«A exposição celebra o bicentenário do nascimento do francês Honoré Daumier, um dos mais brilhantes desenhadores satíricos de sempre. Composta por cerca de 30 desenhos, a mostra apresenta algumas peças raras, como as litografias a cores, com destaque para a litografia sobre a guerra civil portuguesa. O desenho, que retrata a disputa da coroa entre D. Miguel e D. Pedro, foi feito em 1833 e é um dos primeiros trabalhos do autor. Esta mostra passará a integrar as exposições permanentes do Museu Nacional da Imprensa, reforçando a Galeria Internacional do Cartoon.»
«Portugal está sem destino.Deixou de ser um país colonial.Já não é um "bom aluno da "Europa". Pior ainda, apesar de muito esforço e muita propaganda,não se conseguiu "modernizar".O "atraso" continua e até aumentou. Não se vive hoje como se vivia durante Salazar, mas também não se vive numa mediocridade tranquila. Pelo contrário, o mundo muda e a insegurança cresce.O mundo muda e Portugal não se adapta:o desemprego cresce;as pensões diminuem, a educação é um artifício, o serviço de saúde vai pouco a pouco empobrecendo e a fisco oprime toda gente.No meio disto,o país não quer,nem está à espera de nenhuma reviravolta dramática.A "Europa",por que antigamente suspirava,obriga à imobilidade.É uma espécie de paragem definitiva,para além da qual nada existe - é pelo menos,por um verdadeiro "fim da história". De resto,trinta e tal anos de regime criaram um cinismo político geral.À volta do PS e do PSD há meia dúzia de fanáticos,que ninguém leva a sério, e uma corte de carreiristas,que ninguém respeita.Tendo governado o país simultânea ou alternadamente,nem o PS nem o PSD inspiram hoje qualquer confiança.Colonizaram o Estado e a administração local por interesse próprio e cometeram(ou permitiram que se cometessem)erros sem desculpa.Desorganizaram a sociedade,ou mesmo impedirem que ela se fosse por sua vontade organizando, e levaram Portugal a uma espécie de paralisia de que não se vê saída.Apesar de um ou outro protesto corporativo, o público já não se interessa pelo seu futuro,ou pelo seu presente,colectivo. Nem Sócrates,nem Ferreira Leite percebem,no fundo,o que se passa.Sócrates persiste em repetir a sua velha ladainha,inteiramente desacreditada,com o entusiasmo de 2006.Ferreira Leite(agora"tia Manuela",como agora popularmente lhe chamam)critica a evidência e recomenda os remédios do costume.Cada um à sua maneira,os dois falam uma nova "língua de pau",que os portugueses não ouvem ou que não registam.Talvez por isso,não falam muito e quando falam,excepto pelas querelas de partido e pelo vaguíssimo contraste entre o maior "liberalismo" de Ferreira Leite e o improvisado "neo-keynesianismo" de Sócrates,concordam no essencial.O PS e o PSD são o regime e não podem ou tencionaram tocar no regime.A reforma de Portugal,se por absurdo vier,não virá dali.» * Crónica de Vasco Pulido Valente,Público de 12/09/2008
" O apartamento de Maninho Saraiva tinha quatro colunas de som que recebiam tardes de apenas se ouvir música. Tardes de chuva, com a água a cair na calma, braseando as musiquinhas de Vinicius de Moraes e do melhor Chico Buarque e os poemas de Eugénio de Andrade e Manuel Bandeira, no meio de " Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade". Ou as obras de Lenine, na «colecção fogão-geleira», livros para a clandestinidade. Tinham títulos como " O Fogão ", com um fogão a gás na capa, ou "A Geleira", mas dentro, em papel de muito má qualidade, estavam os clássicos proibidos. Viu-se " O Couraçado Potenkine" nessa casa. Maria Alexandre, caçulinha - dezoito anos entre amigos que rondavam os trinta -, tinha a chave da cozinha. Davam-lhe liberdade para certas aventuras culinárias mas as festas estavam-lhe vedadas porque, nessa altura, a libertação de costumes ainda não tinha acontecido.(As jovens começavam a namorar mais cedo, «éramos mais soltas por causa do clima», vulgarizavam-se mini-saias, bikinis e hot-pants «mas o grande desbragamento angolano aconteceu depois da indepêndencia com a dinâmica da revolução e da liberdade reclamada por todos».) A caçula podia também tratar dos livros, manusear os panfletos proibidos e as conversas políticas."
Excerto de " Baía dos Tigres", de Pedro Rosa Mendes,Ed.D.Quixote,2ªEdição,1999
" A dor dá-me novamente um corpo. Desde a puberdade que não tinha uma sensação tão forte de ter corpo, estou intensamente presente nele. Só que este corpo tem alguma coisa de errado. É um corpo que arde a fogo lento. E depois há a esperança. Na semana passada houve dois ou três dias em que eu tinha a certeza de que ela estava a desaparecer, que tudo voltava ao normal - já quase me tinha esquecido de como o meu corpo era normal antes de ter começado aquela dor lá atrás, nas costas. Não ousava ter esperança, naturalmente, mas tinha-a. " Excerto de " A morte de um apicultor ", de Lars Gustafsson, Trd. Ana Diniz
" Ao mesmo tempo, é perfeitamente evidente que aquilo era uma coisa impossível. É um autêntico milagre que tenha durado tanto como durou. Tudo, toda a nossa vida a dois se baseava num único princípio muito simples, num acordo: Era proibido vermo-nos um ao outro. Quero eu dizer, vermo-nos verdadeiramente." Excerto de " A morte de um apicultor ", de Lars Gustafsson, Trd. Ana Diniz
" As pessoas que virão a significar alguma coisa para nós, encontramo-las não uma vez, mas pelo menos vinte vezes, antes de levarmos a sério o aviso. Pelo menos comigo foi sempre assim. E vamo-nos desviando enquanto podemos." Excerto de " A morte de um apicultor", de Lars Gustafsson, Trd. Ana Diniz
Os dois reis e os dois labirintos " Contam os homens dignos de fé( porém Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilónia que reuniu os seus arquitectos e magos e lhes mandou construir um labirinto tão complexo e subtil que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar nele, pois a confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens. Com o correr do tempo, chegou à corte um rei dos Árabes, e o rei da Babilónia(para zombar da simplicidade do seu hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou humilhado e confuso até ao fim da tarde. Implorou então o socorro divino e encontrou a saída. Os seus lábios não pronunciaram queixa alguma,mas disse ao rei da Babilónia que tinha na Arábia um labirinto melhor e que, se Deus quisesse, lho daria a conhecer algum dia. Depois regressou à Arábia, juntou os seus homens e fez cativo o próprio rei. Amarrou-o sobre um camelo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: «Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilónia quiseste-me perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos.» Depois, desatou-lhe as cordas e abandonou-o no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre."
" Para o homem grego da cidade clássica, o desejo que um cidadão adulto experimentasse por um rapaz livre era o modelo dominante da ligação erótica.Nenhuma outra forma de contacto masculino gozava do mesmo prestígio, a mesma aceitação ou até as mesmas pretensões de bem-aventurança erótica. Mas o sexo entre homens da mesma idade, em especial se ambos possuíssem barba, era alvo constante de chacota, declarado inaceitável pelo espírito de justiça ou, com maior zelo, absolutamente repugnante e detestado( mesmo que a relação decorresse sob a máscara da privacidade). Contudo, o pior dos adultos que se pudesse imaginar era um adulto efeminado, que permitia que o próprio corpo fosse usado para o prazer de outro homem - o «cinaidos». Ninguém se chamava a si próprio «cinaidos», e este tratava-se do tipo de insulto explosivo que nem sequer podia considerar-se chacota. Era até possível dizer-se à socapa que todos os políticos « levavam por trás » e soltar umas gargalhadas, mas chamar« cinaidos» a alguém representava um acto de uma hostilidade violenta. Como senhor, um cidadão podia ter sexo com o moço seu escravo e até expressar desejo por ele, embora as relações de poder influíssem inevitavelmente no que se passava. Não era muito digno fazer sexo com um prostituto, em especial aos olhos dos inimigos, mas as normas das preocupaçõesda Antiguidade a respeito do recurso a prostitutos não eram iguais às das preocupações moralistas contemporâneas. Melhor dizendo, havia um franzir reprovador do sobrolho, porque frequentar um prostituto podia tornar-se um fardo em termos financeiros ou revelar pouco auto-domínio, em especial quando o visado dissera mal de alguém que lhe era antipático. Mas, perante o modelo do cidadão com o seu moço, todos os outros tipos de desejo masculino desvaneciam-se. Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria Graça Caldeira, Ed. Aletheia
" No dia seguinte cedo, saí para comprar o Dia e o Notícia. No primeiro, o crime era a matéria principal da página 11 e, no segundo, a manchete de primeira. Na Notícia, havia uma foto enorme da filha-de-santo invejada, Iracema, nua, o corpo estendido, escancarado, com partes e detalhes anatômicos expostos. Diante do exemplar pregado na banca, um grupo alegre e mórbido se divertia: «Olha os peitos, cara. Passou a ferro os dois biquinhos. Olha a xoxota!» Lá dentro, a matéria descrevia: «Possuída pelo demônio, a mãe-de-santo Hergolinda W. de Assumpção, de 47 anos, sacrificou num ritual de magia-negra a filha-de-santo Iracema Lademel, 36 anos. Pelada e completamente em transe, a mulher arrancou com uma faca os olhos, os dentes e a língua de Iracema, enfiou em sua boca um cálice de madeira, queimou os seios com ferro de passar roupa, e se banhou com o sangue da oferenda de Exu. O filho de Hergolinda, 12 anos, também nu, assistiu perplexo às cenas macabras.» A assassina fora presa e levada para a 40.ª DP, de Honório Gurgel, por uma guarnição do 9.º BPM, de Rocha Miranda. A matéria informava ainda que o próprio marido de Hergolinda, o mecânico de automóveis Ezakiel Miraflores, 50 anos, chamara a polícia assim que chegou a casa por volta da meia-noite de sábado. O terreiro ficava na mesma rua do Centro de dona Lucinda. Eu já estava me sentindo numa foto daquelas."
Fotografia de Francesca Woodman Excerto de "Inveja mal secreto", de Zuenir Ventura, Ed. Palavra Música:Missa Cantilena:1. Agnus dei (Matteo da Perugia).2. Interlude.3. Benedicamus domino. , interpretada pelo agrupamento Mala Punica dirigido por Pedro Mesmeldorff.
" Encontra-se em boa forma, tem a mente sã. É, ou tem sido, um erudito e a erudição continua a ser, intermitentemente, o seu ponto fulcral. Vive de acordo com os seus rendimentos, o seu temperamento, os seus meios emocionais. Será feliz? Sim, acredita que sim. Contudo, não esqueceu a última frase de Édipo: Nenhum homem é feliz enquanto não está morto. " Excerto de " Desgraça ", de J.M.Coetzee, Trd. José Remelhe
" O rosto de Dean estava rubro. Arrancamos sem dizer nada. Tirar-nos o nosso dinheiro para a viagem era uma autêntica provocação a incitar-nos ao roubo. Sabiam que estávamos tesos e não tínhamos familiares pelo caminho nem a quem telegrafar a pedir dinheiro. A polícia americana move uma guerra psicológica contra os americanos que não a amedrontam com papéis impressionantes e ameaças. É uma polícia vitoriana; põe-se a perscrutar de janelas bafientas e pretende indagar acerca de tudo, e pode inventar crimes a seu bel-prazer, se os crimes não existirem.« Nove linhas de crime, uma de tédio», disse Louis-FerdinandCéline. Dean estava tão furioso que queria regressar a Virgínia e dar um tiro no chui, logo que arranjasse uma arma. " Excerto de " Pela estrada fora ", de Jack Kerouac, Trd. Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato
" - Um padre? Que tem o padre a ver comigo ou eu com ele? Nunca gostei de padres, mas agora detesto-os mais do que nunca! Um padre, meu caro! - repetia ele, pondo-me a mão no ombro. - Não me mande padre nenhum, se de facto prezar a sua sanidade mental! A minha confissão acabaria por deixá-lo maluco. E quanto ao médico, nunca na minha vida me senti tão bem disposto e - acrescentou, erguendo-se bruscamente e olhando-me de soslaio - , a menos que deseje envenenar-me, peço-lhe, em nome da caridade cristã, que me deixe só." Excerto do conto " O último dos Valerii", de Henry James, Trd.Manuel João Gomes
A franco-colombiana Ingrid Betancourt, ex-refém das Farc, encontrou-se hoje com o Papa Bento XVI, numa audiência privada na residência de Verão do Sumo Pontífice, em Castelgandolfo .
" Ama a Humanidade como a ti próprio! Isto é tudo; isto é tudo e nada mais é preciso; saberás depois como hás-de viver. E, além disso, só há uma verdade... uma verdade antiga, antiquíssima, mas que é preciso repetir uma e mil vezes, e que até agora não se arreigou nos nossos corações. O conhecimento da vida está acima da vida; o conhecimento da lei da felicidade... está acima da própria felicidade... Eis aqui aquilo contra que se deve lutar. E eu contra isso lutarei! Se todos quisessem, tudo mudaria sobre a Terra num momento." Excerto do conto " O sonho dum homem ridículo", de Fiódor Dostoiévski, Trd. Natália Nunes, Ed. Quasi
Creedence Clearwater Revival - "Have You Ever Seen The Rain?"(legendado)
Como é que sabe isso? Ninguém sabe de nada. O futuro é uma incógnita. Sabe que o conhecimento dá-nos o que se conhece, as leis que se tiraram da natureza para aplicar cá em baixo, mas a experiência dá-nos a sabedoria. A sabedoria vem daquilo que se sofreu e viveu. Eu não deito a mão numa chapa porque vejo que está quente, é a experiência. A experiência é o que nos fica, é essa acumulação de conhecimentos vividos e sofridos, mas o que acontece é que hoje as mudanças são são tão rápidas que já é difícil ser-se sábio. É uma vida tão acelerada que vai mais rápida que os nossos sentidos, que estão sempre atrasados face à realidade. É claro que a gente nova é predisposta a aceitar e a receber as coisas porque as recebe de outro modo, mas quando chegada à minha idade, o mundo terá dado tantas voltas que estará como eu, já não sabe nada.
Mas acha que o mundo não tem muito futuro?
Futuro há-de ter, mas toda a matéria é para morrer. Eu estive no México para receber uma medalha e soube que era de prata. E, curiosamente, perguntei: "Então aqui, a medalha é de prata?Isto é um segundo prémio?" E disseram-me: "Não, este é o prémio mais de topo, a prata foi descoberta aqui no México." Então fui ver os maias e havia lá um texto que dizia o seguinte, entre outras coisas: "Semeia para colheres, colhe para comeres, come para viveres." Isto parece simples, mas é profundíssimo, e foi preciso a recente falta de milho para as pessoas ficarem todas aflitas porque não podiam comer dinheiro.»
Excerto do filme "Aniki Bobó"(1942), e excerto de entrevista realizada por João Céu e Silva a Manoel de Oliveira, e publicada no Diário de Notícias de 31/08/2008
João Domingos Bomtempo - Sinfonia Nº 2 (Minueto - Allegro), 3º andamento (Minueto - Allegro) da Sinfonia Nº 2, em Ré Maior, numa interpretação da Orquestra Sinfónica de Bamberg sob a direcção de Claudio Scimone
" Faunia Farley: pernas magras, pulsos magros, braços magros, costelas claramente desenhadas na camisola e omoplatas salientes. No entanto, quando o esforço lhe retesava o corpo, víamos que os seus membros eram duros; quando se esticava ou estendia os braços para qualquer coisa, víamos que os seus seios eram surpreendentemente firmes e robustos, e quando, por causa das moscas e dos mosquitos que zumbiam à volta da manada naquele abafado dia de Verão, dava uma palmada no pescoço ou nas costas, entrevíamos como era capaz de ser brincalhona, apesar do estilo aparentemente sério. Percebíamos que o seu corpo era algo mais do que eficientemente magro e severo, que ela era uma mulher de constituição firme, em equilíbrio precário no momento em que já atingiu a maturidade mas ainda não iniciou o declínio, uma mulher no apogeu do apogeu..."
Excerto de " A Mancha Humana ", de Philip Roth, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues
" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. "
Robert Walser