Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

sábado, 4 de agosto de 2007

" Bouvard e Pécuchet 2 - Gustave Flaubert

" Na manhã de 25 de Fevereiro de 1848 soube-se em Chavignolles, por um indivíduo que vinha de falaise, que Paris estava coberta de barricadas - e no dia seguinte foi afixada a proclamação da Républica na Câmara.
Este grande acontecimento deixou os burgueses estupefactos.
Mas quando se soube que o Tribunal de Cassação, o Tribunal da Relação, o Tribunal de Contas, o Tribunal de Comércio, a Câmara dos Notários, a Ordem dos Advogados, o Conselho de Estado, a Universidade, os generais e o próprio senhor de La Rochejacquelein davam a sua adesão ao Governo Provisório, os corações desoprimiram-se; e como em Paris se plantavam árvores da liberdade, o Conselho Municipal decidiu que era preciso fazê-lo em Chavignolles.
Bouvard ofereceu uma, satisfeito no seu patriotismo com o triunfo do Povo - e, quanto a Pécuchet, a queda da Realeza de tal modo confirmava as suas previsões que não podia deixar de estar contente.
Gorgu, obedecendo-lhes zelosamente, retirou da terra um dos choupos que bordejavam a pastagem por baixo do Cabeço, e transportou-o para o « Passo do Pousio », à entrada do burgo, local designado.
Antes da hora da cerimónia estavam os três esperando o cortejo.
Soou um tambor e apareceu uma cruz de prata; seguidamente, surgiram dois archotes nas mãos de chantres, e o senhor prior com a estola, a sobrepeliz, a capa e o barrete. Era escoltado por quatro meninos de coro, e um quinto levava o balde de água-benta, seguido do sacristão.


Karajan - Beethoven Symphony No. 9 : Part 1

Subiu para a beira da cova onde se erguia o choupo, enfeitado com tirinhas tricolores. Em frente estava o presidente da Câmara e os seus dois adjuntos, Beljambe e Marescot, e depois os notáveis, o senhor de Faverges, Vaucorbeil, Coulon, juíz de paz, um homenzinho de rosto sonolento; Heurtaux tinha posto na cabeça um barrete de polícia - e Alexandre Petit, o novo professor, vestira a sobrecasaca, uma pobre sobrecasaca verde, a dos domingos. Os bombeiros, comandados por Girbal, de sabre em punho, formavam uma só fila; do outro lado brilhavam as chapas brancas de algumas velhas barretinas do tempo de La Fayette - cinco ou seis, não mais, já que a guarda nacional caíra em desuso em Chavignolles. Camponeses com as mulheres, operários das fábricas vizinhas, garotos, amontoavam-se lá atrás; e Placquevent, o guarda-rural, que tinha cinco pés e oito polegadas de altura, sofreava-os com o olhar, passeando de braços cruzados.
A alocução do prior foi como a dos outros padres na mesma circunstância. Depois de ter trovejado contra os Reis, glorificou a República. Não é que se diz República das Letras, República Cristã? Que há de mais inocente que uma e de mais belo que outra? Jesus Cristo formulou a nossa sublime divisa; a árvore do povo era a árvore da Cruz. Para que a Religião dê os seus frutos, precisa da caridade - e, em nome da caridade, o eclesiástico esconjurou os seus irmãos a não cometerem qualquer desordem, a regressarem a suas casas pacificamente.
Depois, aspergiu o arbusto, implorando a bênção de Deus.
« Que ele se desenvolva e nos recorde a libertação de toda a servidão, e esta fraternidade mais benéfica que a sombra dos seus ramos! - Amen!»
Algumas vozes repetiram Amen - e, após um rufar de tambor, o clero, entoando um Te Deum, retomou o aminho da igreja.
A sua intervenção produzira excelente efeito. Os simples viam nela uma promessa de felicidade, os patriotas uma deferência, uma homenagem prestada aos seus princípios.
Bouvard e Pécuchet achavam que lhes deviam ter agradecido o seu presente, que lhes deviam ter feito ao menos uma alusão; e abriram-se a este respeito com Faverges e o médico.
Que interessvam tais misérias! Vaucorbeil estava encantado com a Revolução, e o conde também. Este execrava os d´Orléans. Nunca mais os veriam; boa viagem! Agora, tudo pelo povo! - e, seguido de Hurdel, o seu factorum, foi juntar-se ao senhor prior.
Foureau caminhava de cabeça baixa, entre o notário e o estalajadeiro, humilhado pela cerimónia, com receio de um motim; e instintivamente virava-se para o guarda-rural, que deplorava com o capitão a insuficiência de Girbal e a má apresentação dos seus homens.
Passaram operários na estrada cantando a Maselhesa. Gorgu, no meio deles, brandia uma bengala; Petit escoltava-os, de olhos excitados.
- Não gosto daquilo! - disse Marescot - vociferam, exaltam-se!
- Meu Deus! - respondeu Coulon - a juventude tem que se divertir! "




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Excerto de " Bouvard e Pécuchet ", Gustave Flaubert, Trd. Pedro Tamen, Colecção Mil Folhas, Ed. Jornal " O Público"

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