Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

domingo, 26 de julho de 2009

«Nicholson tirou mais um cigarro, mas sem desviar os olhos de Teddy. «Como é que se sai das dimensões finitas? - perguntou, e soltou uma risadinha. - Quer dizer, para pôr as coisas em termos básicos, um bloco de madeira é um bloco de madeira, por exemplo. Tem cumprimento, largura...»
- Não tem. Aí é que se engana - disse Teddy. - Toda a gente pensa que as coisas acabam num ponto qualquer. Mas não. É isso que eu estava a tentar dizer ao Professor Peet. -Mexeu-se no assento e tirou do bolso a lástima de um lenço, uma coisa cinzenta, amarfanhada, e assoou-se. - As coisas só parecem acabar num ponto qualquer porque a maior parte das pessoas só sabe olhar para as coisas dessa maneira - disse ele. - Mas isso não quer dizer que acabem. - Guardou o lenço, e olhou para Nicholson. - Importa-se de levantar o braço um segundo, faz favor? - perguntou.
- O meu braço? Porquê?
- Levante-o. Só um segundo.
Nicholson levantou o braço uns centímetros acima do braço da cadeira. «Este?», perguntou.
Teddy fez que sim com a cabeça. « Que nome dá a isso? », perguntou.
- Como assim? É o meu braço. É um braço.
- Como sabe que é? - perguntou Teddy. - Sabe que lhe chamam um braço, mas como sabe o que é? Tem alguma prova de que é um braço?
Nicholson tirou um cigarro do maço e acendeu-o. « Francamente, isso tresanda a sofisma do pior - disse ele, soprando o fumo. - É um braço, co´s diabos, porque é um braço. Para já, tem de ter um nome para se distinguir de outros objectos. Quer dizer, não se pode simplesmente...»
- Está apenas a ser lógico - disse Teddy, impassível.
- Estou a ser apenas o quê? - perguntou Nicholson, com uma polidez um pouco exagerada.
- Lógico. Estou a tentar ajudá-lo. Perguntou-me como saio das dimensões finitas quando quero. Não é a lógica que eu uso , quando o faço. A lógica é a primeira coisa de que temos de nos desembaraçar.
Nicholson retirou da língua um fio de tabaco, com os dedos.
- Conhece o Adão? - perguntou Teddy.
- Se conheço quem?
- Adão. O da Bíblia.
Nicholson hesitou. « Pessoalmente não », disse ele cortante.
Teddy hesitou. « Não se zangue comigo - disse ele. - Fez-me uma pergunta e eu estou a...»
- Não estou zangado consigo, por amor de Deus.
-Ok - disse Teddy. Estava reclinado na cadeira, mas com a cabeça voltada para Nicholson. - Lembra-se daquela maçã que Adão comeu no Paraíso, como vem na Bíblia? - perguntou. - Sabe o que havia naquela maçã. Por isso, isto é o que eu acho, o que tem de fazer é vomitá-la se quiser ver as coisas como elas são realmente. Quer dizer, se vomitar a maçã, então já não tem mais problemas com blocos de madeira e assim. E fica a saber o que o seu braço é realmente, se estiver interessado. Está a ver o que eu quero dizer? Está a seguir o que eu digo?
- Estou a seguir, estou - disse Nicholson, um pouco seco.
- O problema - disse Teddy - é que a maior parte das pessoas não quer ver as coisas como elas são. Nem sequer querem deixar de estar sempre a nascer e a morrer. Querem sempre novos corpos, em vez de pararem e de ficarem com Deus, que é onde se está realmente bem. - Reflectiu uns instantes. - Nunca vi um tal bando de comedores de maçãs - disse ele. Abanou a cabeça.»

Excerto do conto " Teddy ", deJ.D.Salinger, incluído no livro " Nove contos ", Trd. José Lima, 2ª edição, p.182/183

sábado, 3 de janeiro de 2009

No aniversário de J.D.Salinger

" Ia ainda na minha primeira chávena de chá, quando entrou na sala a miúda que eu tinha estado a ver e a ouvir cantar. Os cabelos estavam encharcados e tinha os bordos das orelhas à mostra. Vinha acompanhada de um rapazinho, indubitavelmente irmão dela, a quem tirou o boné da cabeça com dois dedos, como se fosse um espécime laboratorial. A fechar o cortejo, vinha uma mulher de ar enérgico com um chapéu de feltro mole - presumivelmente a governanta. A miúda do coro, despindo o casaco enquanto atravessava a sala, escolheu a mesa - uma boa escolha, do meu ponto de vista, pois estava apenas a dois ou três metros à minha frente. Ela e a governanta sentaram-se. O rapazito, que tinha uns cinco anos, não estava ainda no ponto para se sentar. Deslizou para fora do casacão e deixou-o a um lado; depois, com a expressão matreira de um diabrete nato, pôs-se a importunar metodicamente a governanta empurrando e puxando-lhe a cadeira várias vezes, observando a cara que ela fazia. A governanta, em voz baixa, disse-lhe duas ou três vezes para se sentar e se deixar já daquelas macaquices, mas foi só quando a irmã o mandou sentar que ele deu a volta à mesa e sentou o rabinho na cadeira. Pegou imediatamente no guardanapo e pô-lo na cabeça. A irmã tirou-lho, abriu-o, e estendeu-lho no colo.
No momento em que lhes traziam o chá, a rapariga do coro apanhou-me a olhar para o grupo. Devolveu-me o olhar, com aqueles seus olhos escrutinadores. E depois, repentinamente, fez-me um pequeno sorriso, reservado. Era um sorriso estranhamente radioso, como certos pequenos sorrisos reservados o são por vezes. Devolvi o sorriso, muito menos radioso, mantendo o lábio superior a esconder uma obturação temporária de soldado raso, negra como o carvão, entre dois dos meus dentes da frente. Antes que desse por isso, a miúda estava em pé, com uma pose invejável, ao lado da minha mesa. Trazia um vestido escocês - o tartan dos Campbell, acho eu. A meu ver, um vestido magnífico para uma miúda tão nova usar num dia muito chuvoso. «Pensava que os Americanos desdenhavam o chá», disse ela."


Excerto do conto "Para Esmé - Com Amor e Sordidez", de J.D.Salinger, Trd. José Lima, ED. Difel, 2005

«Jerome David Salinger, el más íntimo de los escritores famosos contemporáneos, cumplió ayer 90 años. Es un autor escondido, pero genera una industria popular de fanáticos, críticos y comentadores, la Industria Salinger, de la que alguna vez habló George Steiner. Mítico desde la publicación de The Catcher in the Rye en 1951 (El guardián entre el centeno, 1978, traducción de Carmen Criado), ha demostrado la voluntad violenta de mantenerse a salvo del fervor público, hasta desaparecer en defensa de su vida privada. En tiempos de manía publicitaria, exhibicionista, J. D. Salinger ha eludido combativamente la intromisión espectacular de periódicos y televisiones. Ha pleiteado contra sus biógrafos. Ha sufrido las indiscreciones autobiográficas de mujeres que lo tuvieron cerca y han practicado con el escritor el género Kiss and tell, o "besa al famoso para después contarlo", incluso desde un punto de vista filial.»Justo Navarro, El País Online de 02/01/2009

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