, geridos, aliás, por um homem de grande prestígio profissional e por uma equipa de traders que inclui dois prémios Nobel e um vice-presidente do Federal Reserve, tenham podido ser assumidos sem supervisão oficial e sem que nenhum dos sofisticados intervenientes seja capaz de os medir ou até, talvez, de os compreender completamente, mostra a extensão da crise financeira que paira sobre nós. E explica que as autoridades bancárias americanas tenham feito exactamente o oposto do que tão arrogantemente aconselham os governantes de outros países a fazer! A realidade tem muita força."
Crónica " A realidade tem muita força ", de Leonardo Ferraz de Carvalho, 28/09/1998, publicada no jornal " Independente "
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Não acreditem neles*
Isto quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que centenas de milhões de pessoas, na América, na Ásia e na Europa, se habituaram a viver para lá dos meios que tinham ou que podiam ter, pelo artifício simples de gastar o dinheiro que não era deles. E, em segundo lugar, que isto se passou com a cumplicidade e colaboração do Estado ( Estados, na verdade ), de instituições financeiras e de organismos reguladores de carácter nacional ou internacional. Aqui, por exemplo, há anos que se fala no endividamento da banca. Só que, tirando um ocasional "velho do Restelo" suficientemente ingénuo para ir à televisão arrancar os cabelos, não se fez nada.
A animosidade crescente contra os responsáveis pela catástrofe é, em parte, merecida. O cidadão comum não compreende a justiça subjacente ao caso. Quem rouba um automóvel ou uma bicicleta ( um delito certamente menor) marcha direitinho para a cadeia. Quem cria uma desordem financeira, sem precedente histórico, e contribui para o sofrimento de milhões, continua no gozo da sua importância e dos seus proventos. Sucede que as finanças são uma disciplina abstracta e, pior ainda, "irreal". Quem especula em Wall Street, na City, em Madrid ou Lisboa não vê a "realidade" arrumada e matemática, que obedece às suas próprias leis. E, quando essa 2realidade" se impõe como universal e única, o fim está próximo. Principalmente, se por oportunismo os políticos também perdem a cabeça e decidem acreditar na tribo da economia e dos "negócios".
* Crónica de Vasco Pulido Valente, Público de 10/10/2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Parte da vida*
Cavalgou toda a noite, como o vento, esgotando cavalo após cavalo, até que, aproximando-se as seis horas da manhã, chegou a um pequeno oásis, onde desmontou para beber água antes de continuar a viagem. Quando se encaminhava para o poço, uma figura silenciosa que estava ao lado deste olhou o relógio e levantou-se, dizendo: « Curioso. Eu ia jurar que o senhor não conseguiria chegar a horas! »
Não vale a pena fugir. Nem, pelo contrário, procurá-la. Ela tem a sua hora e é pontual.
Na última das análises, é a nossa concepção da morte que decide todas as respostas às perguntas que a vida nos faz.
Conscientes do nosso fim, tudo passa a ter sentido numa vida tão curta. Com o sentido, vem a necessidade de lhe desvendar o segredo e a descoberta só pode ser feita quando se chega ao coração. É preciso, nessa altura, abrir de par em par o coração ao corpo da vida. É assim que se cresce e é possível ter paz.
« A vida e a morte são uma só, tal como o rio e o mar são um só. » Khalil Gibran sabia do que falava. "
* Crónica de Victor Cunha Rego,publicada no DN em 20/01/95, e incluída no livro " Os dias de amanhã ".
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