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" Francisco(de Assis) não canoniza a pobreza. Não faz dela um ídolo. Combate-a ao lutar contra o luxo e o supérfluo. Mas a escolha da pobreza absoluta é para ele o único meio de se juntar à humanidade sofredora e, por essa via, a Cristo. Não há em Francisco apenas um agir por. Há um viver com os pobres. Estamos longe da tradição de caridade que dá mas fecha os olhos à realidade social e política. Em Calcutá, Madre Teresa torna-se pobre entre os pobres. Cria leprosarias e albergues para moribundos, penetra nas zonas de pobreza extrema. Mediáticas ou não, cristãs ou não, muitas pessoas vivem esta radicalidade. Serão loucos ou santos? São, sem dúvida, profetas, no sentido em que vão até ao fim nas suas palavras e nos seus actos.
A utopia franciscana permanece actual. Os frades menores criam uma sociedade paralela, um modelo alternativo, uma economia da pobreza que assenta na dádiva, na troca e na não-violência. Para os apóstolos, laicos ou cristãos, desta não-violência, o poder interior do homem é sempre superior ao que lhe querem impor do exterior. É a não-violência dos estudantes chineses da Praça de Tiananmem. É a não-violência das marchas das mães dos desaparecidos na América Latina. É a não-violência do pastor Martin Luther King, que exortava à construção de uma comunidade de amor, ou de um Gandhi. É a não-violência que diz ao opressor: nem o ideal que guardo no mais fundo do meu ser e pelo qual decidi bater-me. É aí que começa a verdadeira subversão dos pobres - o melhor da tradição cristã. Nessa força interior para dizer não reside a força de Deus e da liberdade humana."
Excerto de " Os génios do Cristianismo ", de Henri Tincq, Trd. Público, Ed. Gradiva/Público
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