" Constava na cidade que a nossa assembleia não era mais do que um viveiro de livres-pensadores, libertinos e ateus. Este zunzum circulava há muito tempo. No entanto, só tínhamos conversas à russa, isto é, absolutamente inofensivas, alegres e liberais. «Liberalismo puro», sem nenhum alcance prático, só é possível na Rússia. Estevão Trophimovich, como qualquer homem de espírito, necessitava de auditório - tanto mais que se queria convencer que cumpria uma obrigação propagando «ideias». Enfim, precisava de um grupo de amigos com que se pudesse beber, trocar opiniões respeitantes à Rússia, discutir a existência de Deus em geral e de um «Deus russo» em particular, e repetir pela centésima vez uma anedota escabrosa muito conhecida. Não desgostavam de espalhar notícias meio divulgadas e rematavam-nas sempre com uma sentença moral. Ali discutiram o futuro da Europa e de toda a humanidade. A França, depois de ter sofrido o domínio do cesarismo, ver-se-ia de um instante para outro relegada entre as potências de segunda categoria e todos se persuadiram de que isso aconteceria em breve e inevitavelmente. Quanto ao Papa, tinham profetizado que o seu papel depressa ficaria reduzido ao de simples arcebispo numa Itália unificada; aliás, nesta época de humanismo e de grandes indústrias, esse problema milenário não mais apresentava interesse. O «liberalismo russo» também nunca tratara desses assuntos."
Excerto de " Os Demónios ", de Dostoievski, Trd. Reis Madeira, originalmente publicado em 1872.
Excerto de " Os Demónios ", de Dostoievski, Trd. Reis Madeira, originalmente publicado em 1872.
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