Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta o apocalipse dos trabalhadores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta o apocalipse dos trabalhadores. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

" ...ficou na cama, depois, longamente sentindo as coxas e ponderando o quanto lhe parecia diferente ser tocada por um homem que não amava. era certo que um e outro, o maldito ou o mikhalkov, abusavam dela igualmente, conferindo-lhe uma autonomia muito pequena nos gestos do sexo, mas o facto de não amar, que no início talvez lhe tenha sido escondido por uma certa euforia carnal, levava-a a pensar que se agredia mais do que antes. não estava preparada para se pensar como romântica, não o era claramente, mas as coisas pareciam destruir-se, a partir da sua cabeça, sem dúvida, como se entrasse inevitavelmente numa depressão. como se fosse entrando, vendo a boca dentada da depressão, e não conseguisse recuar, alegrar, enfim, o seu espírito. sabia que, na semana seguinte, estaria de novo sob o mikhalkov, sem reacção, acreditando mais ainda que era uma mulher ridícula, profundamente ridícula e sem valor."


Excerto de " o apocalipse dos trabalhadores ", de valter hugo mãe
"...a maria da graça tinha quase quarenta anos e julgava-se tão adiantada na vida que nada esperaria dessas coisas.vivia como quem imaginava pouco futuro e conformava-se, nem pensando muito nisso.estás louca, mulher, dizia-lhe a amiga, és uma cachopa nova e ainda tens muito terreno para plantar, não te deixes ir para baixo, obriga-o a usar preservativo, obriga-o, minha burra.gesticulava como doida a explicar-se enquanto pendurava bacias inteiras de roupa. com o que eu ganho, respondia-lhe a maria da graça, só posso pagar a morte, que a vida é cara de mais para mim. sou uma mulher fraca, essa é a verdade, mas não sou de fugir a nada. hei-de morrer de velha, não há cá doenças para uma coisa como eu."


Excerto de " o apocalipse dos trabalhadores ", de valter hugo mãe

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

o apocalipse dos trabalhadores

" o caixão estava fechado e não havia modo de se perceber se o senhor joaquim levava a cabeça ou não, mas era o que se dizia de convicção muito confirmada, que o pobre do bom joaquim havia de se juntar à bininha, morta de amor, sem cabeça. pelo amor que existia entre os dois, todos se lembravam deles como colibris a precisarem de beijar. era doloroso pensar que já não o poderiam voltar a fazer, como se não pudessem mais ser anjos, ter asas, voar, porque o senhor joaquim não teria bico, não teria como ser quem devia. a igreja de vinhais estava cheia e nem se justificava a presença das duas mulheres naquele funeral. choravam muitas pessoas espontaneamente como carpideiras gratuitas e convincentes. para que estariam as duas a facturar cinquenta euros cada, até distraídas do serviço, atónitas com o aparato da cerimónia e caladas. a maria da graça ainda perguntou, não devíamos ter um ar mais pesado, chorar. a quitéria disse-lhe, este já está muito encomendado, se deus ainda não viu isto é porque não quer ver. prestaram atenção ao que iam fazendo as pessoas. chegavam-se ao caixão e punham a mão na madeira, na parte superior, onde por dentro estaria exactamente a cabeça, e lamentavam-se, ai joaquim, que eras tão bom homem e tão amado. ai joaquim, coitado, não vais ter descanso. e diziam assim tais coisas como se soubessem perfeitamente o que estava para lá da vida, capazes de pensar que por não ter cabeça estaria a sua alma decapitada também e sem meios de ver o caminho para a porta do céu. "
" o apocalipse dos trabalhadores ", de valter hugo mãe, Ed. QuidNovi, 2008

Arquivo do blogue

Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

FEEDJIT Live Traffic Feed