«...A "obamania" é um triste sinal de que o Ocidente perdeu qualquer espécie de faculdade crítica. A palavra e o gesto bastam para lhe esconder o que se passa no mundo. Como se uma grande potência pudesse de repente mudar com uma criatura simpática e uma pequena dose de persuasão e boa vontade.
Para começar alguns factos: Guantánamo não fechou; a prática de sequestrar putativos terroristas (eufemisticamente denominada "extraordinary rendition") em países "terceiros" não acabou; e não acabou também a prática de prender suspeitos de terrorismo, dentro e fora da América, e de os tratar como "no campo de batalha". Pior ainda, Obama não quis condenar, nem investigar os crimes de Bush, nomeadamente a tortura; só prometeu, nos casos mais benignos, tribunais militares (regidos, como é evidente, por lei especial) e sobretudo não limitou ou diminuiu a secrecidade e o arbítrio do Estado segurança. Isto quanto aos celebrados direitos do homem e à convivência amigável entre a América e o islão, em que ele proclama acreditar.»
Vasco Pulido Valente, Público de 11/10/2009
« A confissão feita sob tortura não era válida se não fosse ratificada sem tortura, e noutro lugar, donde não se pudesse ver o horrível instrumento, e não no mesmo dia. Eram descobertas da ciência, para tornar, se tal fosse possível, espontânea uma confiança forçada, e satisfazer ao mesmo tempo o bom senso, o qual dizia dizia claramente que a palavra extorquida pela dor não pode merecer fé, e a lei romana que consagrava a tortura. Aliás a razão dessas precauções, iam buscá-la os intérpretes à própria lei, ou seja a estas estranhas palavras: «A tortura é coisa frágil e perigosa e sujeita a enganar; visto que muitos, por força de ânimo ou de corpo, sofrem tão pouco com os tormentos que não se pode, com tal meio, obter deles a verdade; outros são tão intolerantes à dor que dizem qualquer falsidade, em vez de suportarem os tormentos.» Digo: estranhas palavras, numa lei que mantinha a tortura; e para se compreender por que motivo não se extraía outra consequência senão que «nos tormentos não se deve acreditar sempre», temos de recordar que aquela lei havia sido feita na sua origem para os escravos, os quais, na abjecção e na perversidade do gentilismo, puderam ser considerados como coisas e não como pessoas, e sobre os quais se julgava por isso ser lícita qualquer experiência, a ponto de serem torturados para se descobrir os crimes de outros. Novos interesses de novos legisladores fizeram-na depois aplicar-se também às pessoas livres; e a força da autoridade fê-la durar muitos mais séculos que o gentilismo: exemplo nada raro, mas notável, de como uma lei, depois de estabelecida, pode prolongar-se e expandir-se para além do seu princípio, e sobreviver-lhe.»
Excerto de " História da Coluna Infame ", de Alessandro Manzoni, Trd. José Colaço Barreiros, Ed. Assírio & Alvim, 1991
Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
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domingo, 11 de outubro de 2009
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Sinais do tempo*
DAF - " Der Mussolini
« Uma pessoa abre o jornal ou liga a televisão e revê, pasmado, a velha propaganda antidemocrática de1930. Umas vezes, subtil; outras vezes, quase triunfante. A miséria geral e perspectiva de uma miséria maior, a fraqueza do regime e uma irritação crescente anunciam o caos. Manifestamente, a bota deixou de rimar com a perdigota. "
Excerto da crónica " Sinais do tempo "*, de Vasco Pulido Valente, publicada no Público de 23/11/2008.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Não acreditem neles*
" Esta crise não se percebe com a declaração (deleitada) do fracasso do "neolibelarismo" (quem sabe o que é precisamente o "neolibelarismo" (quem sabe o que é precisamente o "neoliberalismo"?), nem com vociferações, que já se tornam ridículas, sobre a irresponsabilidade e a "ganância" de Wall Street, da City e outros lugares de perdição. Talvez seja bom começar pelo que, de facto, aconteceu. A crise foi revelada pelo problema do subprime na América, ou seja, pelo excessivo crédito de risco à habitação, sem qualquer forma de garantia ou expectativa racional de pagamento. Mas não veio exclusivamente daí, nem por si mesmo o subprime explica o resto da história. O facto é que todo o crédito cresceu sem lógica ou limite, até ao ponto em que desde o Estado americano à grande banca (comercial ou de investimento) e a uma qualquer companhia de seguros pouco ilustre, o mundo inteiro ficou endividado.
Isto quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que centenas de milhões de pessoas, na América, na Ásia e na Europa, se habituaram a viver para lá dos meios que tinham ou que podiam ter, pelo artifício simples de gastar o dinheiro que não era deles. E, em segundo lugar, que isto se passou com a cumplicidade e colaboração do Estado ( Estados, na verdade ), de instituições financeiras e de organismos reguladores de carácter nacional ou internacional. Aqui, por exemplo, há anos que se fala no endividamento da banca. Só que, tirando um ocasional "velho do Restelo" suficientemente ingénuo para ir à televisão arrancar os cabelos, não se fez nada.
A animosidade crescente contra os responsáveis pela catástrofe é, em parte, merecida. O cidadão comum não compreende a justiça subjacente ao caso. Quem rouba um automóvel ou uma bicicleta ( um delito certamente menor) marcha direitinho para a cadeia. Quem cria uma desordem financeira, sem precedente histórico, e contribui para o sofrimento de milhões, continua no gozo da sua importância e dos seus proventos. Sucede que as finanças são uma disciplina abstracta e, pior ainda, "irreal". Quem especula em Wall Street, na City, em Madrid ou Lisboa não vê a "realidade" arrumada e matemática, que obedece às suas próprias leis. E, quando essa 2realidade" se impõe como universal e única, o fim está próximo. Principalmente, se por oportunismo os políticos também perdem a cabeça e decidem acreditar na tribo da economia e dos "negócios".
* Crónica de Vasco Pulido Valente, Público de 10/10/2008
Isto quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que centenas de milhões de pessoas, na América, na Ásia e na Europa, se habituaram a viver para lá dos meios que tinham ou que podiam ter, pelo artifício simples de gastar o dinheiro que não era deles. E, em segundo lugar, que isto se passou com a cumplicidade e colaboração do Estado ( Estados, na verdade ), de instituições financeiras e de organismos reguladores de carácter nacional ou internacional. Aqui, por exemplo, há anos que se fala no endividamento da banca. Só que, tirando um ocasional "velho do Restelo" suficientemente ingénuo para ir à televisão arrancar os cabelos, não se fez nada.
A animosidade crescente contra os responsáveis pela catástrofe é, em parte, merecida. O cidadão comum não compreende a justiça subjacente ao caso. Quem rouba um automóvel ou uma bicicleta ( um delito certamente menor) marcha direitinho para a cadeia. Quem cria uma desordem financeira, sem precedente histórico, e contribui para o sofrimento de milhões, continua no gozo da sua importância e dos seus proventos. Sucede que as finanças são uma disciplina abstracta e, pior ainda, "irreal". Quem especula em Wall Street, na City, em Madrid ou Lisboa não vê a "realidade" arrumada e matemática, que obedece às suas próprias leis. E, quando essa 2realidade" se impõe como universal e única, o fim está próximo. Principalmente, se por oportunismo os políticos também perdem a cabeça e decidem acreditar na tribo da economia e dos "negócios".
* Crónica de Vasco Pulido Valente, Público de 10/10/2008
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
O fim da nossa história? *
«Portugal está sem destino.Deixou de ser um país colonial.Já não é um "bom aluno da "Europa". Pior ainda, apesar de muito esforço e muita propaganda,não se conseguiu "modernizar".O "atraso" continua e até aumentou. Não se vive hoje como se vivia durante Salazar, mas também não se vive numa mediocridade tranquila. Pelo contrário, o mundo muda e a insegurança cresce.O mundo muda e Portugal não se adapta:o desemprego cresce;as pensões diminuem, a educação é um artifício, o serviço de saúde vai pouco a pouco empobrecendo e a fisco oprime toda gente.No meio disto,o país não quer,nem está à espera de nenhuma reviravolta dramática.A "Europa",por que antigamente suspirava,obriga à imobilidade.É uma espécie de paragem definitiva,para além da qual nada existe - é pelo menos,por um verdadeiro "fim da história".
De resto,trinta e tal anos de regime criaram um cinismo político geral.À volta do PS e do PSD há meia dúzia de fanáticos,que ninguém leva a sério, e uma corte de carreiristas,que ninguém respeita.Tendo governado o país simultânea ou alternadamente,nem o PS nem o PSD inspiram hoje qualquer confiança.Colonizaram o Estado e a administração local por interesse próprio e cometeram(ou permitiram que se cometessem)erros sem desculpa.Desorganizaram a sociedade,ou mesmo impedirem que ela se fosse por sua vontade organizando, e levaram Portugal a uma espécie de paralisia de que não se vê saída.Apesar de um ou outro protesto corporativo, o público já não se interessa pelo seu futuro,ou pelo seu presente,colectivo.
Nem Sócrates,nem Ferreira Leite percebem,no fundo,o que se passa.Sócrates persiste em repetir a sua velha ladainha,inteiramente desacreditada,com o entusiasmo de 2006.Ferreira Leite(agora"tia Manuela",como agora popularmente lhe chamam)critica a evidência e recomenda os remédios do costume.Cada um à sua maneira,os dois falam uma nova "língua de pau",que os portugueses não ouvem ou que não registam.Talvez por isso,não falam muito e quando falam,excepto pelas querelas de partido e pelo vaguíssimo contraste entre o maior "liberalismo" de Ferreira Leite e o improvisado "neo-keynesianismo" de Sócrates,concordam no essencial.O PS e o PSD são o regime e não podem ou tencionaram tocar no regime.A reforma de Portugal,se por absurdo vier,não virá dali.»
* Crónica de Vasco Pulido Valente,Público de 12/09/2008
De resto,trinta e tal anos de regime criaram um cinismo político geral.À volta do PS e do PSD há meia dúzia de fanáticos,que ninguém leva a sério, e uma corte de carreiristas,que ninguém respeita.Tendo governado o país simultânea ou alternadamente,nem o PS nem o PSD inspiram hoje qualquer confiança.Colonizaram o Estado e a administração local por interesse próprio e cometeram(ou permitiram que se cometessem)erros sem desculpa.Desorganizaram a sociedade,ou mesmo impedirem que ela se fosse por sua vontade organizando, e levaram Portugal a uma espécie de paralisia de que não se vê saída.Apesar de um ou outro protesto corporativo, o público já não se interessa pelo seu futuro,ou pelo seu presente,colectivo.
Nem Sócrates,nem Ferreira Leite percebem,no fundo,o que se passa.Sócrates persiste em repetir a sua velha ladainha,inteiramente desacreditada,com o entusiasmo de 2006.Ferreira Leite(agora"tia Manuela",como agora popularmente lhe chamam)critica a evidência e recomenda os remédios do costume.Cada um à sua maneira,os dois falam uma nova "língua de pau",que os portugueses não ouvem ou que não registam.Talvez por isso,não falam muito e quando falam,excepto pelas querelas de partido e pelo vaguíssimo contraste entre o maior "liberalismo" de Ferreira Leite e o improvisado "neo-keynesianismo" de Sócrates,concordam no essencial.O PS e o PSD são o regime e não podem ou tencionaram tocar no regime.A reforma de Portugal,se por absurdo vier,não virá dali.»
* Crónica de Vasco Pulido Valente,Público de 12/09/2008
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terça-feira, 27 de novembro de 2007
terça-feira, 20 de novembro de 2007
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