Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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domingo, 18 de outubro de 2009

Auto-de-fé


« Após o tremor de terra que destruira três quartos de Lisboa os sábios do país cogitaram em que o meio mais eficaz para prevenir a ruína total da cidade consistia em dar ao povo um rico auto-de-fé. Fôra decidido pela Universidade de Coimbra que o espetáculo de várias pessoas queimadas a fogo lento, com grande cerimonial, era um feitiço infalível para impedira terra de tremer.
Por consequência agarraram num biscaínho, criminoso de casamento com a comadre, e em dois portugueses que, ao comerem um frango, tinham posto de parte o toucinho. Depois do jantar amarraram o doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado demais, o outro por ter escutado com ares de aplauso. Ambos foram conduzidos em separado para compartimentos de extrema friagem, nos quais o sol nunca incomodava ninguém. Oito dias passados ambos foram foram revestidos de sambenitos e adornaram-lhes as cabeças com mitras em papel. A mitra e o sambenito de Cândido traziam uma pintura de chamas erguidas, e no meio de vários diabos sem cauda nem garras. Sairam em procissão assim vestidos, ouvindo ao mesmo tempo um sermão intensamente patético, e acompanhados de uma bela música em falsête baixo. Cândido foi açoitado ao ritmo da música e do cântico; o biscaínho e os dois homens que não comiam toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, contrariamente ao que se esperava. Mas no mesmo dia a terra voltou a tremer com um fragor espantoso.»
" Cândido ", de Voltaire, Trd. de Maria Archer

quinta-feira, 26 de julho de 2007


" O deserto dos tártaros ", Trd. Margarida Periquito, Ed. Cavalo de Ferro.


Trailer do filme baseado no livro, ver ficha técnica do DVD.

Ler critica de António Magliulo, na revista Prometheus.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

" Agosto " - Rubem Braga

"Grupos compactos de pessoas começaram a sair do Colégio São José. Nem Climério nem Alcino, que cuidadosamente perscrutavam o rosto de todos, conseguiram divisar o jornalista Lacerda. Afinal as portas do colégio foram fechadas.
“Puta merda! O homem já tinha ido embora. Está vendo o que você fez?”
“Só recebi o recado às nove horas.”
“Vamos para a rua Tonelero, em Copacabana. É lá que o Corvo mora. Vamos ver se dessa vez damos sorte e pegamos o filho da puta”, disse Climério. Ele não podia voltar para Gregório e confessar mais um erro; tinha medo da reação do seu chefe.
“O edifício do home é aquele”, disse Climério, já na rua Tonelero.
Alcino saltou. Climério mandou Nelson estacionar logo adiante, na rua Paula Freitas, perto da esquina de Tonelero. “Espera aqui. Olho vivo.” Saltou e foi ao encontro de Alcino.
“O puto é capaz de já ter chegado”, disse Climério, “mas de qualquer maneira vamos esperar um pouco.”
Climério e Alcino ficaram conversando uns quinze minutos. Iam desistir de esperar quando um carro parou na porta do edifício do jornalista, quarenta minutos depois da meia-noite. De dentro saltaram três pessoas. Lacerda, seu filho Sérgio, de quinze anos, e o major Vaz, da Aeronáutica.
“É ele, você está vendo?”, disse Climério.
“O de óculos?”
“Claro que é o de óculos, porra! O outro é o milico capanga dele.”
Lacerda se despediu do major e caminhou com o filho para a porta da garagem do edifício. Vaz foi em direção ao carro. Alcino atravessou a rua e atirou em Lacerda, que correu para o interior da garagem. O estrondo do revólver ao disparar surpreendeu Alcino, que por instantes ficou sem saber o que fazer. Notou então que o major se aproximara e agarrava sua arma. Novamente Alcino acionou o gatilho. O major continuou agarrando o cano do revólver até que Alcino, num repelão, soltou a arma dos dedos que a prendiam, caindo com o esforço que fizera. Viu que o major caía também, para o outro lado. Alcino levantou-se e atirou novamente, sem direção. Ouviu estampidos de arma de fogo e fugiu para onde estava o táxi de Nelson. Um guarda surgiu, correndo e atirando, “Pare! É a polícia!”. Alcino atirou no guarda, que caiu. Entrou no carro, que estava com o motor ligado.
“E o Climério? Onde está o Climério?”, perguntou Nelson.
“Pensei que ele estivesse aqui. Vamos embora!”
Nelson arrancou com o carro. Ouviram ainda um disparo e o ruído de lataria do carro sendo rompida. Era o guarda, que atirara, mesmo caído e ferido.
Dentro do táxi de Nelson, que corria em alta velocidade pela avenida Copacabana, Alcino embrulhou o revólver e os seis cartuchos numa flanela amarela. Chegando ao Flamengo, Alcino disse a Nelson para seguir pela avenida Beira Mar, pois tinha instruções de Climério para se livrar da arma jogando-a ao mar. Sua intenção era fazer isso sem sair do carro.
Na altura da rua México, Alcino colocou o braço para fora, segurando o embrulho com o revólver, preparando-se para arremessá-lo ao mar, por sob a amurada do passeio da avenida. Ele não queria ficar mais tempo com aquela arma em seu poder. Inesperadamente, Nelson fez uma manobra para se livrar de um carro que vinha na contramão, assustando Alcino que largou o embrulho de flanela com o revólver.
“Deixei cair o revólver”, gritou Alcino.
Nelson parou o carro. “Vai lá apanhar.”
Alcino colocou a cabeça para fora da janela e olhou para o asfalto escuro da avenida. As luzes de um carro brilharam ao longe.
“Quem achar essa merda não vai entregar para a polícia. Um 45 vale muito dinheiro.” "

Excerto de " Agosto ", de Rubem Braga

domingo, 1 de julho de 2007

" O Deserto dos Tártaros " - Dino Buzatti



OS DESTINOS APRISIONADOS NA DISTANTE SOLIDÃO DA ESTEPE

Uma obra-prima do século XX coloca algumas questões existenciais.Há livros que parecem presos no destino das suas personagens alguns atingem a glória devido à fama de uma figura marcante que atravessa o texto; outros vivem numa espécie de recolhimento, tal como fazem os respectivos protagonistas. O Deserto dos Tártaros faz parte do segundo grupo, pois imitou o herói na modéstia, condenado a um injusto esquecimento.No futuro, este será talvez visto como um dos grandes romances do século XX. E, no entanto, livro de culto em muitas línguas, é difícil de encontrar, apesar de adorado por minorias militantes. Em português, estas belas páginas chegam pela mão da Cavalo de Ferro, numa tradução de Margarida Periquito.O Deserto dos Tártaros é uma etérea (e também cruel) metáfora sobre um mundo imóvel que se recusa a ver a realidade. Uma visão pessimista da existência humana, na busca do sentido para o tempo que corre, do ser perante os grandes espaços da dúvida e do vazio, da solidão e do mistério da morte. No fundo, este romance mágico fala da planície que todos nós contemplamos para a frente das nossas vidas, uma paisagem ameaçadora e imóvel, habitada pelo desconhecido.Não é surpreendente que o livro seja tão sombrio, pois foi escrito em 1939 por um jornalista, Dino Buzzati, que certamente percebia bem as ameaças que se aproximavam. Buzzati (1906-1972) é uma figura fascinante escreveu e pintou, escreveu crónicas até ao fim da vida, no Corriere della Sera, e tem uma importante obra literária, com destaque para a arte do conto. Neste caso, o autor terá retirado a inspiração das suas reportagens na Etiópia, onde a Itália de Mussolini tentava criar um império que pudesse equiparar-se à grandeza de Roma.Mas a perspectiva de Buzzati nunca é política, o que explica a universalidade do texto. A fortaleza de Bastiani fica nas fronteiras de uma monarquia imaginária, povoada por um exército não identificado. Podemos talvez visualizar uma sociedade europeia do primeiro terço do século. O filme homónimo de Valerio Zurlini recria uma espécie de exército austro-húngaro, mas seria viável colocar a acção num contexto, por exemplo, de ficção-científica. Ou no cenário de um jornal, na condição de haver pequenas vaidades e tarefas que se consomem no próprio dia.

Luís Naves, Diário de Notícias

O Deserto dos Tártaros
Dino Buzzati

sábado, 12 de maio de 2007

" O Salteador " - Robert Walser

" The dance of life "(1899/1900) - Munch

" É difícil manter uma atitude isenta de paixão, quando se faz uma crítica, quero dizer com isto que aquele que faz a crítica não deve sentir o espírito exaltado. Ter de se submeter a uma crítica tem algo em si que provoca uma grande satisfação, porque o criticado pode, muito facilmente, sentir-se lisonjeado, na medida em que se convence de que está a ser objecto da atenção de alguém, e isso é uma realidade. Para compreender isto, todavia, há que estar já um pouco familiarizado com regiões mais vastas do pensamento e que ter a capacidade de entender as conexões. Se começamos a falar seriamente, logo oito em cada dez pessoas se convencem de que nos estamos a despenhar encosta abaixo, por assim dizer, como se fosse um dado adquirido que só as pessoas alegres ocupariam o lugar de topo da inteligência, o que de modo nenhum é exacto. A alegria tem, na realidade, um grande merecimento, mas a alegria e a seriedade devem alternar uma com a outra de modo a que a seriedade conduza à alegria e a alegria conduza à seriedade, a delimite ou conduza perto dela. "
Excerto de " O salteador ", de Robert Walser, Trd. Leopoldina Almeida, Ed. Relógio d´Água

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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