Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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sábado, 29 de dezembro de 2007

Aqui não há inocentes

" - Ai de quem me diga que alguém é inocente. Tudo menos isso. Porque aqui não há inocentes. Ninguém está aqui por acaso. Quem atravessou o portão deste Pátio não é inocente. Fez qualquer coisa de mal, mesmo que tenha sido em sonhos. Ou pelo menos, a sua mãe, quando o paria, pensou em qualquer coisa de mal. Cada um, claro, diz que não é culpado, mas, em todos estes anos que aqui passei ainda não conheci um só caso que tivesse sido para cá trazido sem mais nem menos e sem culpa nenhuma. Quem aqui entra, culpado é ou, no mínimo, passou perto de um culpado. Ffiii! Foram muitos os que soltei, por ordem alheia ou à minha responsabilidade. Mas eram todos culpados. Aqui não há inocentes. Mas há culpados, aos milhares, que não estão aqui e que jamais para cá virão parar, porque se todos os culpados acabassem aqui, este pátio teria de se estender de mar a mar. Eu conheço os homens, são todos culpados, só que nem todos estão destinados a comerem o pão aqui."

Excerto de " O pátio maldito ", de Ivo Andric, Trd. Lucia e Dejan Stankovic,Ed. Cavalo de Ferro,2003

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O Pátio Maldito

" A própria localização do Pátio Maldito era estranha, como se tivesse sido calculada para aumentar as torturas e os sofrimentos dos presos( frei Petar voltava muitas vezes a isto, tentando descrevê-lo). Do Pátio nada se vê da cidade, nem do porto, nem do arsenal abandonado lá em baixo na margem do estreito. Só há o céu, imenso e cruel na sua beleza e, ao longe, um canto verdejante da margem asiática, do outro lado do mar invisível, e o vértice do minarete de uma mesquita desconhecida ou da copa de um cipreste gigantesco, atrás do muro. Tudo indeterminado, anónimo e alheio. Assim, um estrangeiro tem a sensação constante de estar numa ilha diabólica, longe de tudo o que até então para si significava vida, e sem esperança de em breve tornar a reencontrá-la. Os presos de Constantinopla sofrem ainda um outro castigo, aquele de não ver nem sentir nada da sua cidade: estão lá, mas é como se estivessem a cem dias de viagem; e essa lonjura aparente atormenta-os como se fosse real. Por todas estas razões, o Pátio, rápida e insensivelmente, dobra um homem, subjuga-o de tal modo que acaba por se perder. Depressa se esquece de tudo o que aconteceu e pensa-se cada vez menos no que acontecerá; assim o passado e o futuro fundem-se num único presente, na terrível e insólita vida do Pátio Maldito. "

Excerto de " O pátio maldito ", de Ivo Andric, Trd. Lucia e Dejan Stankovic, Ed. Cavalo de Ferro,2003

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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