Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
O Sexo e as ideias
Pintura de Tracey Emin
«"Lo único que me importaba antes era el sexo, no el dinero. El sexo me retenía en la cama y me sacaba de ella por la mañana, pero ahora está desvaneciéndose rápidamente. No estoy tan loca por el sexo como antes, ahora me interesan más las ideas", afirma la artista en declaraciones al diario 'The Guardian'.» ler aqui no El Mundo.
«Os heróis da civilização que se tornaram os santos do cristianismo pegaram na imagem do corpo clássico e reconstituíram-na da forma mais chocante. A ideia bíblica da «obediência a Deus» cristalizou-se numa noção de escravatura humana que trouxe consigo o aviltamento, o sofrimento, a humilhação e a tortura do escravo - mas enquanto qualidades positivas. O cristianismo não emanou simplesmente de Jesus ou de São Paulo: a sua inovação radical deriva de uma revolução precisa dos valores clássicos tradicionais. Trata-se do inicio da batalha longa e turbulenta empreendida pelo cristianismo contra a Grécia e Roma. Durante os primeiros séculos de formação, o cristianismo, para provar o amor a Deus a um mundo atónito, significou protagonizar uma lógica de alienação, privação e dor anticlássica.»
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira, Ed. Alêtheia, 2004
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
A propósito do celibato sexual(3)
" Para o cristão e o seu corpo, que lutava contra Satanás e as tentações deste, a santidade equivalia a um acto de separação crucial. O monge que estava no deserto rezava por sua conta. O termo «mosteiro» deriva da palavra grega monos, que significa «sozinho», «por conta própria». O mosteiro formava uma comunidade paradoxal de homens «por conta própria». Os cristãos admiravam o «anacoreta» que vivia como um eremita, completamente entregue à sua sorte numa cela ou numa gruta, afastado da sociedade humana. A abstinência sexual, o voto de silêncio, virar os olhos para o céu, o regime de orações e o compromisso do jejum, tudo isso eram formas de destruir os vínculos sociais entre os seres humanos. Até Sócrates, o filósofo grego com maior autodomínio, deambulava pelo ginásio, bebia nos simpósios e dormia com Alcibíades sob os lençóis. O Homem Santo cristão tornou-se exemplar, porque recusava estes vínculos sociais e prazeres partilhados. "
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira
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A propósito do celibato sexual(2)
" Por mais que um corpo emaciado e um olhar de santo pudessem deixar transparecer pureza, a sexualidade constituía o barómetro da luta mais íntima, secreta e significativa contra o pecado e a impureza. Mesmo que o comportamento sexual pudesse ser refreado e os anseios sexuais recalcados, o que sucedia à noite constituía um lembrete constante de uma batalha que ainda não fora vencida.
«Se não estás a pensar em sexo, lamento-te», escreveu um asceta, «significa que deves estar a fazê-lo.» Assim, não havia muita margem para a calma ou a grandiosidade espiritual( nem muita escolha). Abundam os relatos do malogro na contenção sexual, desde as poluções nocturnas a sonhos eróticos, aos deslizes de gerar filhos ilegítimos ou molestar sexualmente as noviças. A «pureza de coração» facilmente resvalava para o medo da tentação e daqui para a misoginia. Esta misoginia podia expressar-se de uma forma física brutal. Há o relato de um monge que enfiou o hábito no corpo putrefacto de uma morta, a fim de que o fedor o impedisse de ter pensamentos de mulheres que não estivessem ligados à carne em decomposição e à morte. A castidade de um monge era um bem frágil ameaçado de todos os lados e sobretudo a partir do íntimo. Vencer Satanás constituía um empreendimento a tempo inteiro."
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira
«Se não estás a pensar em sexo, lamento-te», escreveu um asceta, «significa que deves estar a fazê-lo.» Assim, não havia muita margem para a calma ou a grandiosidade espiritual( nem muita escolha). Abundam os relatos do malogro na contenção sexual, desde as poluções nocturnas a sonhos eróticos, aos deslizes de gerar filhos ilegítimos ou molestar sexualmente as noviças. A «pureza de coração» facilmente resvalava para o medo da tentação e daqui para a misoginia. Esta misoginia podia expressar-se de uma forma física brutal. Há o relato de um monge que enfiou o hábito no corpo putrefacto de uma morta, a fim de que o fedor o impedisse de ter pensamentos de mulheres que não estivessem ligados à carne em decomposição e à morte. A castidade de um monge era um bem frágil ameaçado de todos os lados e sobretudo a partir do íntimo. Vencer Satanás constituía um empreendimento a tempo inteiro."
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira
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A propósito do celibato sexual(1)
" Mal se tornou padre da Igreja Católica, Santo Agostinho impôs a si próprio e ao seu clero um rígido código de celibato sexual. Nunca mais visitou mulheres sem ser com outro acompanhante e proibiu mesmo os familiares do sexo feminino de entrarem no seu palácio de bispo. Escreveu alguns dos argumentos mais detalhados e impressivos com o objectivo de incluir na estrutura da vida religiosa da Igreja tanto o casamento como a virgindade - e graças à obra extraordinária " As Confissões ", continua a ser o investigador mais profundo das fragilidades humanas que o desejo sexual põe a descoberto. Porém, quando escreveu que se um homem casado fosse ordenado de repente Deus concedia-lhe a necessária mercê de deixar de dormir com a esposa, não é difícil ocorrer-nos Sinésio, que enquanto casado foi de repente ordenado e se limitou a dizer não ao apelo para dissolver o casamento em nome da castidade. Também Sinésio foi um venerado padre da Igreja."
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria da Graça Caldeira
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Cinaidos
" Para o homem grego da cidade clássica, o desejo que um cidadão adulto experimentasse por um rapaz livre era o modelo dominante da ligação erótica.Nenhuma outra forma de contacto masculino gozava do mesmo prestígio, a mesma aceitação ou até as mesmas pretensões de bem-aventurança erótica. Mas o sexo entre homens da mesma idade, em especial se ambos possuíssem barba, era alvo constante de chacota, declarado inaceitável pelo espírito de justiça ou, com maior zelo, absolutamente repugnante e detestado( mesmo que a relação decorresse sob a máscara da privacidade). Contudo, o pior dos adultos que se pudesse imaginar era um adulto efeminado, que permitia que o próprio corpo fosse usado para o prazer de outro homem - o «cinaidos». Ninguém se chamava a si próprio «cinaidos», e este tratava-se do tipo de insulto explosivo que nem sequer podia considerar-se chacota. Era até possível dizer-se à socapa que todos os políticos « levavam por trás » e soltar umas gargalhadas, mas chamar« cinaidos» a alguém representava um acto de uma hostilidade violenta. Como senhor, um cidadão podia ter sexo com o moço seu escravo e até expressar desejo por ele, embora as relações de poder influíssem inevitavelmente no que se passava. Não era muito digno fazer sexo com um prostituto, em especial aos olhos dos inimigos, mas as normas das preocupaçõesda Antiguidade a respeito do recurso a prostitutos não eram iguais às das preocupações moralistas contemporâneas. Melhor dizendo, havia um franzir reprovador do sobrolho, porque frequentar um prostituto podia tornar-se um fardo em termos financeiros ou revelar pouco auto-domínio, em especial quando o visado dissera mal de alguém que lhe era antipático. Mas, perante o modelo do cidadão com o seu moço, todos os outros tipos de desejo masculino desvaneciam-se.
Excerto de " Amor, Sexo e Tragédia ", de Simon Goldhill, Trd. Maria Graça Caldeira, Ed. Aletheia
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