Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta Flaubert. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Flaubert. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de abril de 2009

Madame Bovary online

Edição online de " Madame Bovary ", de Flaubert, ler e ver aqui.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

" Depois de se ter benzido à porta, avançava pela grande nave, por entre a dupla fila de cadeiras, abria o banco de Mme Aubain, sentava-se e passeava os olhos em volta.
Rapazes à direita e raparigas à esquerda, enchiam os bancos do coro; o padre ficava de pé junto ao púlpito; num vitral da abside, o Espírito-Santo, e por baixo a Virgem, que figurava num outro, de joelhos diante do Menino Jesus; e por detrás do tabernáculo, um grupo de madeira representava São Miguel trespassando o dragão.
O padre fez primeiro um resumo da História sagrada. Félicité julgava o paraíso, o dilúvio, a torre de Babel, cidades em chamas, pessoas a morrer, ídolos derrubados; e desse deslumbramento lhe ficou o respeito pelo Altíssimo e o temor da sua cólera. Depois, chorou ao ouvir a Paixão. Porque o tinham eles crucificado, a ele, que amava as crianças, alimentava as multidões, curava os cegos e quisera, na sua doçura, ir nascer no meio dos pobres, no estrume de um estábulo? As sementeiras, as ceifas, as pisas da uva, todas essas coisas familiares de que fala o Evangelho se encontravam na sua vida, a passagem de Deus santificara-as; e ela amava mais ternamente os cordeiros por amor do Cordeiro, as pombas por amor do Espírito-Santo.
O Espírito-Santo, tinha ela dificuldade em imaginar, porque era não somente ave, mas também fogo, outras vezes um sopro. Talvez seja a sua a luz que volteia de noite, à beira dos charcos, o seu hálito o que empurra as névoas, a sua voz a que harmoniza os sinos. E ficava-se, numa adoração, a gozar a frescura das paredes e a tranquilidade da igreja.
Quanto aos dogmas, nada compreendia nem procurava compreender."


Excerto do conto " Um coração simples ", de Flaubert, incluído no livro "Três contos", Trd. Telma Costa, Ed. Teorema, 1991

sábado, 4 de agosto de 2007

" Bouvard e Pécuchet 2 - Gustave Flaubert

" Na manhã de 25 de Fevereiro de 1848 soube-se em Chavignolles, por um indivíduo que vinha de falaise, que Paris estava coberta de barricadas - e no dia seguinte foi afixada a proclamação da Républica na Câmara.
Este grande acontecimento deixou os burgueses estupefactos.
Mas quando se soube que o Tribunal de Cassação, o Tribunal da Relação, o Tribunal de Contas, o Tribunal de Comércio, a Câmara dos Notários, a Ordem dos Advogados, o Conselho de Estado, a Universidade, os generais e o próprio senhor de La Rochejacquelein davam a sua adesão ao Governo Provisório, os corações desoprimiram-se; e como em Paris se plantavam árvores da liberdade, o Conselho Municipal decidiu que era preciso fazê-lo em Chavignolles.
Bouvard ofereceu uma, satisfeito no seu patriotismo com o triunfo do Povo - e, quanto a Pécuchet, a queda da Realeza de tal modo confirmava as suas previsões que não podia deixar de estar contente.
Gorgu, obedecendo-lhes zelosamente, retirou da terra um dos choupos que bordejavam a pastagem por baixo do Cabeço, e transportou-o para o « Passo do Pousio », à entrada do burgo, local designado.
Antes da hora da cerimónia estavam os três esperando o cortejo.
Soou um tambor e apareceu uma cruz de prata; seguidamente, surgiram dois archotes nas mãos de chantres, e o senhor prior com a estola, a sobrepeliz, a capa e o barrete. Era escoltado por quatro meninos de coro, e um quinto levava o balde de água-benta, seguido do sacristão.


Karajan - Beethoven Symphony No. 9 : Part 1

Subiu para a beira da cova onde se erguia o choupo, enfeitado com tirinhas tricolores. Em frente estava o presidente da Câmara e os seus dois adjuntos, Beljambe e Marescot, e depois os notáveis, o senhor de Faverges, Vaucorbeil, Coulon, juíz de paz, um homenzinho de rosto sonolento; Heurtaux tinha posto na cabeça um barrete de polícia - e Alexandre Petit, o novo professor, vestira a sobrecasaca, uma pobre sobrecasaca verde, a dos domingos. Os bombeiros, comandados por Girbal, de sabre em punho, formavam uma só fila; do outro lado brilhavam as chapas brancas de algumas velhas barretinas do tempo de La Fayette - cinco ou seis, não mais, já que a guarda nacional caíra em desuso em Chavignolles. Camponeses com as mulheres, operários das fábricas vizinhas, garotos, amontoavam-se lá atrás; e Placquevent, o guarda-rural, que tinha cinco pés e oito polegadas de altura, sofreava-os com o olhar, passeando de braços cruzados.
A alocução do prior foi como a dos outros padres na mesma circunstância. Depois de ter trovejado contra os Reis, glorificou a República. Não é que se diz República das Letras, República Cristã? Que há de mais inocente que uma e de mais belo que outra? Jesus Cristo formulou a nossa sublime divisa; a árvore do povo era a árvore da Cruz. Para que a Religião dê os seus frutos, precisa da caridade - e, em nome da caridade, o eclesiástico esconjurou os seus irmãos a não cometerem qualquer desordem, a regressarem a suas casas pacificamente.
Depois, aspergiu o arbusto, implorando a bênção de Deus.
« Que ele se desenvolva e nos recorde a libertação de toda a servidão, e esta fraternidade mais benéfica que a sombra dos seus ramos! - Amen!»
Algumas vozes repetiram Amen - e, após um rufar de tambor, o clero, entoando um Te Deum, retomou o aminho da igreja.
A sua intervenção produzira excelente efeito. Os simples viam nela uma promessa de felicidade, os patriotas uma deferência, uma homenagem prestada aos seus princípios.
Bouvard e Pécuchet achavam que lhes deviam ter agradecido o seu presente, que lhes deviam ter feito ao menos uma alusão; e abriram-se a este respeito com Faverges e o médico.
Que interessvam tais misérias! Vaucorbeil estava encantado com a Revolução, e o conde também. Este execrava os d´Orléans. Nunca mais os veriam; boa viagem! Agora, tudo pelo povo! - e, seguido de Hurdel, o seu factorum, foi juntar-se ao senhor prior.
Foureau caminhava de cabeça baixa, entre o notário e o estalajadeiro, humilhado pela cerimónia, com receio de um motim; e instintivamente virava-se para o guarda-rural, que deplorava com o capitão a insuficiência de Girbal e a má apresentação dos seus homens.
Passaram operários na estrada cantando a Maselhesa. Gorgu, no meio deles, brandia uma bengala; Petit escoltava-os, de olhos excitados.
- Não gosto daquilo! - disse Marescot - vociferam, exaltam-se!
- Meu Deus! - respondeu Coulon - a juventude tem que se divertir! "




Sex Pistols - Anarchy in the UK (Studio Version)


Excerto de " Bouvard e Pécuchet ", Gustave Flaubert, Trd. Pedro Tamen, Colecção Mil Folhas, Ed. Jornal " O Público"

Arquivo do blogue

Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

FEEDJIT Live Traffic Feed