Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

domingo, 30 de setembro de 2007

Em louvor da alheira


Alheiras de Lamego, Vinhais e de Caça (Foto: PRG)
" Uma alheira, com a pele fendida, tostada do calor da fritura, a derreter aquele unto doirado e rescendente a alho, tempero de que lhe vem o bonito nome, tendo a acompanhá-la, como ordena o bom preceito, a sua verde guarnição de grelos tenros, salteados em pouca manteiga, e sobre eles a graça mais de todas amorável de um ovinho escalfado - quem haverá, aí, senhores, que não se tente? É uma das maravilhas da nossa cozinha bárbara, dada ainda ao deleite das coisas simples, do trivial, sem grandes requintes de civilizada laboração, mas a competir por isso mesmo, pela sua singeleza, com os ditames da Fisiologia do Gosto, de mestre Brillat-Savarin."
Excerto da capítulo " Em louvor da alheira ", do " Roteiro sentimental do Douro ", de Manuel Mendes, Edições Afrontamento, 2002

Arturo Pérez-Reverte


Ler aqui entrevista ao " El País ".

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Estados-Unidos da América (1)



Country Joe McDonald -" I Feel Like" (Woodstock 1969)

Gil Scott-Heron -"The Bottle"

" Colossal Youth " - Young Marble Giants

" Não, não é um tara, uma obsessão ou um ódio infundamentado pelo meu próprio sexo - desafio quem quer que seja, o chauvinista mais renitente, a tentar falar no novo Rock sem mencionar o nome de uma mulher. Claro, como reza o ditame, há sempre um homem por trás de cada grande mulher...
Por trás de Alison Statton, por exemplo, há dois. E são manos ( Philip e Stuart Moxham ). São os Young Marble Giants e o seu LP « Colossal Youth » é cristalino, como se Judy Collins virasse o miolo e quisesse transmitir a sua pureza em versão New Wave. Tudo é despido, fresco, como um cotovelo de voz descansando num ribeirinho de música. A voz de Alison é ténue, ligeira, quase inexistente. Mas é uma inexistência encantadora, porque não se esforça para interromper a sua passividade melancólica. A música dos Giants mergulha na mesma apatia melódica, frugal e deliciosa - como um pequeno almoço dum só «croissant». Aliás, este álbum é ideal para a manhãzinha, sobretudo quando se está de ressaca, porque age como um Alka-seltzer infantil com sabor a nêspera - não cura nem mata, mas tempera uma má disposição´. É a New Wave ecológica, natural, linda, minimalista. Se o álbum «Colossal Youth» fosse um iogurte (e, vendo bem, é isso mesmo ) seria elogiado pelo dr. Beja Santos E que melhor recomendação pode haver, digam-me ? "

Excerto da crónica " Gigantesde mármore príncipes e baus-baus", de Miguel Esteves Cardoso, publicada no jornal " Sete ", de 10/12/1980 e compilada no livro " Escrítica Pop ",Editorial Querco,1982.

Young Marble Giants -"Brand New Life"

O Milagre da subtracção *

Uma obra-prima perturba-nos, por definição, e " Colossal Youth " (1980 ) inquieta-me como mais nenhum disco o faz. Há qualquer coisa de verdadeiramente fantasmagórico que me asfixia e, ao mesmo tempo, me atrai. São 15 canções que deixam transparecer algo de transcendental, fazendo-me acreditar que este é "o" disco, um santo graal que jamais me explicará a razão deste feitiço. Na tentativa de tentar compreender a razão divina, consigo, em alguns momentos de fraqueza, analisá-lo friamente e desmontar a atracção. Afinal, não terá sido "Colossal Youth" apenas um golpe de sorte impossível?
Uma miragem colectiva do futuro pelos irmãos Moxham e menina Statton?
O acto pós-punk possível com uma âncora pesada em Cardiff?
Um milagre, então?
Seria tentador responder afirmativamente a algumas destas cínicas hipóteses, pois não houve segundo álbum, nem sequer um projecto seguinte tão fundamentalmente esclarecido quanto os Young Marble Giants; e basta ver " Live at the Hurrah " - de acordo com o mito, a única filmagem do grupo ao vivo que existe - para percebermos o estranho desconforto que exibiam ao tocar, como se a manipulação de todas as peças ( muitas delas dissonantes) fossem de equilíbrio insustentável.
Nenhuma conjectura acaba por ser relevante e até ajudam a condimentar o mistério, pois "Colossal Youth" será sempre um álbum perfeito, o tal inesperado milagre de quatro dias de estúdio e de canções gravadas no osso, com o mínimo de sons, mas com o máximo dos resultados. Todas essas canções foram pequenas sementes de música incorruptível de onde brotaram viçosas algumas das mais frondosas folhagens pop das últimas quase três décadas.
A importância desta reedição(álbum e restantes gravações laterais - mais sessão John Peel no terceiro disco da edição limitada) ultrapassa a simples organização histórica dos factos: é a definitiva prova da ressonância eterna que " Colossal Youth" teve e terá na história da música.

* Artigo de Pedro Santos, publicado na revista Op., de Setembro/2007, a propósito da reedição de " Colossal Youth ", pela Domino/Edel.

"Inveja" - Zuenir Ventura

" Aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha.
E que prestem atenção: a inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.
E que tomem cuidado: como adverte uma personagem desse livro, a emergente Vera Loyola, « o verdadeiro amigo não é o que é solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso ». Ou, como constatou outro personagem, o Padre: « A solidariedade na alegria é muito rara ».
E que não se esqueçam: como dizia Nelson Rodrigues, « há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista, nem ao médium depois de morto ».
Uma delas certamente é a inveja.
Portanto, preparem-se para participar de um jogo em que o importante não é o que se ganha, mas o que o outro perde."

Introdução, com o título de " Aos Navegantes ", do livro " Inveja mal secreto", de Zuenir Ventura, Ed. Palavra, 2005

"She Wore A Yellow Ribbon" - John Ford

Filme de 1949, traduzido para português, com o título de " Os dominadores ".

Trata-se de um excelente western, com fantásticas interpretações e uma fabulosa fotografia, premiada com um Óscar.

Todos os planos foram pensados ao mínimo pormenor, revelando a mestria de John Ford.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Shadow of a Doubt

"Shadow of a Doubt "-Trailer (1942) - Alfred Hitchcock

Sonic Youth -" Shadow Of A Doubt " (do álbum " Evol ", de 1986)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

The Iron Lady by Phil Ochs

Song about the Electric Chair.

There is something not right about taking another persons life. Yes I know murderers should be punished etc... but, still, there is something not right about executing someon.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

As raízes da Europa - Umberto Eco*

Além das cristãs, que têm um lobby poderoso, existem as raízes judaicas e as greco-romanas. E o que dizer quanto à herança pagã e às influências do Oriente?

Sobre esse tema eu já tinha escrito em 2003, mas não sou eu quem se repete, e sim a vida. Ocorre-me a história daquele meu amigo que certo dia volta para casa, encontra no escritório o jornal de que é assinante, lê com interesse da primeira à última página e depois percebe que se tratava de um exemplar de cinco anos antes, que por acaso reaparecera em sua escrivaninha. Daquele dia em diante cancelou a assinatura, mas não era culpa do jornal, era e é a monótona repetitividade de certos debates, crises, homicídios, escândalos, polêmicas, promessas e dívidas. Basta ler hoje os artigos sobre o delito de Cogne – um crime famoso ocorrido na Itália, em que a mãe é suspeita de ter matado o filho –, iguais aos de cinco anos atrás.

Mas voltemos ao ponto. Torno a encontrar nos jornais a urgência de inserir um chamado às raízes cristãs da Europa. Com relação a 2003, no entanto, deu-se um passo à frente, e precisamente na linha das observações que nós, então numerosos, havíamos feito: isto é, que as raízes da Europa são não apenas cristãs, mas sim judaico-cristãs. Não podemos esquecer o papel que a Bíblia teve no desenvolvimento da civilização européia (a propósito, recentemente aderi a um abaixo-assinado para que a Bíblia seja estudada nas escolas; não se trata de um fato religioso, é que não vejo por que os jovens tenham de conhecer Catulo e não Jeremias, Príamo e não Salomão).

Todavia, precisamente o fato de que na escola se estudam Príamo e Catulo nos recorda que a Europa surge sobre raízes que não são apenas judaico-cristãs, mas também greco-romanas. À parte a história da arte ou a função do imaginário mitológico em toda a poesia européia, sem Platão e Aristóteles nem sequer a teologia cristã teria existido; não é preciso recordar a presença do direito romano nas instituições européias, e o latim que se gostaria de introduzir novamente na missa foi inventado pelos pagãos e só se tornou cristão por direito hereditário. Mas talvez essas coisas sejam esquecidas porque as raízes cristãs têm um lobby poderosíssimo a apoiá-las, ao passo que as greco-romanas interessam apenas a alguns professores do ensino médio.

Naturalmente alguém poderia observar que seria necessário mencionar também a influência dos povos germânicos e a mitologia nórdica, mas a coisa se tornou patrimônio de neonazistas de cabeça raspada e, portanto, embora com pesar, deixemos para lá.

Enfim, haveria que perguntar por que as raízes judaico-cristãs caracterizariam precisamente a Europa. Não caracterizam também as duas Américas, a Austrália, a Etiópia, a Armênia, as Filipinas? E quanto às raízes greco-romanas, os modelos de Atenas e de Roma estavam bem presentes na mente dos pais da Revolução Americana – e pensemos em quanto a tradição clássica triunfa nas arquiteturas de Washington.

Seriam então precisamente estas raízes a tornarem a Europa única como tal e não, por exemplo, a co-presença de uma pluralidade de línguas e culturas – característica que falta a outras civilizações cristãs como as extra-européias? É com respeito a essa pluralidade que a Europa outrora se dividiu com enorme derramamento de sangue e agora torna a encontrar critérios de convívio e respeito recíproco. Poderíamos acrescentar o sentido do justo equilíbrio entre desenvolvimento rumo ao futuro e culto do passado, que torna a Europa tão ciosa de suas tradições e de seus vestígios. É bem verdade que essa coabitação entre novidade e tradição também é comum, por exemplo, na cultura japonesa, mas o Japão moderno só preserva o Japão antigo, ao passo que a Europa conserva não só as ruínas gregas e romanas e suas catedrais cristãs, mas também a Alhambra muçulmana, sinagogas e restos pré-europeus, de Altamira a Stonehenge.

E, enfim, há mais um aspecto típico da cultura européia: a curiosidade pelas outras culturas e pelos outros países, que esteve na origem tanto das viagens de Marco Polo quanto na de modas discutíveis como o orientalismo – para não mencionar o gosto colonialista de meter o nariz na casa alheia. É verdade que a curiosidade (digo curiosidade científica, e não turística) por países distantes caracterizou também a civilização islâmica medieval, mas não os povos cristãos de outros continentes. Certa noite um consultor do Pentágono, em um jantar durante um congresso, enquanto o informavam sobre o peixe que estava comendo, perguntou se o Mediterrâneo seria um lago salgado. Nenhum europeu culto jamais perguntaria a um americano se o Grande Lago Salgado seria um mar. Enfim, ou colocamos em evidência todas as raízes e todas as características que tornam esta Europa única, ou então não conseguiremos compreender o que é.

* Retirado da edição online da Revista Entre Livros

The Strawbs - " Hero and Heroine "

1975 Live in Tokyo

El rostro desconocido de Auschwitz *


El Museo del Holocausto de Nueva York exhibe 116 fotos de uno de los campos de Auschwitz-Birkenau

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Jens Lekman


"You are the light "

"A Man Walks Into A Bar... "

"A Sweet Summers Night on Hammer Hill "- at the Beachland Ballroom in Cleveland

" Aos dezanove anos, Jens Lekman escreveu no dário: « Se este sonho não se tornar realidade, terei de enfrentar a verdade de que, muito depressa, ficarei velho e amargo ». E, para dar corpo ao sonho - pop, pop, pop, canções pop - e contrariar o envelhecimento precoce, não perdeu tempo e publicou de imediato uma série de singles e EP que, quatro anos depois, em 2004, regravaria para o álbum " When I Said I Wanted To Be Your Dog ", milagre de pequen assombro onde nos dávamos conta de que, muito mais cedo do que ele próprio imaginaria, Sthephen Merritt começava a deixar descedência pelos lugares menos prováveis do planeta... "

Excerto de crítica, de João Lisboa, publicada no Expresso de 15/09/2007, ao álbum " Night Falls Over Kortedala ", de Jens Lekman

" O fim de Lizzie " - Ana Teresa Pereira



Pintura de Oscar Kokoschka



" Numa história de Sherlock Holmes, um homem diz que tem mais amor às pegadas de uma mulher na lama do que ao corpo e à alma das outras mulheres. Aco que essas palavras descrevem o que sinto por Lizzie.

Quando nos conhecemos, éramos ainda crianças. O meu pai e eu tínhamos ido viver para uma aldeia na costa da Cornualha. Há dois quadros de Kokoschka em Londres que me fazem lembrar esses tempos: um deles está no Tate e, como as outras paisagens do pintor, mostra um mundo em movimento, nuvens, mar, rochas, casas, barcos de pesca e uma solitária gaivota em primeiro plano; o outro, que está no Courtauld Institute, é ainda mais tempestuoso, o lugar é o mesmo mas o pintor aproximou-se, as casas desapareceram ( quase desapareceram) e ficaram as rochas e o mar, os barcos, duas gaivotas.

O ponto de vista das gaivotas. "



Excerto de " O fim de Lizzie ", conto de Ana Teresa Pereira publicado em duas partes nas edições do Expresso de 08 e 15 de Setembro de 2007

domingo, 16 de setembro de 2007

O filósofo - Tintoretto


A Philosopher
1570
Oil on canvas
Biblioteca Nazionale Marciana, Venice

Christian Williams


"Red", Description: Christian Williams @ The 8th Street Tap Room, Lawrence, Kan., 8/8/07
Ver site aqui.

Christian Williams


"You Ain't Exempt" , Description: Christian Williams at Acadia Cafe, Minneapolis, Minn., 1/27/07

Josef Koudelka


Irlanda, 1972, Fotografía de Josef Koudelka

It Takes Two to Tango *

Astor Piazzolla -" Libertango "

* Por Carlos M. J. Alves , in Storm-Magazine

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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