Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Animais....!

Fotografia de Alfredo Cunha

" Se existissem domínios mais sombrios da noite ele tê-los-ia descoberto. Jazendo com os dedos enfiados nos ouvidos para não esquecer o chilreio estridente dos miríades de grilos negros com quem partilhava a choupana de paredes nuas. Uma noite, meio adormecido na enxerga, ouviu algo galopar pelo quarto e saltar fantasmagoricamente ( viu ele, enquanto lutava para se erguer) pela janela aberta. Ficou sentado buscando em volta com o olhar mas o vulto tinha desaparecido. Conseguia ouvir cães de caça gritando a plenos pulmões, lamentos torturados e latidos quase de agonia vindos do ribeiro, subindo o vale. Inundaram o pátio da choupana num pandemónio de uivos em soprano e arbustos entrechocando-se. Ballard, nu e de pé, viu à ténue luz das estrelas a porta da frente encher-se da soleira para cima com cães vociferando. Ali ficaram por um momento numa moldura palpitante de pelagens malhadas e depois arquearam-se para a frente e encheram o quarto, descreveram um círculo num crescendo de corpos entrelaçados e depois precipitaram-se de roldão pela janela fora entre uivos dissonantes, arrastando primeiro os pinázios, a seguir o caixilho, deixando um buraco quadrado e nu na parede e um tinido nos ouvidos de Ballard. Enquanto ele ali estava praguejando mais dois cães entraram pela porta. Pontapeou um ao passar, enterrando-lhe os dedos nus no quadril ossudo. Estava aos saltos, guinchando agarrado ao pé, quando um último cão entrou no quarto. Caiu sobre ele e agarrou-lhe uma pata traseira. O animal lançou um uivo penoso. Ballard golpeou-o cegamente com o punho fechado, pancadas fortes e insistentes que ecoaram no quarto quase vazio por entre imprecações e queixumes desesperados."

Excerto de " Filho de Deus ", de Cormac McCarthy, Trd. Paulo Faria

domingo, 2 de dezembro de 2007

Carrinhos de mão

" Naqueles primeiros anos, as estradas estavam cheias de refugiados amortalhados nas suas roupas. Usavam máscaras e óculos de protecção, sentados na berma com os seus andrajos no corpo, quais aviadores reduzidos à indigência. Traziam carrinhos de mão a abarrotar de bugigangas, puxavam carroças ou reboques. De olhos a brilhar no crânio. Carapaças de homens sem uma réstia de fé aos tropeções pelos viadutos, como bandos migratórios numa terra febril. A fragilidade de todas as coisas enfim revelada. Velhos dilemas inquietantes esvaziados de sentido, dando lugar ao nada e à noite. O derradeiro exemplo de uma coisa leva consigo toda a categoria. Apaga a luz e desaparece. Olha à tua volta. Nunca é imenso tempo. Mas uma coisa o rapaz sabia. Que nunca é apenas um instante. "

Excerto de " A estrada ", de Cormac Mccarthy, Trd.Paulo Faria,Ed.Relógio D´Água,2007

" Stalker " - Tarkovsky

sábado, 1 de dezembro de 2007

Sonhos de perigo

" Ele desconfiava de tudo isto. Dizia que os sonhos apropriados para um homem em perigo eram sonhos de perigo e que tudo o resto era o chamamento do langor e da morte. Dormia pouco e mal. Tinha sonhos em que ele e o rapaz caminhavam por um bosque em flor onde os pássaros voavam diante deles e o céu era tão azul que fazia doer a alma, mas estava a aprender a despertar precisamente quando penetrava nesses mundos em forma de canto de sereia. Ali deitado no escuro com o misterioso sabor de um pêssego proveniente de um qualquer pomar fantasma a dissipar-se na boca. Pensava que, se vivesse o suficiente, o mundo acabaria por se perder totalmente. Como o mundo agonizante habitado pelos que ficaram cegos há pouco tempo, todo ele a desvanecer-se lentamente da memória. "

TV on the Radio -" Dreams "

Excerto de " A estrada ", de Cormac Mccarthy,Trd. Paulo Faria,Ed. Relógio D´Água,2007

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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