Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cenas da vida conjugal(2)

« Obcecado por uma ideia fixa, à dúvida que já sentia sobre aquele casamento que em tempos lhe agradara, acrescentou amadurecidos instintos de cupidez. Raciocinando assim, ruminou solitário e sem descanso as mesmas reflexões, acabou por sabotar o seu próprio espírito e atribuir um valor enorme a factos que não tinham importância.»

Excerto de " O castelo do homem ancorado ", de J.K. Huysmans, Trd. Aníbal Fernandes, Ed.Livro B, 1985

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Os ácaros

" - Estou a sentir-me todo comido - respondeu ele. - Parece uma invasão de sarna, é o diabo de uma comichão que nem arranhada consigo acalmar.
Jacques começara por sentir o corpo metido numa labareda e depois, aos poucos, mal passava o fugaz alívio da pele coçada até ao sangue, uma queimadura mais aguda, um enervamento de desatar aos gritos, uma comichosa dor de enlouquecer!
É dos ácaros - disse a tia Norine a rir.
- Só apareceram ontem. Vê só! - Baixou a cabeça e afastou duas borrefas no pescoço que encaixavam entre elas um grão de milho vermelho enfiado na pele.
- Isto não vale nada, não vale mais do que uma pulga! - continuou o tio. - Hão-de encontrar-se por aí até chover.
Jacques invejou o couro batido daquela gente que não sofria, enquanto lhe dava a ele para ranger dentes e espiolhar carnes.
Diabos levem o campo! - Afastou-se dos ceifeiros. Tinha de tirar a roupa para poder arranhar-se à vontade. A meio caminho do castelo não pôde aguentar mais. Despiu-se atrás de um maciço de árvores, quase a chorar com as dores que sentia. Arrancou bocados de epiderme e não houve coçadela, raspagem, beliscão ou esfregadela que lhe saciasse o corpo. Mal esfolava um lado nasciam noutro comichões intoleráveis que iam ardendo, uma de cada vez, e o absorviam, forçavam a dar unhadas em tudo quanto era sítio e a voltar às bolhas maduras que já sangravam."

Excerto de " O castelo do Homem ancorado ", de J.K.Huysmans, Trd. Aníbal Fernandes, Colecção Livros B, Editorial Estampa, P. 129

quarta-feira, 2 de maio de 2007

" O Castelo do Homem ancorado " - J.K. Huysmans

" Passava em revista os inconvenientes que o castelo já desvendara: vizinhança ameaçadora de animais e homens; humidade glaciar; falta de conforto e penúria de água; ainda por cima desleixos que o indignavam. Em vão procurara naquele labirinto um desses quartos que são confessionários do corpo, as salas preparadas para dar largas aos pendores secretos. Em baixo, perto do quarto da Marquesa, acabara por descobrir um cubículo mas em tal estadoque só correndo algum perigo se podia lá entrar.
E mais nada.
Exprimira o seu espanto ao tio Antoine, que começara por arregalar os olhos e depois olhara para Norine, divertidíssima a bater nas coxas.
- Pelos vistos, sobrinho, o que tu queres é cagar - disse ela entre dois soluços.
- Aqui todos arreiam lá fora, seja quem for!
Esta maneira simples de resolver uma embaraçosa questão exasperou o rapaz, pura e simplesmente. "

Excerto da novela " O Castelo do Homem ancorado " , de J.K. Huysmans, Tradução de Anibal Fernandes, Ed. Editorial Estampa

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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