Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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sábado, 4 de outubro de 2008

A decadência...


" Não é a primeira vez que minhas pernas fraquejam quando me levanto bruscamente. Dou três passos bobos, antes de me firmar, e a magrinha ri, pensa que estou bêbado. Lembro-me do meu pai, que se queixava de dormências, achava que era cardíaco e fazia check-up todo o mês. Ao deixar-mos a sala de jantar, a magrinha adiante e o meu cunhado logo atrás de mim, precipito-me no banheiro. Sempre que preciso urinar às pressas, lamento usar o pau do lado direito, que é o lado errado, o que me obriga a dar-lhe um nó antes de o trazer para fora. Viso afinal o centro da latrina, tenho a bexiga repleta, mas o líquido arde e se recusa a extravasar. Algo me inibe. É como se a mão que segura o pau não me pertencesse. Vem-me a sensação de ter ao lado alguém invisível segurando o meu pau. Agito aquela mão, articulo os dedos, altero a empunhadura, tomo consciência da minha mão, mas agora é como se eu manipulasse o pau de um estranho à minha frente: Já não sinto a bexiga, desisto, fecho a braguilha. "



1) Fotografia de Jane Birkin
2) Excerto de " Estorvo " de Chico Buarque
3) Música " La Décadance ", de Serge Gainsbourg, cantada por Serge Gainsbourg e Jane Birkin

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

" O apartamento de Maninho Saraiva tinha quatro colunas de som que recebiam tardes de apenas se ouvir música. Tardes de chuva, com a água a cair na calma, braseando as musiquinhas de Vinicius de Moraes e do melhor Chico Buarque e os poemas de Eugénio de Andrade e Manuel Bandeira, no meio de " Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade". Ou as obras de Lenine, na «colecção fogão-geleira», livros para a clandestinidade. Tinham títulos como " O Fogão ", com um fogão a gás na capa, ou "A Geleira", mas dentro, em papel de muito má qualidade, estavam os clássicos proibidos. Viu-se " O Couraçado Potenkine" nessa casa.
Maria Alexandre, caçulinha - dezoito anos entre amigos que rondavam os trinta -, tinha a chave da cozinha. Davam-lhe liberdade para certas aventuras culinárias mas as festas estavam-lhe vedadas porque, nessa altura, a libertação de costumes ainda não tinha acontecido.(As jovens começavam a namorar mais cedo, «éramos mais soltas por causa do clima», vulgarizavam-se mini-saias, bikinis e hot-pants «mas o grande desbragamento angolano aconteceu depois da indepêndencia com a dinâmica da revolução e da liberdade reclamada por todos».) A caçula podia também tratar dos livros, manusear os panfletos proibidos e as conversas políticas."

Excerto de " Baía dos Tigres", de Pedro Rosa Mendes,Ed.D.Quixote,2ªEdição,1999



Chico Buarque -" Morena de Angola "

quarta-feira, 30 de julho de 2008

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

"Roda Viva" - Chico Buarque

Roda Viva

Composição: Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente

Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa

No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda viva

E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente

Até não poder resistir

Na volta do barco é que sente

O quanto deixou de cumprir

Faz tempo que a gente cultiva

A mais linda roseira que há

Mas eis que chega a roda viva

E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata

Não quer mais rodar não senhor

Não posso fazer serenata

A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa

Viola na rua a cantar

Mas eis que chega a roda viva

E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira

Que um dia a fogueira queimou

Foi tudo ilusão passageira

Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa

Faz força pro tempo parar

Mas eis que chega a roda viva

E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas rodas do meu coração

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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