Se conseguires entrar em casa e alguém estiver em fogo na tua cama e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho e do tecto cair uma chuva brilhante contínua e miudinha - não te assustes
são os teus antepassados que por um momento se levantaram da inércia dos séculos e vêm visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde zarpam navios carregados com medos do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu a morada de uma vida inteira e pede-lhes para murmurarem uma última canção para os olhos e adormece sem lágrimas - com eles no chão
Todos nascemos nus - condição dos vermes, dos punhais e da luz. Os filhos só têm a mais o terror das diferenças das mães a vesti-los com os braços - destinos feios de mijo a chorar nas rendas e violinos em trapos. Todos nascemos nus - condição dos seios, das açucenas e dos sapos. Mas até os seios das mães são diferentes. Uns cheiram a sedas quentes, outros, a urina de cães. Bem. Agora devia sofrer cuspir nos espelhos dos remorsos. E esbofetear o céu com gritos de mãos de ossos. Mas não. Sorrio. Todos nascemos nus - condição dos mortos despidos pelo frio. Álbum/XII, de José Gomes Ferreira
" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. "
Robert Walser