Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A preto e branco



Ao som de Haydn

Sábado.Sala Suggia.Casa da Música. Os músicos afinam os instrumentos, nos poucos minutos que faltam para começar o concerto.
Atrás de mim, duas senhoras para quem não dirigi o olhar.Conversam:

- Sabes que o Godinho é meu vizinho?
- Ai sim!?
- Ele contratou o Rodrigo Santiago, é o único capaz de o tirar da prisão.
- Oxalá!

E os sons de Haydn calaram a conversa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

...


«Que a Picasso le gustaba el sexo más que la miel al oso es cosa sabida. Toda su obra rezuma erotismo y así ha quedado claro en las diversas exposiciones sobre el tema que se han venido haciendo estos años. Lo que no era tan conocido es que atesoraba una excelente colección de estampas eróticas japonesas y que éstas, además, le influyeron en algunas de sus series de grabados. Pues, aunque no hay una estricta correspondencia formal, sí que pueden apreciarse curiosas coincidencias de composición en la manera de acoplarse de los amantes o en el interés por forzar la postura de manera que se aprecien los órganos genitales con pelos (nunca mejor dicho) y señales. Un poco a la manera de los shunga japoneses, una versión erótica de los ukiyo-e, de utilidad meridiana, en la que la delicadeza del dibujo no impide mostrar los coitos con todo detalle.» continuar a ler aqui.
Catalina Serra, El País, 05/11/2009

domingo, 1 de novembro de 2009

Canção do dia(12): "Howard" - Dent May & His Magnificent Ukulele(2009)

Leituras de domingo(4)

« Não acredito que os mortos nos ouçam, mas tu acreditavas e eu estou em Miranda.
Hoje vi um poema na parede com o teu nome por baixo. Quando morreste, o Mário Correia, do centro de música de Sendim, ficou sem fala. Depois foi ao livro dos visitantes e emoldurou aquilo que lá tinhas deixado no dia 23 de Julho de 2003.
E assim estás lá, no meio dos discos, dos filmes, das 1800 horas de música recolhidas pelas aldeias, e até hoje há uma cadeira vazia no Festival Intercéltico que é tua, diz o Mário. Foi ele que pela primeira vez te pôs uma gaita-de-foles nos braços, que festa.
O país de Lisboa enfeita-se de vez em quando com Miranda, mas aquilo eras tu.
Quantas textos nos mandaste daqui? Quantos concertos da June Tabor, quantos Intercélticos, quanta paixão?
Havia a música, a gente tocava, dançava, comia e bebia. E às tantas tu ias sozinho pelo planalto, ver a lua, ver o rio.
Diante do princípio do mundo que é o Douro em Miranda talvez Lisboa esteja extinta. Ou talvez tudo possa ainda começar.
Nas arribas hoje de manhã era Verão, o rio polido, as pedras quentes. Ma já havia árvores douradas e vermelhas e as folhas dos choupos flutuavam na água.
À hora do almoço fomos comer a posta à Gabriela. As alheiras, de entrada, tinham sido feitas ontem. Provámos compota de figo, abóbora, marmelo, ginja, cereja e pêra.
A Adelaide diz que já ninguém passa fome em Sendim, mas o pastor Lázaro, de Duas Igrejas, contou-nos que um pastor se enforcou há dias, deixando oito filhos, porque já não podia com as dívidas.
Ao lusco-fusco, as pedras entre Sendim e Bemposta pareciam grandes animais deitados.
A lua entrou antes do sol sair, quase cheia.
Não via a casa do teu Sporting, só a do Benfica, e à noite, na televisão, passou o Porto-Belenenses.
Na associação dos pauliteiros em Duas Igrejas poucos olhavam para o jogo. Os mais velhos batiam cartas, as raparigas comiam castanhas, os rapazes abriram o salão e fizeram três danças com os paus, incluindo a do salto de cavalo. Estavam cheios de proa por terem ido à América em Junho. Puseram-se a dançar em Times Square com as saias e tudo.
Hoje, domingo, 1 de Novembro, Miranda vai ver os seus mortos, levar-lhes flores, falar com eles. Parece que daqui se ouve melhor.
O Mário contou que quando vocês iam às arribas, ele dizia: " Como somos pequenos." E tu dizias: "Estás enganado, aqui somos enormes."
No poema que deixaste em Sendim, há este verso: "E das pedras se faz luz."
Fazias tu, e era isso que a gente lia.

( Fernando Magalhães, jornalista fundador do Público, morreu a 15 de Maio de 2005, aos 49 anos)»

" Carta de Miranda para o Fernando ", crónica de Alexandra Lucas Coelho, P2, Público, 01/11/2009

Morreu António Sérgio

Fotografia de Miguel Madeira(Público)


«O histórico radialista António Sérgio, o homem que foi a voz do "Lobo", morreu hoje de madrugada, aos 59 anos. A notícia foi confirmada ao PÚBLICO por Luís Montez, dono da rádio para a qual trabalhava actualmente, a Radar FM. Segundo Montez, António Sérgio terá morrido na sequência de um ataque cardíaco.» continuar a ler aqui.



Susana Almeida Ribeiro, Público Online, 01/11/2009





Pus o " Let it come down " dos Spiritualized a tocar. Estava a ouvir " Do it all over again " , ligo o computador e abro a página do Público. Morreu António Sérgio.
Quase chorei. Era um dos meus "heróis". Deu-me o " Som da Frente ", deu-me o " Grande Delta ", ajudou a construir a XFM( a " Ilha dos Amores " da rádio). Deixei de o ouvir por razões várias, embora continuasse a acompanhar o seu percurso.
Em sua homenagem, vou por a tocar a colêctanea do " Som da Frente ".

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Auto-Retrato



Canção do dia(11): " Inquietação " - José Mário Branco

Banqueiros...

« e cinco minutos depois descia as escadas para a rua no centro de uma chusma de militares maltrapilhos que os caixas aplaudiam, que os comunistas aplaudiam, que as empregadas da limpeza aplaudiam, que até a cabra da secretária, após um momentinho de hesitação, aplaudia mais forte do que os outros, de dedos tão carregados de ouro que ainda hoje estou para saber como lograva movê-los, cá fora os aplausos transformados em ameaças, um contínuo a pontapear-me o traseiro, um paquete a cuspir-me e eu de auscultador na orelha, incapaz de distinguir se era o pessoal do banco ou o delegado de Zurique quem me insultava, eu para o bocal enquanto me empurravam para uma furgoneta do Exército
- Perdão?
na cela de Caxias dei com os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus sócios, cada qual com o seu telefone em punho, a arrastar um pedaço de fio na ilusão de transferirem uma ninharia de dólares para Denver, para Paris, para Tóquio, para Barcelona, todos eles sem atacadores nem gravata a perguntarem à uma aos aparelhos mudos
- Perdão?»
Excerto de " O manual dos Inquisidores ", de António Lobo Antunes

Lá como cá

«La mayoría de los diputados ha rechazado en el Pleno del Congreso una iniciativa de Gaspar Llamazares (IU) para que los parlamentarios hagan públicos sus patrimonios y declaraciones de la Renta. El diputado defiende la iniciativa en la tribuna, pero en el último momento ni siquiera la ha sometido a votación al constatar que al menos PSOE, PP y CiU la iban a rechazar.» continuar a ler aqui.

Fernando Garea, El País, 29/10/2009

Branqueiros ?

( Imagem publicada no El País de 29/10/2009)


«Armando Vara é um dos 12 arguidos ontem constituídos no âmbito da operação Face Oculta desencadeada pelo Departamento de Investigação Criminal de Aveiro da Polícia Judiciária. O vice-presidente do Millennium BCP “não faz comentários”, disse ao PÚBLICO uma fonte oficial do banco, tendo o PÚBLICO apurado que Vara não está a ser alvo de investigação por actos praticados na sua qualidade de gestor daquela instituição financeira.» continuar a ler aqui.
António Arnaldo Mesquita, Público, 29/10/2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Canção do dia(10): " Across the Universe "* - Laibach(2006)

* original dos Beatles

Bartolomé Esteban Murillo


Ler e ver aqui na Wikipédia.

Viver para além da morte


«De todas las imágenes que vio, hay una que no se le va de la cabeza. La historiadora preserva el secreto de la tesis aún sin publicar y no da nombres. Revela sólo que es de un fotógrafo orensano "no muy conocido". "Aparecen un bebé muerto y su hermanito vivo que lo acompaña". A los niños que morían se los retrataba para conservar la memoria de su cara vista y no vista. A los mayores, además de por el recuerdo, se los solía fotografiar para dar fe del óbito a los familiares que estaban ausentes. La fotografía post mortem era un documento importante en el reparto de las herencias. Después de avisar al cura, se iba a por el retratista. Volvían andando o en burro. Más tarde en coche. El material pesaba, pero había prisa por llegar. Para sacar al muerto lo más vivo posible.» ler aqui artigo completo.
Silvia R. Pontevedra, El País( Galicia ), 27/10/2009

domingo, 25 de outubro de 2009

Leituras de domingo(3)

« Como Benjamim de Petrogrado, durante esse ano de 1922, cerca de 2700 padres e bispos, 2000 monges, 3400 religiosas foram executados. É uma das páginas mais negras da revolução bolchevique. Segundo relata Olivier Clément, nessa época os santuários são profanados, os ícones espezinhados, padres, bispos, fiéis são fuzilados, empalados, fervidos em água! Que Deus vos perdoe!, grita o bispo Vladimiro de Kiev no momento de ser fuzilado. A outro mártir, o professor do seminário de Voronej, Nectaire Ivanov, partiram-lhe as pernas e os braços, enfiaram-lhe no corpo bocados de madeira e obrigaram-no a comungar com chumbo fundido na boca. Antes de morrer, arranjou forças para se lembrar da fórmula bíblica: Senhor, deixa agora ir o seu servo em paz

Excerto de " Os Génios do Cristianismo ", de Henri Tincq, Trd. Público, Ed. Público, 1999

« Na saída principal, a turba esmagava-se, empurrava-se, atropelava-se, umas pessoas perdiam o chapéu, outras benziam-se... Da porta lateral, da qual se estilhaçaram dois vidros, saiu, recamada de ouro e prata, mas também espavorida e sufocada, a procissão com o coro. Manchas douradas vogavam no mar negro, do qual emergiam barretes purpúreos e mitras, e as bandeiras inclinavam-se, para transpor as portas, e voltavam logo a erguer-se.
Geava e toda a cidade parecia fumegar. O adro da igreja, conspurcado por milhares de pés, gemia sem cessar. Uma névoa glacial pairava no ar estático e subia para o campanário. O pesado sino de Santa Sofia tocava com força, a tentar abafar toda aquela horrível e vociferante desordem. Os sinos mais pequenos também faziam o que podiam, sem tom nem som, como se o próprio Diabo, oculto numa sotaina, se tivesse instalado no campanário e puxasse as cordas dos sinos, para se divertir. Pelas fendas negras do alto campanário, viam-se os sinos badalar, como cães furiosos a esticar as correntes. O frio cortava e a massa negra, amalgamada, de penitentes desembocava no adro. »

Excerto de " A Guarda Branca "(1922/1923), de Mikhaïl Bulgakov, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues, Editorial Pórtico

Augusto Alves da Silva


Augusto Alves da Silva, exposição retrospectiva no Museu de Serralves. Ver aqui mais fotografias no site da Galeria Pedro Oliveira.

Um cigarro


Fotografia de Augusto Alves da Silva(2008)

Canção do dia(9): " Sem palavras " - Móveis Coloniais de Acaju(2008)

O nosso Cisco Kid


«Cada bairro é um xadrez, com os seus reis, e é disso que António Lobo Antunes agora fala, da malandragem. A gente sabe como ele gostava de ter sido o Cisco Kid, e já viu o que ele leu de policiais.»
Excerto de " Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes ", entrevista de Alexandra Lucas Coelho, publicada na Ípsilon de 23/10/2009.

sábado, 24 de outubro de 2009

Canção do dia(8) : " A ilha dos outros " - Nancy Vieira(2009)

Liza Minnelli








Imagens retiradas do Daily Mail de 02/10/2008


«A actriz e cantora norte-americana Liza Minnelli deverá testemunhar perante um juiz nova-iorquino, no processo interposto em 2004 pelo seu motorista, que a acusa de obrigá-lo a manter relações sexuais com ela, informou sexta-feira o New York Post.» continuar a ler aqui.

Jornal de Notícias, 23/10/2009

Escalpes...

" Miss Murder of McCrea ", Filadélfia(1840 ?), litografia de Thomas Sinclair


«Uma mulher que, em Agosto, apareceu nua ao lado de um BMW a arder no Marco de Canaveses terá sido, afinal, protagonista de encenação de sequestro e agressões que incluíram arranque de couro cabeludo. Foi a conclusão da investigação da PJ. » continuar a ler aqui.

Nuno Miguel Maia, Jornal de Notícias, 23/10/2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Canção do dia(6) : " Pata Pata " - Miriam Makeba(1977)

De onde viemos? Quem somos ? Para onde vamos?

Leituras de domingo(2)

«La generación a la que pertenezco dio varias batallas: por la revolución, el comunismo, la emancipación de la mujer, la libertad religiosa y la libertad sexual. Parecía que, habiendo perdido todas las otras, por lo menos en Occidente habíamos ganado esta última. Episodios como los que resumo en esta nota muestran que creer semejante cosa es una ilusión. ¿Qué clase de libertad sexual hay detrás de las villanías de este trío? Abusar de una niña de 13 años, gozar con adolescentes que son esclavos sexuales por culpa del hambre y la violencia y convertir en un burdel el poder al que se ha llegado mediante el voto de millones de ingenuos, son acciones que hacen escarnio de la libertad que precisamente clama porque en la vida sexual desaparezca esa relación de amo y esclavo que, en estos tres casos, se manifiesta de manera flagrante. La libertad sexual es en ellos una patente de corso que permite a quienes tienen fama, dinero o poder, materializar de manera impune sus deseos degradando a los más débiles. Apuesto mi cabeza que los tres héroes de estas historias reprobaron escandalizados las violaciones y abusos sexuales de niños en los colegios religiosos que han llevado al borde de la ruina a la Iglesia Católica en países como Estados Unidos e Irlanda, por las sumas enormes con que han debido compensar a las víctimas. Ni ellos ni sus defensores parecen conscientes de que sus proezas son todavía menos excusables que las de los curas pedófilos por la posición de privilegio que tienen y de la que abusaron, envileciendo con sus actos la noción misma de libertad. Cuánta razón tenía Georges Bataille cuando pronosticaba que la supuesta sociedad "permisiva" serviría para acabar con el erotismo pero no con la brutalidad sexual.»

" Desafueros de la libido ", por Mario Vargas Llosa, El País, 18/10/2009


« O sol baixava. Os dois fugitivos ouviram uns gritinhos que pareciam de vozes femininas; não se percebia bem se eram gritos de dôr ou de alegria. Êles puzeram-se logo em pé, com a inquietude e o alarme que tudo inspira num lugar desconhecido. Os clamores partiam de duas raparigas inteiramente nuas que corriam vivamente na borda do prado, seguidas por dois macacos que lhes mordiam nas nádegas. Cândido apiedou-se. Como, durante o seu tempo de serviço no exército búlgaro, havia aprendido a bem atirar e teria furado uma avelã numa moita sem tocar nas folhas, tomou a espingarda e matou os dois macacos.
- Graças a Deus, meu querido Cacambo, disse êle, salvei dum enorme risco essas pobres criaturas. Se cometi um pecado na hora em que matei um inquisidor e um jesuíta, reparei a minha falta salvando a vida de duas mulheres. Talvez sejam pessôas de categoria e esta aventura nos venha a trazer algumas vantagens no país.
Ia continuar, mas sentiu a língua prêsa quando viu as raprigas beijarem ternamente os dois macacos, debulharem-se em lágrimas sôbre os seus corpos, e encherem o espaço dos mais dolorosos gritos.
- Não esperava encontrar tamanha bondade, disse êle a Cacambo, o qual lhe replicou:
- Meu amo, o senhor meteu-se em bôa! Decerto matou os dois amantes dessas meninas!
- Amantes? exclamou Cândido. Será possível? Tu zombas de mim, Cacambo, não posso acreditar-te!
- Meu querido amo, respondeu Cacambo, o senhor espanta-se de tudo e de nada. Porque lhe parece tão extaordinário que nalgumas regiões os macacos obtenham as complacências das damas? Êles têm o seu bocado de homens, tal como eu tenho um quarto de sangue Espanhol.»


Excerto de " Cândido " de Voltaire, Trd. Maria Archer, Ed. Guimarães & Cª Editores

Auto-de-fé


« Após o tremor de terra que destruira três quartos de Lisboa os sábios do país cogitaram em que o meio mais eficaz para prevenir a ruína total da cidade consistia em dar ao povo um rico auto-de-fé. Fôra decidido pela Universidade de Coimbra que o espetáculo de várias pessoas queimadas a fogo lento, com grande cerimonial, era um feitiço infalível para impedira terra de tremer.
Por consequência agarraram num biscaínho, criminoso de casamento com a comadre, e em dois portugueses que, ao comerem um frango, tinham posto de parte o toucinho. Depois do jantar amarraram o doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado demais, o outro por ter escutado com ares de aplauso. Ambos foram conduzidos em separado para compartimentos de extrema friagem, nos quais o sol nunca incomodava ninguém. Oito dias passados ambos foram foram revestidos de sambenitos e adornaram-lhes as cabeças com mitras em papel. A mitra e o sambenito de Cândido traziam uma pintura de chamas erguidas, e no meio de vários diabos sem cauda nem garras. Sairam em procissão assim vestidos, ouvindo ao mesmo tempo um sermão intensamente patético, e acompanhados de uma bela música em falsête baixo. Cândido foi açoitado ao ritmo da música e do cântico; o biscaínho e os dois homens que não comiam toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, contrariamente ao que se esperava. Mas no mesmo dia a terra voltou a tremer com um fragor espantoso.»
" Cândido ", de Voltaire, Trd. de Maria Archer

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Canção do dia(4) : " Arrependimento " - Sam the Kid(2002)

« Se pudesse viver novamente, na próxima vida tentaria cometer mais erros. »


Jorge Luís Borges

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Canção do dia(3) : " Love of an Orchestra " - Noah and the Whale(2009)



No seu aniversário


« Senão, era ver Rosamaria, com o seu ar de bruxa em sabat, com aquele riso carnívoro que só de ouvi-lo era como um galope de garanhões e um voo de pretas aves em eucaliptos; como se trocassem moradas, rotas, mapas dos desejos. Era só ver a sua própria mulher, Beth, tão gasta como um pano de cozinha, dessa beleza que se convencionou ser austera, mas que é afinal sinal de maus ovários, mau fígado, más veias. O sangue corria aos tropeções nos seus capilares e eles rebentavam, e ficava a dor lancinante que ela dizia ser como uma agulha que passasse nas suas veias. Mas não dispensava ser amada, doente como era, sempre prestes a receber a dor como um filho, a enfaixá-la, a carregá-la no aconchego da carne; até tinha lubricidades, carinhos, apetites; era preciso, senão contentá-la, ao menos respeitar esses grotescos parênteses de amor que ela não merecia. O amor era para jovens belos e rapídissimos, que correm como o vento, saltam até às estrelas; e não aquele rugido triste de homem e mulher, aquela perseguição cheia de artes falsas, de ameaças, de ódio até, e que as crianças suspeitam como a chaga que respiram e que fede no quarto do casal. Os homens sabem que o amor é uma coisa divina, feita para gente divina; e, por isso, matam, porque não são divinos nem suportam interpretar o amor como uma farsa vulgar. Por isso morrem, e dão à morte nomes heróicos, como Sócrates deu, cruelmente marcado na sua prisão, que ele pediu para o corpo velho e sem esplendor, de verme com consequências divinas, mas não divino.»
Fotografia de Agustina Bessa Luís, por Jorge Afonso
Excerto de " Os meninos de ouro "(1983), Ed. Guimarães Editores, 7ª Edição(1987)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Canção do dia(2): " The Girl From Ipanema " - Astrud Gilberto(1964)*

* Música composta por Tom Jobim, incluída no álbum "Getz/Gilberto"(1964) de Stan Getz e João Gilberto.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Canção do dia(1) : " Samsara " - Rupert Hine(1981)





























Eugenio Murillo



« El dibujante Eugenio Murillo Fuentes (1958) lee a Jorge Luis Borges, y en los papeles blancos del artista empiezan a aparecer muros y umbrales. Borges fue el hombre que recogió la historia del emperador chino Shih Huang Ti, quien construyó una gran muralla para aislar su imperio del mundo y quien mandó quemar todos los libros para que la historia comenzara en el reinado de Shih Huang Ti.» ler aqui o artigo completo.»
Darío Chinchilla Ugalda, Ancora, La Nácion, Costa Rica

domingo, 11 de outubro de 2009

Leituras de domingo(1)

«...A "obamania" é um triste sinal de que o Ocidente perdeu qualquer espécie de faculdade crítica. A palavra e o gesto bastam para lhe esconder o que se passa no mundo. Como se uma grande potência pudesse de repente mudar com uma criatura simpática e uma pequena dose de persuasão e boa vontade.
Para começar alguns factos: Guantánamo não fechou; a prática de sequestrar putativos terroristas (eufemisticamente denominada "extraordinary rendition") em países "terceiros" não acabou; e não acabou também a prática de prender suspeitos de terrorismo, dentro e fora da América, e de os tratar como "no campo de batalha". Pior ainda, Obama não quis condenar, nem investigar os crimes de Bush, nomeadamente a tortura; só prometeu, nos casos mais benignos, tribunais militares (regidos, como é evidente, por lei especial) e sobretudo não limitou ou diminuiu a secrecidade e o arbítrio do Estado segurança. Isto quanto aos celebrados direitos do homem e à convivência amigável entre a América e o islão, em que ele proclama acreditar.»

Vasco Pulido Valente, Público de 11/10/2009


« A confissão feita sob tortura não era válida se não fosse ratificada sem tortura, e noutro lugar, donde não se pudesse ver o horrível instrumento, e não no mesmo dia. Eram descobertas da ciência, para tornar, se tal fosse possível, espontânea uma confiança forçada, e satisfazer ao mesmo tempo o bom senso, o qual dizia dizia claramente que a palavra extorquida pela dor não pode merecer fé, e a lei romana que consagrava a tortura. Aliás a razão dessas precauções, iam buscá-la os intérpretes à própria lei, ou seja a estas estranhas palavras: «A tortura é coisa frágil e perigosa e sujeita a enganar; visto que muitos, por força de ânimo ou de corpo, sofrem tão pouco com os tormentos que não se pode, com tal meio, obter deles a verdade; outros são tão intolerantes à dor que dizem qualquer falsidade, em vez de suportarem os tormentos.» Digo: estranhas palavras, numa lei que mantinha a tortura; e para se compreender por que motivo não se extraía outra consequência senão que «nos tormentos não se deve acreditar sempre», temos de recordar que aquela lei havia sido feita na sua origem para os escravos, os quais, na abjecção e na perversidade do gentilismo, puderam ser considerados como coisas e não como pessoas, e sobre os quais se julgava por isso ser lícita qualquer experiência, a ponto de serem torturados para se descobrir os crimes de outros. Novos interesses de novos legisladores fizeram-na depois aplicar-se também às pessoas livres; e a força da autoridade fê-la durar muitos mais séculos que o gentilismo: exemplo nada raro, mas notável, de como uma lei, depois de estabelecida, pode prolongar-se e expandir-se para além do seu princípio, e sobreviver-lhe.»


Excerto de " História da Coluna Infame ", de Alessandro Manzoni, Trd. José Colaço Barreiros, Ed. Assírio & Alvim, 1991

Mar D´Outubro





quinta-feira, 8 de outubro de 2009

The River

soothing sounds for baby






Sleepy Time

A caça

« Penso no meu filho que está longe, a milhares de quilómetros, num país onde ainda se dorme na cama, e a sua imagem parece-me irreal, esfuma-se e perde-se entre as folhas da árvore, e em troca faz-me tão bem recordar um tema de Mozart que me acompanhou desde sempre, o movimento inicial do quarteto A caça, a evocação do halali na mansa voz dos violinos, essa transposição de uma cerimónia selvagem para um claro gozo imaginário. Penso-o, repito-o, trauteio na memória e sinto ao mesmo tempo como a melodia e o desenho da copa da árvore contra o céu se vão aproximando, travam amizade, se tacteiam e outra vez até que de súbito o desenho se ordena na presença visível da melodia, um ritmo que sai de um ramo baixo, quase à altura minha cabeça, eleva-se e abre-se como um leque de hastes, enquanto o segundo violino é esse ramo mais delgado que se justapõe para confundir as suas folhas num ponto à direita, até ao final da frase, e deixá-la terminar para que o olho desça pelo tronco e possa, se quiser, repetir a melodia. E tudo isso é também a nossa rebelião, é o que estamos fazendo ainda que Mozart e a árvore não possam sabê-lo, também nós à nossa maneira quisemos transpor uma torpe guerra para uma ordem que lhe dê sentido, a justifique e em última análise a leve a uma vitória que seja como a restituição de uma melodia depois de tantos anos de roucas trompas de caça, que seja esse allegro final que sucede ao adágio como um encontro com a luz. O que se divertiria Luís se soubesse que neste momento o estou comparando com Mozart, vendo-o ordenar pouco a pouco esta insensatez, elevá-la até à sua razão primordial que aniquila com a sua evidência e a sua grandiosidade todas as prudentes razões temporais. Mas que amarga, que desesperada tarefa a de ser músico de homens, por cima da lama e da metralha e do desalento, urdir esse canto que julgámos impossível, o canto que travará amizade com a copa das árvores, com a terra devolvida aos seus filhos. É da febre. E como riria Luís ainda que também a ele lhe agrade Mozart.
E assim finalmente hei-de dormir, mas antes darei comigo a perguntar-me se algum dia saberemos passar do movimento onde ainda soa halali do caçador, a conquistada plenitude do adágio e daí ao allegro final que trauteio em voz baixa, se seremos capazes de conseguir a reconciliação com tudo o que tenha ficado vivo frente a nós. Teríamos que ser como Luís; não apenas consegui-lo, mas ser como ele, deixar para trás o ódio e a vingança, olhar o inimigo como o olha Luís, com uma implacável magnamidade que tantas vezes suscitou na minha memória ( mas isto, como dizê-lo a alguém? ) uma imagem do pantocrator, um juiz que começa por ser acusado e a testemunha e cujo julgamento não se limita a separar as terras das águas para que por fim nasça uma pátria de homens num amanhecer enevoada nas margens de um tempo límpido. »


Excerto de " Reunião ", de Julio Cortázar, Trd. Carlos Barata


" La chasse " ( Allegro) de Mozart
« A verdade é que não me importa entender as mulheres, a única coisa que interessa é que gostem de nós.»



In " A menina Cora ", de Julio Cortázar, Trd. Carlos Barata

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

« Às vezes tenho a sensação de que nada do que acontece acontece, porque nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências se vai anulando e negando a si mesma na sua aparente repetição até que nada é nada nem ninguém é ninguém que tivesse sido antes, e a débil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e vêem e sabem o que não se diz nem tem lugar nem é cognoscível nem comprovável. O que se dá é idêntico ao que não se dá, o que rejeitamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e, no entanto, a vida vai-se-nos e vai-se-nos a vida em escolher e rejeitar e seleccionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça da nossa história uma história única que recordemos e possa contar-se. Revolvemos toda a nossa inteligência e os nossos sentidos e o nosso afã na tarefa de discernir o que será igualizado, ou já o está, e por isso estamos cheios de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações e ocasiões aproveitadas, quando a verdade é que nada se afirma e tudo se vai perdendo. Ou talvez nunca tenha havido nada. »

Excerto de " Coração tão branco ", de Javier Marías, Trd. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Ed. Relógio d` Água, 1994


A alma do deserto

" Noivos ao Vento "



Serralves, Festa do Outono, 27/09/2009
" Noivos ao Vento ", peça de teatro concebida e interpretada por Isabel Costa e Filipe Caco( Corda Bamba)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Esperança

















Fotografia sobre fotografia de Helena Almeida, exposta no Museu de Serralves







Estado de merda

" Lata de merda " de Piero Manzoni


Este é o meu estado actual. Invadido por tormentosas diarreias com origem no sistema nervoso central. Impotente perante os acontecimentos ou não-acontecimentos sucessivos. Neste estado de quase letargia, naturalmente, a merda percorre o meu corpo, misturando-se com a impura água, onde navega livremente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

The xx -" Basic Space "

The xx - "Crystalised"

«Se fosse um rapaz modesto e aplicado, em lugar de me deixar cair tão depressa teria começado por deplorar a imperfeição do meu olhar. Mas a dor de ter sido tão cruelmente frustrado na minha espera de algo que tanto ambicionava esvaziou o meu coração de todas as suas outras preocupações.»

Excerto de " O Templo Dourado ", de Yukio Mishima, Trd. Filipe Jarro, Ed. Assírio e Alvim, 1985

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Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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