Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

...todas as noites Deus limpa...


"Há um ditado na Argentina segundo o qual todas as noites Deus limpa a porcaria que os argentinos fazem durante o dia. Parece que os nossos dirigentes estão a contar com uma coisa assim. Mas não vai funcionar. As coisas andam tão depressa que a própria inacção é um dos piores erros. A experiência de dez mil anos da vida instalada vai-se manter ou cair conforme o que façamos, e o que não fizermos, agora. A reforma de que precisamos não é anti-capitalista, anti-americana, ou mesmo profundamente ambientalista; é simplesmente a transição do pensamento a curto prazo para o pensamento a longo prazo. Da agitação e do excesso para a moderação e os princípios preventivos.


A grande vantagem que temos, a nossa melhor oportunidade de evitar o destino das sociedades passadas, é que sabemos sobre elas. Podemos ver como e porquê foram pelo caminho errado. O Homo sapiens tem as informações para se conhecer como é: um caçador da Idade do Gelo apenas semi-desenvolvido intelectualmente; esperto, mas raramente inteligente.


Estamos agora num estágio em que os habitantes da Ilha da Páscoa ainda podiam ter parado o corte e os entalhes sem sentido, podiam ter juntado as sementes das árvores para as plantar longo do alcance dos ratos. Temos as ferramentas e os meios para partilhar recursos, limpar a poluição, oferecer cuidados básicos de saúde e de controle de natalidade, determinar limites económicos compatíveis com os limites naturais. Se não fizermos essas coisas agora, enquanto prosperamos, nunca seremos capazes de fazê-las quando os tempos se tornarem difíceis. O nosso destino fugir-nos-á das mãos. E antes que este nosso século cresça de mais entraremos numa era de caos e colapso que fará parecer insignificantes as idades das trevas do nosso passado.


Agora é a nossa última oportunidade de fazer o futuro como deve ser."



Excerto de "Breve História do Progresso"(2004), de Ronald Wright, Trd. José Couto Nogueira, Ed. Dom Quixote

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

" Nós, nos afortunados países do Ocidente, agora consideramos a nossa bolha de liberdade e riqueza, velha de 200 anos, como sendo normal e inevitável; tem sido chamada de o «fim da História», tanto no sentido temporal como taleológico. Contudo, esta nova ordem é uma anomalia; o oposto do que geralmente acontece quando as civilizações crescem. A nossa era foi financiada pela tomada de metade de um planeta, ampliada com a tomada da maior parte da outra metade, e sustentada pelo desgaste de novas formas de capital natural, especialmente combustível fóssil. No Novo Mundo, o Ocidente ganhou o maior prémio de sempre. E não haverá outro igual - a não ser que encontremos os marcianos civilizados de H. G. Wells, completos com a vulnerabilidade aos nossos germes que os derrotou na " Guerra dos Mundos "."


Excerto de " Breve História do Progresso ", de Ronald Wright, Trd. José Couto Nogueira, Ed. D.Quixote

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

" À medida que a crise se acumulava, a resposta dos dirigentes não foi procurar um novo rumo, cortar nas despesas reais e militares, tentar ganhar novas terras por meio de socalcos, ou encorajar a limitação de nascimentos ( os maias podem ter tido meios de o fazer ). Não, firmaram os pés e continuaram a fazer o que sempre tinham feito, apenas com mais intensidade. A solução deles foi pirâmides mais altas, mais poder para os reis, trabalho mais pesado para as massas, mais guerras com o estrangeiro. Em termos modernos, a elite maia tornou-se extremista, ou ultra-conservadora, espremendo as últimas gotas de lucro na natureza e na humanidade."


Excerto de " Breve História do Progresso ", de Ronald Wright, Trd. José Couto Viana

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Arca de Noé

1) «Ao ritmo do seu consumo actual, a Humanidade precisará de dois planetas no início da década 2030 para responder às suas necessidades, assinala hoje o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) »

2) «Não: agora devemos ser resgatados, os cidadãos, favorecendo com rapidez e valentia a transição de uma economia de guerra para uma economia de desenvolvimento global, em que essa vergonha colectiva do investimento de três mil milhões de dólares por dia em armas, ao mesmo tempo que morrem de fome mais de 60 mil pessoas, seja superada. Uma economia de desenvolvimento que elimine a abusiva exploração dos recursos naturais que tem lugar na actualidade (petróleo, gás, minerais, carvão) e que faça com que se apliquem normas vigiadas por uma Nações Unidas refundadas – que envolvam o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial “para a reconstrução e desenvolvimento” e a Organização Mundial de Comércio, que não seja um clube privado de nações, mas sim uma instituição da ONU – que disponham dos meios pessoais, humanos e técnicos necessários para exercer a sua autoridade jurídica e ética de forma eficaz.»

3) « Não só Adão e Eva se fizeram expulsar do Éden, mas também a paisagem desgastada pela erosão que deixaram para trás preparou o palco para o Dilúvio de Noé. Nos tempos iniciais, quando os montículos da cidade eram baixos e facilmente transformáveis em pântanos, o único refúgio teria de ser um barco. A versão suméria da lenda, contada na primeira pessoa por um homem chamado Utnapishtim, soa como sendo real, com pormenores vívidos sobre o mau tempo invulgar e as barragens destruídas. Nesse relato podemos ver não apenas o antecedente da história bíblica, mas também o primeiro relato por uma testemunha ocular de uma catástrofe ambiental provocada pelo ser humano:

Nesses dias a terra era abundante, o povo multiplicava-se...Enlil ouviu o clamor e disse aos deuses reunidos em conselho que «o estrondo da humanidade é intolerável e já não se consegue dormir...» Portanto, os deuses concordaram em exterminar a humanidade.

Enlil, o deus das tempestades, é o instigador; outros, incluindo Ishtar, deusa do amor e rainha do céu (uma predecessora menos virginal de Maria) concordam. Mas Ea, o deus da sabedoria, avisa Utnapishtim num sonho: «Deita abaixo a tua casa, digo-te, e constrói um barco, abandona as tuas posses e procura a vida...Leva para o barco a semente de todas as criaturas vivas».

1) Sol Online,29/10/2008

2) José Saramago, no blogue O Caderno de Saramago

3) Excerto de " Breve história do progresso ", de Ronald Wright

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

" O patriotismo pode muito bem ser, como disse o Dr. Johnson, «o último refúgio dos patifes», mas é também o primeiro recurso do tirano. As pessoas que têm medo dos estrangeiros são facilmente manipuláveis. A casta dos guerreiros, supostamente protectora da sociedade, amiúde torna-se numa máfia da protecção. Em tempos de guerra ou de crise, facilmente uns poucos roubam o poder da maioria com a promessa da segurança. Quanto mais oculto ou imaginário o inimigo, tanto melhor para impingir a sua aceitação. A Inquisição conheceu uma grande expansão porque lutava contra o Diabo. E a luta do século XX entre capitalismo e comunismo tinha todas as marcas típicas das velhas lutas religiosas. Será que defender um dos sistemas realmente valia o risco de rebentar com o mundo todo?

Agora estamos a perder liberdades duramente conquistadas, com o pretexto de uma «luta contra o terror» à escala mundial, como se o terrorismo fosse algo de novo. (Aqueles que acham que é uma novidade deviam ler The Secret Agent, um romance em que anarquistas bombistas suicidas rondam Londres carregados de explosivos; foi escrito por Joseph Conrad há 100 anos atrás. O fanático muçulmano está a mostrar-se um digno substituto do herético, do anarquista e, especialmente da Ameaça Vermelha tão conveniente para os orçamentos militares da Guerra Fria."


Excerto de " Breve História do Progresso ", de Ronald Wright, Trd. José Couto Nogueira; Música "Regiment", de Brian Eno e David Byrne

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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