Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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domingo, 22 de julho de 2007

" Os nomes " - Don Delillo

" Ele tinha mordido um pêssego e estava a cheirar a polpa fibrosa junto do caroço. Creio que sorri, reconhecendo os meus modos afectados. Estes pêssegos eram uma desconcertante delícia, alguns deles, provocando aquele tipo de sensualidade que é tão inesperadamente profunda que parece exigir outro contexto. Não se espera que as coisas vulgares sejam assim agradáveis. Nada no exterior do pêssego nos diz que ele irá ser tão suculento, húmido e aromático, com o sumo a escorrer-nos pelas gengivas, nem tão subtilmente colorido por dentro, de um aveludado dourado com veios cor de rosa. Tentei discutir isto com os rostos do outro lado da mesa.
- Mas eu acho que o prazer não é fácil de repetir - disse Eliades. - Amanhã comemos um pêssego do mesmo cesto e ficamos desapontados. Então perguntamo-nos se não estaríamos enganados. Um pêssego, um cigarro. Aprecio um cigarro em cada mil. Todavia continuo a fumar. Julgo que o prazer está mais no momento do que no acto. Continuo a fumar para encontrar esse momento. Talvez tente até morrer. "

Excerto de " Os Nomes ", Don Delillo, Trd. Maria Manuela Ribeiro, Ed. Relógio D´Água,
publicado também na colecção Mil Folhas do Público.

domingo, 15 de julho de 2007

" O altar dos mortos " - Henry James

" Aquele pobre Stransom detestava solenemente as datas fúnebres, detestava-as tanto mais quanto mais importantes pretendessem ser. Tanto o celebrá-las como o suprimi-las lhe custava e, na sua vida, só uma celebração tinha ainda lugar: todos os anos celebrava, a seu modo, a data da morte de Mary Antrim. Talvez seja mais exacto dizer que todos os anos, ao chegar aquela data, ele se via forçado pela recordação, por uma obsessão tirânica que, naquele dia, o impedia de fazer o que quer que fosse. Despertava para aquela festa de recordações com a mesma consciência com que se levantaria na manhã do casamento. Casamento era de resto coisa que, para ele, nunca houvera. Para a jovem que deveria ter sido sua esposa, o beijo nupcial nunca chegou a existir. Morrera de uma febre maligna, pouco tempo depois de ter sido fixado o dia do casamento. Perdera, antes de ter saboreado, um afecto que prometia encher toda a sua vida.

Falso seria porém afirmar que a sua vida fora completamente privada do benefício desse afecto. A sua vida era ainda dirigida por um fantasma pálido, era regulada por aquela presença soberana. Stransom nunca fora homem de muitas paixões e, à medida que os anos passavam, o único sentimento que nele se tinha enraizado fora o sentimento de um despojamento profundo. Não precisara de padre nem de altar que consagrasse a sua eterna viuvez. Tinha realizado neste mundo as mais variadas coisas. Fizera tudo, à excepção de uma coisa: nunca esquecera. "



Excerto de " O altar dos mortos " de Henry James, incluído na colectânea de contos " O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais ", Trd. Manuel João Gomes, Colecção Livro B, Ed. Editorial Estampa.

domingo, 17 de junho de 2007

"A ideia da Europa " - George Steiner


«A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa.’»
… e termina assim este ensaio verdadeiramente admirável de George Steiner:
«Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de — como Trotsky proclamou — o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe. Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ‘a vida não reflectida’ não é efectivamente digna de ser vivida.»

Ed. Gradiva

Giovanni Papini


Giovanni Papini, escritor e filósofo italiano, injustamente esquecido.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Raduan Nassar

Aí pelas Três da Tarde

Raduan Nassar(para José Carlos Abbate)

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

Saiba mais sobre o autor e sua obra visitando "Biografias".

terça-feira, 29 de maio de 2007

Júlio Verne


Júlio Verne, um dos escritores que me fez sonhar, na minha infância.

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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