Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta Debaixo do Vulcão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Debaixo do Vulcão. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

« Me meto a la primera cantina que veo para tomarme un mezcal a la salud del loco Lowry. Como todo en Bajo el volcán, en Cuernavaca, en México, la cantina tiene un lema hilarante: "Gentiles son los hombres dados a la ociosidad". La idea del mezcal en Cuernavaca es una transposición literaria de Lowry: lo tomó hasta el delirio en Oaxaca con su amiguete Juan Fernando Márquez, al que le dedica Oscuro como la tumba donde yace mi amigo. A lo mejor Márquez no existió y Lowry se la pasó en El Farolito de Oaxaca como yo aquí en Cuernavaca: bebiendo solo. El mesero me muestra la botella de mezcal. La etiqueta hubiera divertido a Lowry y, quizás, más a Jan: "Mezcalm Lowry. A punto de veneno". Y me siento a beber. Abro la libreta y pienso en Lowry y, con el paso de los tragos, en amores.»



Ler aqui artigo completo, escrito por Fabrizio Mejía Madrid e publicado no El País.

Desenho de Fernando Vicente e ilustração para uma edição mexicana de "Debaixo do vulcão" por Alberto Gironella

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

«Mas, de repente, a Calle Nicaragua ergueu-se ao encontro dele.
O Cônsul estatelara-se de rosto para baixo e ao comprido na rua deserta.
«Hugh, és tu, meu velho, que me estás a estender a mão?Muito obrigado. Porque talvez seja agora, realmente, a tua vez de me dares uma ajuda. Não que eu tenha tido sempre o maior prazer em te auxiliar. Até daquela vez, em Paris, fiquei encantado quando tu vieste de Áden, para tratares do teu cartão de identidade e do teu passaporte, sem os quais preferes tantas vezes viajar e cujo número - ainda me lembro - era o 21312. Talvez me desse maior prazer porque então me distraía dos meus próprios assuntos, que andavam bastante embora alguns dos meus colegas duvidassem até nessa altura que assim sucedesse; julgavam-me tão divorciado da vida, que me tivesse tornado incapaz de cumprir semelhantes deveres por meio de despachos! Porque é que eu estou a dizer isto? É em parte para que tu compreendas que também eu reconheço quão perto estivemos - eu e a Yvonne - de soçobrar antes de nos encontrarmos. Claro que te perdoo, como, de qualquer maneira, nunca fui capaz de perdoar inteiramente a Yvonne, e que ainda consigo amar-te como irmão e respeitar-te como homem. De facto, desde que o Pai se embrenhou sozinho nos Alpes Brancos - embora se tratasse realmente dos Himalaias - para nunca mais regressar - e estes vulcões fazem-nos recordar mais vezes do que eu desejaria, tal como este vale me recorda o vale do Indo e essas velhas árvores de turbantes de folhas de Taxco me lembram Shrinagar e tal como Xochimilco - estás a ouvir, Hugh? - me evocou, quando aqui vim pela primeira vez, essas casas-barcos de Shalimar - tu já te não lembras disso - e a tua mãe e minha madrasta que morreu. Vêm-me à ideia todas essas coisas horríveis, que me aconteceram quase ao mesmo tempo, como se as leis da catástrofe tivessem chegado todas súbita mente de qualquer lado. A desgraça veio instalar-se em nossa casa com armas e bagagens. Desde então, poucas oportunidades tive de agir, por assim dizer, como irmão em relação a ti. Mas olha que talvez tenha actuado como pai, mas tu, nessa altura, eras ainda uma criancinha e ias enjoado no barco da P. and O - o velho e irregular Cocanada. A verdade é que depois disso, e uma vez de novo na Inglaterra, apareceram demasiados guardiões, demasiados substitutos em Harrogate, demasiados estabelecimentos e escolas, isto para não falar na guerra, no esforço que se realizou para a ganhar e que, conforme tu muito me dizes, ainda não terminou. E eu continuo com a garrafa e tu com as ideias que espero se verifiquem menos calamitosas para ti do que o foram as do nosso pai para ele próprio, ou as minhas para comigo. No entanto, tudo isto se pode admitir - ainda, neste ponto, Hugh, quererás tu estender-me a mão? Tenho de pôr em evidência e em termos definidos o seguinte: nunca sonhei, nem por um momento, que as coisas, tal como aconteceram, viessem realmente a verificar-se. Que eu tenha perdido o direito à confiança de Yvonne, não implica necessáriamente que ela perdesse o direito à minha. A verdade é que, a respeito de confiança, cada um de nós possui dela a sua concepção diferente. É que eu confiei em ti, é escusado dizer. Muito longe de mim o imaginar que tu tentarias justificar-te moralmente, estribando-te em que eu andava engolfado no deboche. Há também muitas outras razões, que só se poderão revelar no dia do Juízo Final, pelas quais tu não deverias ter-me julgado. Contudo, receio - estás a ouvir, Hugh? - que, muito antes desse dia, aquilo que tu fizeste impulsivamente e tentaste esquecer na cruel abstracção própria da mocidade, comece a impressionar-te sob uma nova e mais sombria luz. Tenho um medo aflitivo que tu possas, na verdade, precisamente, porque, no fundo, és uma criatura simples e boa e respeitas, mais genuinamente do que muitos outros, os princípios e o espírito de decência que o poderiam ter evitado, vir, por esse mesmo facto, a tornares-te presa, quando fores mais velho e a tua consciência menos forte, de um sofrimento mais abominável do que aquele que me tens causado. Como é que eu te poderei ajudar? Como é que o homem assassinado poderá convencer o assassino de que não o perseguirá? Ah, o passado corres mais depressa do nós julgamos, e Deus não tem grande paciência para aguardar que chegue a hora do remorso!»


Excerto de " Debaixo do Vulcão ", de Malcolm Lowry, Trd. Virgínia Motta, Ed. Livros do Brasil,Colecção Dois Mundos, p.p. 86 e 87

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Beber em família


An excerpt from "Volcano: An Inquiry into the Life and Death of Malcolm Lowry," available on the Criterion Collection edition of "Under the Volcano." Richard Burton reads Lowry's writing.

" Mas a verdade é que toda a família bebia de forma excepcional. O velho Taskerson, homem bondoso e inteligente, que perdera o único filho, que parecia ter herdado um pouco do talento literário do pai, ia sentar-se, todas as noites, pensativo, no escritório, com a porta aberta, bebendo a todas as horas, com os gatos ao colo e o jornal da tarde, que ele manejava bruscamente, numa distante desaprovação pelos outros filhos que, por sua vez, se ficavam a beber copos a fio na sala de jantar. A srª Taskerson, que, na sua terra, se mostrava uma mulher diferente, talvez por nela sentir menos a necessidade de causar boa impressão, deixava-se ficar junto dos filhos, com o bonito rosto corado e com um ar meio repreensivo, meio jovial sem, no entanto, deixar também de esvaziar o seu copito às escondidas. É certo que os rapazes geralmente lhe levavam um grande avanço. Não que pertencessem ao número dos indivíduos que andam a cambalear pelas ruas. Todos estavam de acordo quanto ao seguinte ponto de honra: quanto mais bêbedos estivessem, mais se lhes impunha a necessidade de parecerem perfeitamente lúcidos."

Excerto de " Debaixo do Vulcão ", de Malcolm Lowry, Trd. Virgínia Motta, Ed. Livros do Brasil

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O livro das peças isabelinas

" Laruelle havia aberto o livro das peças isabelinas ao acaso e, por um momento, deixou-se ficar alheio ao que o cercava, a olhar para aquelas palavras, que pareciam possuir o poder de lhe precipitar a própria mente para dentro de um abismo, como se no seu espírito se cumprisse a ameaça que o Fausto de Marlowe lançara ao seu desespero. Mas o Fausto não dizia bem aquilo. Leu o passo com mais atenção. O que Fausto dizia era o seguinte:« Então me precipitarei para dentro da Terra» e «Oh, não, ele não...» Assim, já não era tão impressionante. Nas circunstâncias actuais, correr não era tão mau como voar. Gravada na capa de cabedal castanho do livro, uma figurinha doirada e sem rosto corria sempre, transportando um archote, e parecendo, com o seu pescoço alongado, a cabeça e o bico aberto uma íbis sagrada. Envergonhado consigo próprio, Laruelle soltou um suspiro. Que é que teria produzido aquela ilusão - a luz vacilante e enganadora da vela, de mistura com a luz já menos mortiça da electricidade, ou talvez mesmo - como Geoffrey gostava de dizer - alguma relação entre o mundo subnormal e o anormalmente duvidoso? Como o Cônsul se havia divertido também com aquela absurda brincadeira - as sortes shakespeareeanae... And what wonders I have done all Germany can witness. Enter Wagner, solus... Ick sal you wat suggen, Hans. Dis skip, dat comen from Candy, is al vol, by God´s sacremente, van sugar, almonds, cambrick end alle dingen, towsand ding. Laruelle fechou o livro na comédia de Dekker; depois, mesmo na presença do homem do bar que, de pano sujo no braço, o observava num mudo assombro, fechou os olhos e, abrindo de novo o livro, fez girar o dedo no ar e poisou-o decididamente num passo que voltou para a luz:


Eis cortado o ramo que poderia ter atingido pleno desenvolvimento,
Eis queimado o loureiro de Apolo
Que outrora floresceu dentro desse homem sabedor,
Fausto deixou de existir: vejam como cai nos infernos!

Excerto de " Debaixo do Vulcão ", de Malcolm Lowry, Trd. Virgínia Motta, Ed. Livros do Brasil

Arquivo do blogue

Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

FEEDJIT Live Traffic Feed