Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta Philip Roth. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Philip Roth. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

«- Se Clinton lhe tivesse ido ao cu, talvez ela tivesse calado a boca. Bill Clinton não é o homem que dizem ser. Se a tivesse virado de barriga para baixo no Salão Oval e lhe tivesse ido ao cu, nada disto teria acontecido.
- Bem, ele nunca a dominou. Jogou pelo seguro.
- Sabes, depois de chegar à Casa Branca o tipo deixou de dominar. Não podia. Também não dominou a Willey. Foi por isso que ela ficou fula com ele, Quando se tornou presidentes perdeu o seu talento arkansiano típico para dominar mulheres. Enquanto foi procurador-geral e governador de um pequeno estado obscuro, dominar era perfeito para ele.
- Sem dúvida. Basta pensar na Gennifer Flowers.
- O que acontece no Arkansas? Se um tipo cai quando ainda se encontra lá, não cai de muito alto.
- Exactamente. E calcula-se que tenha tara pelo cu. É uma tradição.
- Mas quando chega à Casa Branca, não pode dominar. E quando não pode dominar, Miss Willey vira-se contra ele, e Miss Monica vira-se contra ele. Teria garantido a lealdade dela se lhe fosse ao cu. O pacto devia ter sido esse. Isso tê-los-ia ligado. Mas não houve pacto.
- Bem, ela assustou-se. Sabes bem que esteve prestes a não dizer nada. Starr esmagou-o. Onze gajos na sala com ela naquele hotel, já imaginaste? A massacrá-la? Foi uma geraldina. Uma violação colectiva encenada por Starr naquele hotel.
- Isso é verdade. Mas ela já andava a falar com Linda Tripp.
- Ah, sim.
- Andava a falar com toda a gente. Pertence àquela cultura idiota do blá-blá-blá. A esta geração que se orgulha da sua superficialidade. A sinceridade é tudo. Sincera e vazia, totalmente vazia. A sinceridade que dispara em todas as direcções. A sinceridade que é pior que a falsidade e a inocência que é pior do que a corrupção. Toda a rapacidade oculta sob o manto da sinceridade. E do jargão. Aquele vocabulário maravilhoso de todos eles, e em que parecem acreditar, a respeito da «falta de mérito próprio», quando na realidade estão sempre convencidos de que têm direito a tudo. Chamam carinho ao descaramento e mascaram a desumanidade de perda de «auto-estima». Hitler também tinha falta de auto-estima. Esse era o problema dele. É uma farsa, o que esses miúdos armaram. A hiperdramatização das emoções mais insignificantes. Relação. A minha relação. Clarificar a minha relação. Quando abrem a boca apetece-me amarinhar pelas paredes. Toda a linguagem deles é um somatório da estupidez dos últimos quarenta anos. Conclusão. Eis um dos chavões. Os meus alunos não podem permanecer no lugar onde o pensamento deve ocorrer. Conclusão! Fixam-se na narrativa convencionalizada com o seu princípio, o seu meio e o seu fim. Qualquer experiência, por muito ambígua, intrincada ou misteriosa que seja, tem de se prestar a esse lugar-comum normalizante e convencionalizante de pivô de televisão. Chumbo qualquer miúdo que peça conclusão. Querem conclusão? Eu dou-lhes a conclusão.»


Excerto de " A mancha branca ", de Philip Roth, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O mal é uma banalidade

Fotografia da Life(1917)

" Não era daqueles que mal chegavam a todo aquele caos de violência ficavam impacientes por se lançarem ao barulho, daqueles que não regulavam muito bem ou eram muito agressivos por natureza e a quem bastava a mais pequena oportunidade para ficarem loucos violentos. Havia um tipo na sua unidade, um indivíduo a quem chamavam Calmeirão, que um ou dois dias depois de chegar abrira o ventre de uma mulher grávida. Farley só começara a tornar-se bom naquilo no fim da sua primeira vez. Mas na segunda, naquela unidade onde havia uma quantidade de outros tipos que também tinham voltado e não o haviam feito apenas para matar tempo ou ganhar umas massas extra, naquela segunda vez na companhia de tipos sempre ansiosos para serem postos na frente, tipos chalados que tinham consciência do horror mas sabiam que era o melhor momento das suas vidas, tornou-se também chalado, igual a eles. Debaixo de fogo, a fugir do perigo, com armas a disparar por todos os lados, é impossível não sentir medo, mas um tipo pode passar-se e ficar eufórico e temerário, e por isso, na segunda vez, ele passou-se. Na segunda vez apoderou-se dele o frenesi da fúria e espalhou o caos e a destruição. Estar ali à beira do abismo, a todo o gás, ébrio de excitação e medo: não há na vida civil nada que se possa comparar a isso. "
Excerto de " A Mancha humana ", de Philip Roth, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues
" Uma multidão de soldados alinhados transforma-se em mancha; um erva preta com capacete por cima; uma erva com a cabeça dilatada, mas estúpida, como caíste no erro de querer defender o abstracto?
Uma prostituta despiu-se à frente do soldado mantendo as meias pretas.
- Tens cancro?
A prostituta encontra-se nua, nua em frente de um soldado que ainda não desapertou sequer um botão, um soldado que tem uma arma e força; e tem dinheiro e ela não, e tem o poder de ainda permanecer vestido, de não parecer ridículo, porque a prostituta é ridícula, não é bonita nem feia, é ridícula, meias pretas de sedutora, a anca para fora à sedutora, mas é ridícula, gorda em sítios ridículos, posições exageradas.
E foi ela que perguntou:
- Tens cancro?
O soldado não tem cabelo, mas tem uma arma. Quando tirou o capacete mostrou que não tinha cabelo, e quando retirou a arma do cinto mostrou que tinha arma.
- Pareces doente com essa careca."
Excerto de " As ervas daninhas ", de Gonçalo M.Tavares

terça-feira, 30 de setembro de 2008

As nossas acções não bastam para definir o nosso destino*

«Todos os anos, o mundo indigna-se com o Nobel da Literatura. Motivo? Philip Roth. Será possível que o mais brilhante escritor americano de hoje não ganhe o prémio? A pergunta é absurda por dois motivos. Primeiro, porque existem listas infindáveis de escritores maiores que falharam o Nobel (Joyce, Nabokov, Borges, etc.). E, segundo, porque o Nobel premeia escritores humanistas, ou seja, optimistas, que oferecem à Academia Sueca uma visão inspiradora, e muitas vezes sentimental, da natureza humana.

Roth é o avesso disto e o último livro, Indignation, acabado de sair por estas bandas, é talvez o exemplo mais radical do pessimismo de Roth. Em Indignation, encontramos Marcus Messner, estudante universitário que abandona a família em Newark para fugir de duas condenações: o talho do pai, onde se preparam carnes kosher, e a paranóia do mesmo, que começa a alimentar um medo irracional e mórbido com a segurança do filho. Um pequeno erro pode precipitar consequências catastróficas, diz esta Cassandra judia, que assim reproduz a definição clássica de tragédia. Fatalmente, a tragédia abate-se sobre o filho, que nos relata a sua vida, ou o fim dela, do outro lado da eternidade.

Memórias póstumas, como diria o outro, que apenas sublinham a tensão fundamental da obra de Roth: as nossas acções não bastam para definir o nosso destino; o imponderável intromete-se na nossa conduta, subvertendo muitas vezes as intenções primevas. Isso é particularmente pungente no caso de Marcus, apostado em conseguir o primeiro diploma da família e em escapar a um destino funesto; mas subitamente destruído por vontades alheias e erros menores. Indignation é o relato desse fim sangrento. Um fim só comparável ao dos animais no matadouro.»* Crónica publicada no Expresso Online de 29/09/2008, ler aqui na integra.

João Pereira Coutinho

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Uma mulher no apogeu do apogeu

" Faunia Farley: pernas magras, pulsos magros, braços magros, costelas claramente desenhadas na camisola e omoplatas salientes. No entanto, quando o esforço lhe retesava o corpo, víamos que os seus membros eram duros; quando se esticava ou estendia os braços para qualquer coisa, víamos que os seus seios eram surpreendentemente firmes e robustos, e quando, por causa das moscas e dos mosquitos que zumbiam à volta da manada naquele abafado dia de Verão, dava uma palmada no pescoço ou nas costas, entrevíamos como era capaz de ser brincalhona, apesar do estilo aparentemente sério. Percebíamos que o seu corpo era algo mais do que eficientemente magro e severo, que ela era uma mulher de constituição firme, em equilíbrio precário no momento em que já atingiu a maturidade mas ainda não iniciou o declínio, uma mulher no apogeu do apogeu..."

Excerto de " A Mancha Humana ", de Philip Roth, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues



Sergio Mendes- "Magalenha"

quinta-feira, 17 de julho de 2008

sábado, 24 de maio de 2008

Tudo é efémero e tudo perdura - na memória

Marianne Faithfull -" Something Better "

" Nada dura e, todavia, nada acaba, também. E nada acaba precisamente porque nada dura. "

Excerto de " A mancha humana ", de Philip Roth, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues

domingo, 23 de março de 2008

"Las pantallas nos han derrotado" *

Pintura de Michael Borremans
*Entrevista de Philip Roth ao " El País ", ler aqui.

Arquivo do blogue

Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

FEEDJIT Live Traffic Feed