Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

«Os pensamentos maus não me largam. Mais do que aquilo que aconteceu: é estar a acontecer tantas vezes. Uma amiga trabalhou durante anos num emprego que não a satisfazia, apenas com um objectivo: juntar o dinheiro suficiente para passar o resto da vida a viajar. E conseguiu. Mas no mês em que se despediu foi-lhe detectado um cancro. Outro amigo esperou pacientemente pela idade da reforma, para finalmente conseguir escrever um livro. Nos últimos anos vivia para isso. Comprou uma pequena casa no campo, preparou tudo. Depois sofreu um AVC e deixou de conseguir pensar. Outro ainda investiu tudo no casamento. O que ele abandonou por aquela mulher! Mas quando tinha criado um paraíso para viver o grande amor, ele extinguiu-se. Não foi ela, foi ele que deixou de amar.
Lembrei-me do prior da Cartuxa, que me falou do dia em que deixou de acreditar em Deus. Um homem que desistiu de tudo, para passar a vida fechado num convento. E de repente, sozinho na sua cela, à noite, descobre que perdeu a fé. "Deus ausenta-se", sussurrava o prior, apavorado.»



Paulo Moura, Pública de 15/05/2011

domingo, 27 de dezembro de 2009

Portugal presente

« Descemos à areia. Com esta luz oblíqua, parece uma grande laje. As rochas estão cor de mel, o mar está manso, um homem desce de galochas, com um balde, a igreja toca as quatro. É Nossa Senhora dos Navegantes.
Pisamos carcaças de mexilhões, milhares, para chegar ao pontão. Ruben fala dos naufrágios que têm matado gente, até na rua dele, até na família. Nisso, 2009 foi piedoso.
"Antigamente, Caxinas era um povo unido, um pouco isolado do mundo, mas agora já não."Para o bem e para mal? "Sim, é verdade, tem sido fragilizada tanto pelo desemprego como pela vida do mar." Ruben assenta os ténis nos limos do pontão e olha firme para a câmara fotográfica, camisa branca impecavelmente passada, cachecol de lã cinzenta, computador portátil debaixo do braço. Foi assim que chegou junto a nós este oitavo filho de um pescador de Caxinas.
"Tenho cinco irmãos e duas irmãs, mas hoje em dia as pessoas optam por ter um filho, dois no máximo."
A areia está cheia de patas de gaivota no sentido da Póvoa de Varzim. "Caxinas tem uma coisa boa, que é estar entre duas cidades grandes que se estão a desenvolver." Mas basta ficarmos voltados para o mar e é como se não houvesse cidade. Não se houve nada.
Voltando à marginal, os velhos continuam a jogar no seu abrigo de vidro. Olhando melhor também há vários homens jovens ou de meia-idade. Desempregados, numa segunda-feira à tarde.»



Excerto da reportagem " 2009 O pior ano da vida deles ", de Alexandra Lucas Coelho, Pública, 27/12/2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Trás-os-Montes



«Por que vive aqui?

São razões pessoais, privadas. Não é por gosto. Senti-me no dever de vir há anos, estou arrependida, gastei dinheiro a recompor a casa e outras coisas, mas não foi uma escolha, foi por obrigação, pronto. Gostava de ter ido para Bragança, e a segunda escolha era dar a volta a vários pontos do mundo, porque adoro viajar. Tanto posso estar sozinha muito tempo, e estive aqui cinco anos sozinha, como posso andar a correr pelo mundo. Gosto de extremos.» continuar a ler aqui.

Entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Margarida Cordeiro, fotografias de Nelson Garrido, Pública de 29/11/2009

domingo, 31 de maio de 2009

«Vera em tudo uma rapariga de bem. Boas maneiras, bem vestida e com uma cultura superior. Excepto que, sempre que só na presença de qualquer homem, logo se despia e exigia que o coitado, ou talvez não, a penetrasse urgentemente. A família, alarmada e em vergonha profunda pelo comportamento descabido dela, arranjou um casamento apressado para resolver a situação. Nada feito. Mesmo apaixonada pelo marido, continuava a oferecer-se em bandeja a todo e qualquer par de calças ou calções que lhe aparecesse pela frente. assim permaneceu a sra. V. até à sua morte, com a profícua idade de 73 anos. Imagem de decoro quando vigiada por terceiros, depravação sexual em pessoa sempre que a ocasião o permitia, em jeito de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
Caso nrº 189 apresentado por Kraftt-Ebing, psiquiatra alemão do século XIX, a sra. V. surge como exemplo de ninfomania, doença imaginária que era diagnosticada em mulheres que não ficavam no seu cantinho sexualmente reprimido e revelavam ter desejos libidinosos próprios. Tal como os homens faziam porque assim se esperava. Ebing chega a descrever o que intitula "ninfomania aguda mortal", em que raparigas até entâo insuspeitas revelavam um súbito "desejo ilimitado de gratificação sexual", "delírios obscenos", "exigindo" o coito e terminando por morrer de "exaustão". Tadinhas.
É certo que as senhoras descritas por Ebing bem não estavam. Alguma coisa terá causado a morte das que se ficaram. Porém, tal não terá sido, poderei jurar, o excesso de desejo sexual. Uma infecção que lhes afectou os neurónios?
Uma intoxicação acidental? O que tiver sido, antes de acabar com elas, diluiu-lhes as inibições sociais, levando ao seu comportamento tão contrário às convenções da época.
Passado mais de um século, espera-se que já ninguém diagnostique ninfomania a mulheres que exigam o coito com frequência, porque elas andam por aí e recomendam-se! Mas outras etiquetas vieram continuar a tradição. Veja-se, por exemplo, como a promiscuidade, palavra feia, tanto foi usada durante a crise HIV. De súbito, os novos malcomportados eram esses tais, os promíscuos, que andariam por aí a ter sexo que nem o pacman do jogo de video. A "promiscuidade" foi incluída na lista dos comportamentos a evitar, tal como o sexo sem preservativo, quando na verdade, desde que se use a borrachinha maravilha, o número de parceiros não vai ser causa de infecção.
Escreveu Ebing: "Estas pobres mulheres disseminam o espírito da lascívia, desmoralizam o ambiente e tornam-se num perigo para rapazes e raparigas." Se então o moralismo era mais descarado, agora ele surge encapotado. E promiscuamente se continua assim a julgar o comportamento alheio. Que com a libertinagem dos outros sempre se pode muito mal.»


Fotografia de Brassaï e crónica de Nuno Nodin " A promiscuidade da ninfomania ", publicada na Pública de 31/05/2009

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Celebrar a vagina*

" As vaginas têm sido muito injustamente descuradas ao longo dos tempos. E isso é tanto triste quando se tem em conta que, ainda que nem todos tenhamos saído de uma delas, uma parte de nós terá sempre por lá entrado. assim, não deixa de ser estranho, chocante quase, que tão pouca importância se tenha dedicado a essa parte fundamental da anatomia feminina e humana.
As responsabilidades, se aqui as quisermos apontar, estão do lado dos homens. Fascinados, mas igualmente receosos em relação a esse obscuro objecto de desejo, sede do acto de criação supremo, os homens sempre optaram por manter as vaginas bem escondidas do olhar perscrutador da ciência.. Há que não esquecer, afinal, que até há muito pouco tempo, a investigação era um mundo eminentemente masculino.
Claro que existem honrosas excepções. Homens como Gabriele Falloppio(1523-1562), William Masters(com a sua mulher Virginia Johnson) e em particular Ernest Graffemberg( o do famoso ponto G) vasculharam a vagina em profundidade e descobriram algumas das suas geniais características e potencialidades. Agora, porém, chegou a hora de as mulheres tomarem a responsabilidade pelo bem-estar das vaginas nas suas mãos. Uma ginecologista norte-americana, a dra. Lauri Romanzi, farta de ver vaginas maltratadas e de ter que as sanar, decidiu abrir um Vagina Spa em Nova Iorque. O principal objectivo de tal spa é o de ajudar as mulheres a cuidarem das suas partes íntimas de forma a valorizá-los e a prevenir problemas ginecológicos futuros. Uma das técnicas que a dra. Romanzi utiliza para o efeito é o método de Kegel, desenvolvido por outro investigador que de todo o direito deverá ser incluído na lista de homens amigos da vagina.
Arnold H. Kegel desenvolveu um conjunto de exercícios destinados a reforçar os músculos pélvicos em mulheres que sofriam de incontinência urinária após o parto. Mas, maravilha das maravilhas, as mulheres que passavam por este processo descobriram-se a ter orgasmos fabulosos como efeito secundário. Claro que depressa se começaram a direccionar os exercícios Kegel especificamente para esse objectivo, agora tornado principal.
Uma das grandes vantagens desses exercícios é que podem ser realizados virtualmente em qualquer lugar e circunstância: no escritório, durante o jantar de família, na sala de espera do dentista ou até - vade retro - durante a missa.
A dra. Romanzi está, portanto, no caminho certo. Nova Iorque, sempre na vanguarda de coisas modernas e vagamente extravagantes, já havia recebido no ano passado o Festival da Vagina, num conjunto de eventos que celebraram a genitália feminina em todo o seu esplendor. Afinal, o pénis já teve bem mais do 15 minutos de fama. Agora é a vez da vagina."

* Artigo de Nuno Godin, publicado na Pública de 16/11/2008

terça-feira, 4 de março de 2008

Novamente o olhar

Primeira comunhão em Juazeiro do Norte. Brasil, 1981.
Fotografia de Sebastião Salgado


" Acredito igualmente que o progresso científico e espiritual da humanidade conduzirá à progressiva extinção de todas as grandes religiões - por desnecessárias. Talvez Deus permaneça, isto é, a ideia Dele, mas será inevitavelmente um Deus muito distante da nossa imagem e semelhança, um Deus pelo qual ninguém quererá morrer nem matar. Um Deus impossível de transformar em bandeira "


Excerto de crónica " O improvável ", de Faíza Hayat, publicada na revista Pública de 02/03/2008

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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