
" A lei e, em parte, a opinião pública apressam-se a proclamar que não existe nenhuma inferioridade natural e permanente entre o criado e o senhor. Mas esta nova fé ainda não penetrou profundamente no espírito deste último, ou melhor, o seu coração ainda a rejeita. No fundo da sua alma, o senhor ainda julga pertencer a uma espécie particular e superior, mas não ousa dizê-lo e, incomodado, deixa-se relegar para o nível proposto. A sua autoridade torna-se simultaneamente tímida e dura; já não sente pelos seus criados os sentimentos protectores e benevolentes que resultam do exercício de um longo poder incontestado e espanta-se que, tendo ele próprio mudado, o mesmo tenha ocorrido ao seu criado. Desejaria que este, mais não fazendo do que passar, por assim dizer, pela condição doméstica, adquirisse aí hábitos regulares e permanentes, se mostrasse satisfeito e orgulhoso com uma posição servil que mais cedo ou mais tarde abandonará, se dedicasse a um homem que não pode nem protegê-lo nem perdê-lo, e que, finalmente, se estabelecesse uma ligação perpétua com seres que se lhe assemelham e que não duram mais tempo do que ele."
Excerto do capítulo " Relações entre o Criado e o Senhor ", do livro " Da Democracia na América "(1835-1840), de Alexis de Tocqueville, Trd. João Carlos Espada, Ed. Principia
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