Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

«Os pensamentos maus não me largam. Mais do que aquilo que aconteceu: é estar a acontecer tantas vezes. Uma amiga trabalhou durante anos num emprego que não a satisfazia, apenas com um objectivo: juntar o dinheiro suficiente para passar o resto da vida a viajar. E conseguiu. Mas no mês em que se despediu foi-lhe detectado um cancro. Outro amigo esperou pacientemente pela idade da reforma, para finalmente conseguir escrever um livro. Nos últimos anos vivia para isso. Comprou uma pequena casa no campo, preparou tudo. Depois sofreu um AVC e deixou de conseguir pensar. Outro ainda investiu tudo no casamento. O que ele abandonou por aquela mulher! Mas quando tinha criado um paraíso para viver o grande amor, ele extinguiu-se. Não foi ela, foi ele que deixou de amar.
Lembrei-me do prior da Cartuxa, que me falou do dia em que deixou de acreditar em Deus. Um homem que desistiu de tudo, para passar a vida fechado num convento. E de repente, sozinho na sua cela, à noite, descobre que perdeu a fé. "Deus ausenta-se", sussurrava o prior, apavorado.»



Paulo Moura, Pública de 15/05/2011

terça-feira, 28 de abril de 2009

«P. Então por que não se dedicam os enfadados ocidentais, saudosos de decisões morais, a mudar o mundo?

R. Receio bem que não estejam interessados. Não temos interesse em nenhuma zona para além da nossa esquina do mundo. Estamos armadilhados na nossa história social. Olhe, eu nem sou capaz de lhe dizer o nome do primeiro-ministro português! E sou supostamente um homem culto. Vimos, na televisão, imagens de pessoas a morrerem à fome no Sudão. Que fazemos? Nada. As nossas atitudes são completamente provincianas. As nossas vidas são controladas. Se sou dentista, ou professor, não vou desistir da minha carreira para ir para África. Somos prisioneiros, embora não o saibamos.»

Excerto de entrevista de Paulo Moura a J.G.Ballard, publicada em 2004 no Público, ler aqui na íntegra no blogue Repórter à solta, de Paulo Moura.

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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