
Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Casai com as mouras*
«Pensei duas vezes antes de escrever sobre o cardeal Policarpo; pensei muito seriamente, consciente de que me vou meter num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde acabarão. Mas aqui estou, ao altar da asneira.Gosto muito do Dom Policarpo, que fuma e faz Bem e diz o que lhe vai na santa cabeça. Disse o que qualquer pai diria. Pedir que se sente duas vezes não é proibir.
Acho mesmo que não foi consensual no que toca às religiões monoteístas. Nenhum imã ou rabino o contradiria nisso de pensar duas vezes. Ou seja: "Vê lá se o amas o suficiente para conseguires aturar as pancadas religiosas da família dele."
O que me intrigou foi o Dom Policarpo ter-se dirigido só às raparigas. Então e nós, os moços? Quer ele dizer que, devido ao(digamos assim) carácter pró-masculino do Islão, que as noivas muçulmanas são outra história?
Serão dóceis e submissas como as nossas se recusam a ser?
Será que, apesar de estas Fátimas não nos esperarem à porta de casa com um Dry Martini na mão(como se calhar também não espera a Campos Ferreira), as outras inconfessáveis qualidades das moças muçulmanas(não nos porem os cornos; não explorem o pernil em público; poder divorciá-las num minuto) fazem com que valha a pena aprender a amar o chá açucarado de menta acima do gin?
Parece que sim. A misoginia, por muito bem ou mal disfarçada, não é bem um exclusivo do Islão.»
*Miguel Esteves Cardoso, Público, 16/01/2009
Ver aqui mais fotografias.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Los penetrados

Disparates, disparates...
« Portugal coberto de suculentos nacos de carne com a forma das ex-colónias, a Bulgária transformada numa retrete turca, daquelas com um buraco no chão que obrigam a uma incómoda postura de cócoras, a Alemanha reduzida a um emaranhado de auto-estradas a lembrar uma cruz suástica: estes são alguns dos estereótipos que, desde segunda-feira, provocam alternadamente gargalhadas, perplexidade ou indignação em Bruxelas.Este tipo de reacção era o que a presidência checa da União Europeia (UE) pretendia obter com a obra de arte que escolheu para imprimir a marca do “seu” semestre num dos principais edifícios europeus, cumprindo uma velha tradição.A concepção da obra foi entregue ao controverso artista plástico checo David Cerny, que ficou encarregue de convidar 27 autores dos Vinte e Sete a expressar a sua visão dos estereótipos nacionais.
O resultado, baptizado Entropa, está pendurado na entrada do edifício do conselho de ministros da UE, acompanhado de um catálogo que explica em detalhe o currículo e a motivação de cada um.» Público Online, 15/01/2009
D. José Policarpo: «Pensem duas vezes em casar com um muçulmano»(ver video aqui),Público Online,15/01/2009
«Falando na tertúlia "125 minutos com Fátima Campos Ferreira", que decorreu no Casino da Figueira da Foz, D. José Policarpo deixou um conselho às jovens portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: "Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam".
Questionado por Fátima Campos Ferreira se não estava a ser intolerante perante a questão do casamento das jovens com muçulmanos, D. José Policarpo disse que não. "Se eu sei que uma jovem europeia de formação cristã, a primeira vez que vai para o país deles é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas, imagine-se lá", ripostou D. José Policarpo à jornalista e anfitriã da tertúlia, manifestando conhecer "casos dramáticos" que, no entanto, não especificou.» Público Online,15/01/2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Da euforia à depressão
«La enorme plaza que da entrada a la estación de tren de Guangzhou, capital de la provincia sureña de Guangdong, es un hormiguero a las siete de la tarde. Cientos de emigrantes descansan en el suelo, junto a los fardos en los que se aprietan sus pertenencias. Rostros hastiados, miradas perdidas. Los restos de comida, bolsas de plástico y hojas de periódicos hablan de largas horas de espera. Bajo el eslogan "Continúa el proceso de apertura y reforma", una pantalla gigante rompe la noche con imágenes de playas paradisíacas y aguas turquesas. Una visión muy distinta de la realidad de estos antiguos campesinos, que se han visto obligados a regresar a sus pueblos ante la falta de actividad o el cierre de las fábricas en las que trabajaban en el delta del río Perla -el principal centro manufacturero del país- a causa de la crisis.» El País Online,14/01/2009Eudora Welty
Fotografia tirada durante a Grande DepressãoNo centenário de Eudora Welty, ler e ver aqui.(El País Online).
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
...todas as noites Deus limpa...

A grande vantagem que temos, a nossa melhor oportunidade de evitar o destino das sociedades passadas, é que sabemos sobre elas. Podemos ver como e porquê foram pelo caminho errado. O Homo sapiens tem as informações para se conhecer como é: um caçador da Idade do Gelo apenas semi-desenvolvido intelectualmente; esperto, mas raramente inteligente.
Estamos agora num estágio em que os habitantes da Ilha da Páscoa ainda podiam ter parado o corte e os entalhes sem sentido, podiam ter juntado as sementes das árvores para as plantar longo do alcance dos ratos. Temos as ferramentas e os meios para partilhar recursos, limpar a poluição, oferecer cuidados básicos de saúde e de controle de natalidade, determinar limites económicos compatíveis com os limites naturais. Se não fizermos essas coisas agora, enquanto prosperamos, nunca seremos capazes de fazê-las quando os tempos se tornarem difíceis. O nosso destino fugir-nos-á das mãos. E antes que este nosso século cresça de mais entraremos numa era de caos e colapso que fará parecer insignificantes as idades das trevas do nosso passado.
Agora é a nossa última oportunidade de fazer o futuro como deve ser."
Excerto de "Breve História do Progresso"(2004), de Ronald Wright, Trd. José Couto Nogueira, Ed. Dom Quixote
Voltas no tempo com Madredeus
« Ah, Madredeus, aquel grupo portugués inconfundible, que marcó época en el difuso género de las músicas del mundo: el vestuario de negro riguroso, la actitud contrita, las dos guitarras acústicas entrelazadas, la apelación a la saudade, la voz emblemática de Teresa Salgueiro. La banda que se presentó recientemente en el teatro Ibérico de Lisboa responde al nombre de Madredeus, pero ninguna de aquellas señas de identidad permanece vigente.Han pasado de cinco a diez; la batería, el bajo y la guitarra eléctrica irrumpen en la alineación, la percusión africana corre a cargo de un señor con levita roja chillona, casi todos tocan de pie, no hay rastro de Teresinha y su puesto lo ocupan dos jovencitas mucho más desinhibidas, una de ellas tan teatral que parece la cantante de los heavies blandos Evanescence. Sólo la figura de Pedro Ayres Magalhães -fundador, guitarrista clásico, compositor, productor y mandamás supremo en toda esta historia- permanece. "Podíamos haber seguido como antes hasta la ancianidad, hasta la artritis, pero la vida no funciona así", proclama.» Fernando Neira, El Mundo Online, 13/01/09
Madredeus(com Teresa Salgueiro)-"Coisas Pequenas"
Apresentação da nova formação dos Madredeus(RTP/Outubro 2008)
Madredeus - "A Vaca de Fogo "(1987)
A Thousand kisses deep

Don't matter if the road is long
Don't matter if it's steep
Don't matter if the moon is gone
And the darkness is complete
Don't matter if we lose our way
It's written that we'll meet
At least, that's what I heard you say
A thousand kisses deep
I loved you when you opened
Like a lily to the heat
You see, I'm just another snowman
Standing in the rain and sleet
Who loved you with his frozen love
His second hand physique
With all he is and all he was
A thousand kisses deep
I know you had to lie to me
I know you had to cheat
You learned it on your father's knee
And at your mother's feet
But did you have to fight your way
Across the burning street
When all our vital interests lay
A thousand kisses deep
I'm turning tricks
I'm getting fixed
I'm back on boogie street
I'd like to quit the business
But I'm in it, so to speak
The thought of you is peaceful
And the file on you complete
Except what I forgot to do
A thousand kisses deep
Don't matter if you're rich and strong
Don't matter if you're weak
Don't matter if you write a song
The nightingales repeat
Don't matter if it's nine to five
Or timeless and unique
You ditch your life to stay alive
A thousand kisses deep
The ponies run
The girls are young
The odds are there to beat
You win a while, and then it's done
Your little winning streak
And summon now to deal with your invincible defeat
You live your life as if it's real
A thousand kisses deep
I hear their voices in the wine
That sometimes did me seek
The band is playing Auld Lang Syne
But the heart will not retreat
There's no forsaking what you love
No existential leap
As witnessed here in time and blood
A thousand kisses deep
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
B-Fachada:renovar as tradições
B-fachada o cantautor lisboeta actua no Castelo de Algoso (Vimioso, Trás-os-Montes)no âmbito da segunda edição do festival Anamnesis(Agosto de 2008), organizado pela Associartecine.Youtube
«B Fachada, músico que conhecemos em 2008 através dos EPs "Sings The Lusitanian Blues", "Mini CD Produzido Por Walter Benjamin" e o magnífico "Viola Braguesa", serve como ponte entre esses dois universos. Dirá ao Ípsilon ser "como um sapateiro": "quero fazer canções como o sapateiro faz sapatos e sei que vou passar a vida a fazer uma data de sapatos para caber nos pés das pessoas, apesar de estar sempre a fazer a minha ideia de sapato". Tiago Pereira, por sua vez, foi o realizador que construiu a ponte para Fachada, reflexo de um interesse pela exploração e reflexão sobre a tradição musical popular que contamina o seu trabalho - servem como exemplo "Onze Burros Caem de Estômago Vazio", filmado no planalto mirandês, ou "Arritmia", sobre o Festival Andanças.»B Fachada canta a tradição entre Lisboa e Caçarelhos, por Mário Lopes,Ípsilon,09/01/2009.
sábado, 10 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
A propósito da(s) gripe(s)
Fotografia de Eliot Elisofon(1945)«La economía de Estados Unidos perdió 2,6 millones de empleos durante 2008, la peor cifra desde el fin de la II Guerra Mundial en 1945, según ha informado hoy el Departamento de Trabajo.» El País Online, 09/01/09
António Variações - "Toma o Comprimido"
Por mais alguns dólares
Filme de Sérgio Leone, música de Ennio Morricone, interpretado por Clint Eastwood e Lee Van Cleef
Sugestão diabólica
"Sugestão diabólica ", de Prokofiev, interpretada por Andrei Gravilov.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Crise na indústria pornográfica?!
Fotografia de Duane Michals«Otra gigantesca industria norteamericana asoma la cabeza por la puerta que han dejado abierta las recientes ayudas públicas a sectores como el bancario, el inmobiliario o el automovilístico. Larry Flynt, el editor de Hustler, y Joe Francis, responsable de Girls Gone Wild, han pedido al Congreso estadounidense 5.000 millones de dólares (unos 3.700 millones de euros) para que saque a su industria de la crisis por la que atraviesa...», El País Online, 08/01/2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
John Kennedy Toole

Es Ignatius Reilly un hallazgo póstumo, su destello humorístico tiene tristezas asociadas, como pájaros agoreros, ese poso de injusticia que tienen las obras premiadas únicamente con el valor incierto de la posteridad.», Álvaro Cortina, El Mundo Online, 07/01/09
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Os projécteis pesados
A vida é uma só - obter dinheiro ou reputação e filhos para justificar perante os outros o facto de não te atirares de um prédio abaixo - e a morte faz parte dos vivos, é a 2ª parte como nos filmes. Não penses que os mortos são anjos.
Nem as crianças o são. E por que fazem estas coisas? Fechou duas crianças numa casa e durante três semanas só lhes deu água. Vimos imagens. As crianças quase não tinham nádegas. Já viste crianças assim?
A minha mulher repetia: Por que fazem isto?
Eu lia um livro e não queria ver, mudei de canal.
Leio: «Cerca de 500 a.C os Gregos e os Cartagineses utilizavam máquinas para o lançamento de projécteis pesados».
Na verdade, utilizar-se máquinas para o lançamento de projécteis pesados é bom, como o coração, que é pesado, demasiado pesado, e, em alguns momentos, como era bom atirá-lo para longe. Bem satisfeitos ficaríamos, sem coração, com um buraco no sítio do peso, como em algumas esculturas de santos e de Cristo, com uma gaveta no lugar do coração. Gaveta na qual os velhos guardam jóias de família. Usura e caridade no mesmo espaço para poupar metro quadrado, assim é que é.
A catapulta tem um braço de lançamento que termina numa concha exactamente como uma colher. E é na colher que ponho o coração. Como diz no livro:
«A força propulsora da catapulta resultava da elasticidade das cordas torcidas à volta do extremo do braço de lançamento.»
O projéctil é enviado para longe, como se pretende, quando o braço de lançamento embate numa trave que o pára, obrigando-o, assim, a expulsar o que antes segurava. Se não existir algo que trave o braço, o braço anda à volta, em círculos e círculos, e tudo se repete, e nada se expulsa.
Para mandar para longe alguma coisa é necessário primeiro segurar com força nessa coisa, depois efectuar um movimento rápido com o braço, e por último travar subitamente e projectar o pulso para a frente. É assim que as prostitutas expulsam o coração quando com a boca pintada de bâton chupam o pénis do velho que não conhecem, e a cama tem molas que emitem ruídos (guinchos)ao mesmo tempo que a prostituta chupa o pénis do velho que está sentado e espera, e é assim que a catapulta funciona.
Nos rapazes e raparigas com desgostos amorosos e que são cumprimentados na rua também se usa a mesma técnica, já conhecida dos antigos: uma máquina de guerra. Atirar o coração para longe. A catapulta.
E nos que sobrevivem ao adultério também.
Conto de Gonçalo M.Tavares, incluído no livro "água, cão, cavalo, cabeça", Ed. Caminho
A defesa de Israel*!!!???
O problema não é só não haver um futuro, é não haver um presente. A cada dia que passa, o meu amigo de Gaza continua sem trabalho e sem poder levar a família para outro país. As filhas crescem todos os dias e esta vai ser a infância delas. Têm 40 quilómetros de comprimento por seis de largura para se mexerem, com más casas, más escolas, maus hospitais, má comida, má água. E vem a depressão, a doença, a violência.», Alexandra Lucas Coelho, Público Online, 05/01/2009
domingo, 4 de janeiro de 2009
Eartha Kitt
I Want To Be Evil
C'est Si Bon
Ao vivo no Kaskad(1962)
«Morreu "a mulher mais excitante do mundo", como disse Orson Wells, Eartha Kitt tinha 81 anos e morreu no dia de Natal, vítima de um cancro no cólon. Começou a carreira nos cabarets e passou pela Brodway, tendo celebrizado uma forma única de cantar - não cantava, ronronava, e por isso autodefenia-se como uma sexy kitten. Dera os últimos espectáculos dois meses antes de morrer e tinha a agenda preenchida para 2009.» Pública, 04/01/2009
Conto moral



«El cuento, que recupera las historias moralizantes de la tradición popular, es uno de los ejemplos de cómo Pushkin (1799-1837), pionero del romanticismo local, expresó en papel su deseo de renovar radicalmente la literatura de su país.
El anciano y desesperado rey Dadón se encomienda en la historia a un sabio astrólogo, que le regala un gallo de oro con el don de señalar el origen de todo aquello que pueda suponer una amenaza para su reino.
A cambio, el monarca se ha de comprometer a cumplir, llegado el momento, el deseo de su consejero como si fuera el suyo propio, aunque para ello tenga que renunciar al egoísmo y los caprichos.» Ignacio de los Reys, El Mundo Online,04/01/2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
No aniversário de J.D.Salinger
No momento em que lhes traziam o chá, a rapariga do coro apanhou-me a olhar para o grupo. Devolveu-me o olhar, com aqueles seus olhos escrutinadores. E depois, repentinamente, fez-me um pequeno sorriso, reservado. Era um sorriso estranhamente radioso, como certos pequenos sorrisos reservados o são por vezes. Devolvi o sorriso, muito menos radioso, mantendo o lábio superior a esconder uma obturação temporária de soldado raso, negra como o carvão, entre dois dos meus dentes da frente. Antes que desse por isso, a miúda estava em pé, com uma pose invejável, ao lado da minha mesa. Trazia um vestido escocês - o tartan dos Campbell, acho eu. A meu ver, um vestido magnífico para uma miúda tão nova usar num dia muito chuvoso. «Pensava que os Americanos desdenhavam o chá», disse ela."
Excerto do conto "Para Esmé - Com Amor e Sordidez", de J.D.Salinger, Trd. José Lima, ED. Difel, 2005
«Jerome David Salinger, el más íntimo de los escritores famosos contemporáneos, cumplió ayer 90 años. Es un autor escondido, pero genera una industria popular de fanáticos, críticos y comentadores, la Industria Salinger, de la que alguna vez habló George Steiner. Mítico desde la publicación de The Catcher in the Rye en 1951 (El guardián entre el centeno, 1978, traducción de Carmen Criado), ha demostrado la voluntad violenta de mantenerse a salvo del fervor público, hasta desaparecer en defensa de su vida privada. En tiempos de manía publicitaria, exhibicionista, J. D. Salinger ha eludido combativamente la intromisión espectacular de periódicos y televisiones. Ha pleiteado contra sus biógrafos. Ha sufrido las indiscreciones autobiográficas de mujeres que lo tuvieron cerca y han practicado con el escritor el género Kiss and tell, o "besa al famoso para después contarlo", incluso desde un punto de vista filial.»Justo Navarro, El País Online de 02/01/2009
Poema das árvores
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
O Cônsul estatelara-se de rosto para baixo e ao comprido na rua deserta.
«Hugh, és tu, meu velho, que me estás a estender a mão?Muito obrigado. Porque talvez seja agora, realmente, a tua vez de me dares uma ajuda. Não que eu tenha tido sempre o maior prazer em te auxiliar. Até daquela vez, em Paris, fiquei encantado quando tu vieste de Áden, para tratares do teu cartão de identidade e do teu passaporte, sem os quais preferes tantas vezes viajar e cujo número - ainda me lembro - era o 21312. Talvez me desse maior prazer porque então me distraía dos meus próprios assuntos, que andavam bastante embora alguns dos meus colegas duvidassem até nessa altura que assim sucedesse; julgavam-me tão divorciado da vida, que me tivesse tornado incapaz de cumprir semelhantes deveres por meio de despachos! Porque é que eu estou a dizer isto? É em parte para que tu compreendas que também eu reconheço quão perto estivemos - eu e a Yvonne - de soçobrar antes de nos encontrarmos. Claro que te perdoo, como, de qualquer maneira, nunca fui capaz de perdoar inteiramente a Yvonne, e que ainda consigo amar-te como irmão e respeitar-te como homem. De facto, desde que o Pai se embrenhou sozinho nos Alpes Brancos - embora se tratasse realmente dos Himalaias - para nunca mais regressar - e estes vulcões fazem-nos recordar mais vezes do que eu desejaria, tal como este vale me recorda o vale do Indo e essas velhas árvores de turbantes de folhas de Taxco me lembram Shrinagar e tal como Xochimilco - estás a ouvir, Hugh? - me evocou, quando aqui vim pela primeira vez, essas casas-barcos de Shalimar - tu já te não lembras disso - e a tua mãe e minha madrasta que morreu. Vêm-me à ideia todas essas coisas horríveis, que me aconteceram quase ao mesmo tempo, como se as leis da catástrofe tivessem chegado todas súbita mente de qualquer lado. A desgraça veio instalar-se em nossa casa com armas e bagagens. Desde então, poucas oportunidades tive de agir, por assim dizer, como irmão em relação a ti. Mas olha que talvez tenha actuado como pai, mas tu, nessa altura, eras ainda uma criancinha e ias enjoado no barco da P. and O - o velho e irregular Cocanada. A verdade é que depois disso, e uma vez de novo na Inglaterra, apareceram demasiados guardiões, demasiados substitutos em Harrogate, demasiados estabelecimentos e escolas, isto para não falar na guerra, no esforço que se realizou para a ganhar e que, conforme tu muito me dizes, ainda não terminou. E eu continuo com a garrafa e tu com as ideias que espero se verifiquem menos calamitosas para ti do que o foram as do nosso pai para ele próprio, ou as minhas para comigo. No entanto, tudo isto se pode admitir - ainda, neste ponto, Hugh, quererás tu estender-me a mão? Tenho de pôr em evidência e em termos definidos o seguinte: nunca sonhei, nem por um momento, que as coisas, tal como aconteceram, viessem realmente a verificar-se. Que eu tenha perdido o direito à confiança de Yvonne, não implica necessáriamente que ela perdesse o direito à minha. A verdade é que, a respeito de confiança, cada um de nós possui dela a sua concepção diferente. É que eu confiei em ti, é escusado dizer. Muito longe de mim o imaginar que tu tentarias justificar-te moralmente, estribando-te em que eu andava engolfado no deboche. Há também muitas outras razões, que só se poderão revelar no dia do Juízo Final, pelas quais tu não deverias ter-me julgado. Contudo, receio - estás a ouvir, Hugh? - que, muito antes desse dia, aquilo que tu fizeste impulsivamente e tentaste esquecer na cruel abstracção própria da mocidade, comece a impressionar-te sob uma nova e mais sombria luz. Tenho um medo aflitivo que tu possas, na verdade, precisamente, porque, no fundo, és uma criatura simples e boa e respeitas, mais genuinamente do que muitos outros, os princípios e o espírito de decência que o poderiam ter evitado, vir, por esse mesmo facto, a tornares-te presa, quando fores mais velho e a tua consciência menos forte, de um sofrimento mais abominável do que aquele que me tens causado. Como é que eu te poderei ajudar? Como é que o homem assassinado poderá convencer o assassino de que não o perseguirá? Ah, o passado corres mais depressa do nós julgamos, e Deus não tem grande paciência para aguardar que chegue a hora do remorso!»
Excerto de " Debaixo do Vulcão ", de Malcolm Lowry, Trd. Virgínia Motta, Ed. Livros do Brasil,Colecção Dois Mundos, p.p. 86 e 87
B-fachada -" Sto António (aos meninos) "
Ao vivo no Cinema Passos Manuel(14/06/2008)
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« Una importante selección de las mejores fotografías originales del norteamericano Walker Evans, el fotógrafo que puso cara a la Gran Depresión, se exhiben en la Fundación Mapfre,en Madrid.





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