Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

o apocalipse dos trabalhadores

" o caixão estava fechado e não havia modo de se perceber se o senhor joaquim levava a cabeça ou não, mas era o que se dizia de convicção muito confirmada, que o pobre do bom joaquim havia de se juntar à bininha, morta de amor, sem cabeça. pelo amor que existia entre os dois, todos se lembravam deles como colibris a precisarem de beijar. era doloroso pensar que já não o poderiam voltar a fazer, como se não pudessem mais ser anjos, ter asas, voar, porque o senhor joaquim não teria bico, não teria como ser quem devia. a igreja de vinhais estava cheia e nem se justificava a presença das duas mulheres naquele funeral. choravam muitas pessoas espontaneamente como carpideiras gratuitas e convincentes. para que estariam as duas a facturar cinquenta euros cada, até distraídas do serviço, atónitas com o aparato da cerimónia e caladas. a maria da graça ainda perguntou, não devíamos ter um ar mais pesado, chorar. a quitéria disse-lhe, este já está muito encomendado, se deus ainda não viu isto é porque não quer ver. prestaram atenção ao que iam fazendo as pessoas. chegavam-se ao caixão e punham a mão na madeira, na parte superior, onde por dentro estaria exactamente a cabeça, e lamentavam-se, ai joaquim, que eras tão bom homem e tão amado. ai joaquim, coitado, não vais ter descanso. e diziam assim tais coisas como se soubessem perfeitamente o que estava para lá da vida, capazes de pensar que por não ter cabeça estaria a sua alma decapitada também e sem meios de ver o caminho para a porta do céu. "
" o apocalipse dos trabalhadores ", de valter hugo mãe, Ed. QuidNovi, 2008

1 comentário:

Tiago M. Franco disse...

Gostei bastante desde livro.
Deixo aqui o link com a sugestão que fiz da obra:
http://sugestaodeleitura.blogspot.pt/2013/03/o-apocalipse-dos-trabalhadores-valter.html

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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