Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Canção do dia(6) : " Pata Pata " - Miriam Makeba(1977)

De onde viemos? Quem somos ? Para onde vamos?

Leituras de domingo(2)

«La generación a la que pertenezco dio varias batallas: por la revolución, el comunismo, la emancipación de la mujer, la libertad religiosa y la libertad sexual. Parecía que, habiendo perdido todas las otras, por lo menos en Occidente habíamos ganado esta última. Episodios como los que resumo en esta nota muestran que creer semejante cosa es una ilusión. ¿Qué clase de libertad sexual hay detrás de las villanías de este trío? Abusar de una niña de 13 años, gozar con adolescentes que son esclavos sexuales por culpa del hambre y la violencia y convertir en un burdel el poder al que se ha llegado mediante el voto de millones de ingenuos, son acciones que hacen escarnio de la libertad que precisamente clama porque en la vida sexual desaparezca esa relación de amo y esclavo que, en estos tres casos, se manifiesta de manera flagrante. La libertad sexual es en ellos una patente de corso que permite a quienes tienen fama, dinero o poder, materializar de manera impune sus deseos degradando a los más débiles. Apuesto mi cabeza que los tres héroes de estas historias reprobaron escandalizados las violaciones y abusos sexuales de niños en los colegios religiosos que han llevado al borde de la ruina a la Iglesia Católica en países como Estados Unidos e Irlanda, por las sumas enormes con que han debido compensar a las víctimas. Ni ellos ni sus defensores parecen conscientes de que sus proezas son todavía menos excusables que las de los curas pedófilos por la posición de privilegio que tienen y de la que abusaron, envileciendo con sus actos la noción misma de libertad. Cuánta razón tenía Georges Bataille cuando pronosticaba que la supuesta sociedad "permisiva" serviría para acabar con el erotismo pero no con la brutalidad sexual.»

" Desafueros de la libido ", por Mario Vargas Llosa, El País, 18/10/2009


« O sol baixava. Os dois fugitivos ouviram uns gritinhos que pareciam de vozes femininas; não se percebia bem se eram gritos de dôr ou de alegria. Êles puzeram-se logo em pé, com a inquietude e o alarme que tudo inspira num lugar desconhecido. Os clamores partiam de duas raparigas inteiramente nuas que corriam vivamente na borda do prado, seguidas por dois macacos que lhes mordiam nas nádegas. Cândido apiedou-se. Como, durante o seu tempo de serviço no exército búlgaro, havia aprendido a bem atirar e teria furado uma avelã numa moita sem tocar nas folhas, tomou a espingarda e matou os dois macacos.
- Graças a Deus, meu querido Cacambo, disse êle, salvei dum enorme risco essas pobres criaturas. Se cometi um pecado na hora em que matei um inquisidor e um jesuíta, reparei a minha falta salvando a vida de duas mulheres. Talvez sejam pessôas de categoria e esta aventura nos venha a trazer algumas vantagens no país.
Ia continuar, mas sentiu a língua prêsa quando viu as raprigas beijarem ternamente os dois macacos, debulharem-se em lágrimas sôbre os seus corpos, e encherem o espaço dos mais dolorosos gritos.
- Não esperava encontrar tamanha bondade, disse êle a Cacambo, o qual lhe replicou:
- Meu amo, o senhor meteu-se em bôa! Decerto matou os dois amantes dessas meninas!
- Amantes? exclamou Cândido. Será possível? Tu zombas de mim, Cacambo, não posso acreditar-te!
- Meu querido amo, respondeu Cacambo, o senhor espanta-se de tudo e de nada. Porque lhe parece tão extaordinário que nalgumas regiões os macacos obtenham as complacências das damas? Êles têm o seu bocado de homens, tal como eu tenho um quarto de sangue Espanhol.»


Excerto de " Cândido " de Voltaire, Trd. Maria Archer, Ed. Guimarães & Cª Editores

Auto-de-fé


« Após o tremor de terra que destruira três quartos de Lisboa os sábios do país cogitaram em que o meio mais eficaz para prevenir a ruína total da cidade consistia em dar ao povo um rico auto-de-fé. Fôra decidido pela Universidade de Coimbra que o espetáculo de várias pessoas queimadas a fogo lento, com grande cerimonial, era um feitiço infalível para impedira terra de tremer.
Por consequência agarraram num biscaínho, criminoso de casamento com a comadre, e em dois portugueses que, ao comerem um frango, tinham posto de parte o toucinho. Depois do jantar amarraram o doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado demais, o outro por ter escutado com ares de aplauso. Ambos foram conduzidos em separado para compartimentos de extrema friagem, nos quais o sol nunca incomodava ninguém. Oito dias passados ambos foram foram revestidos de sambenitos e adornaram-lhes as cabeças com mitras em papel. A mitra e o sambenito de Cândido traziam uma pintura de chamas erguidas, e no meio de vários diabos sem cauda nem garras. Sairam em procissão assim vestidos, ouvindo ao mesmo tempo um sermão intensamente patético, e acompanhados de uma bela música em falsête baixo. Cândido foi açoitado ao ritmo da música e do cântico; o biscaínho e os dois homens que não comiam toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, contrariamente ao que se esperava. Mas no mesmo dia a terra voltou a tremer com um fragor espantoso.»
" Cândido ", de Voltaire, Trd. de Maria Archer

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Canção do dia(4) : " Arrependimento " - Sam the Kid(2002)

« Se pudesse viver novamente, na próxima vida tentaria cometer mais erros. »


Jorge Luís Borges

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Canção do dia(3) : " Love of an Orchestra " - Noah and the Whale(2009)



No seu aniversário


« Senão, era ver Rosamaria, com o seu ar de bruxa em sabat, com aquele riso carnívoro que só de ouvi-lo era como um galope de garanhões e um voo de pretas aves em eucaliptos; como se trocassem moradas, rotas, mapas dos desejos. Era só ver a sua própria mulher, Beth, tão gasta como um pano de cozinha, dessa beleza que se convencionou ser austera, mas que é afinal sinal de maus ovários, mau fígado, más veias. O sangue corria aos tropeções nos seus capilares e eles rebentavam, e ficava a dor lancinante que ela dizia ser como uma agulha que passasse nas suas veias. Mas não dispensava ser amada, doente como era, sempre prestes a receber a dor como um filho, a enfaixá-la, a carregá-la no aconchego da carne; até tinha lubricidades, carinhos, apetites; era preciso, senão contentá-la, ao menos respeitar esses grotescos parênteses de amor que ela não merecia. O amor era para jovens belos e rapídissimos, que correm como o vento, saltam até às estrelas; e não aquele rugido triste de homem e mulher, aquela perseguição cheia de artes falsas, de ameaças, de ódio até, e que as crianças suspeitam como a chaga que respiram e que fede no quarto do casal. Os homens sabem que o amor é uma coisa divina, feita para gente divina; e, por isso, matam, porque não são divinos nem suportam interpretar o amor como uma farsa vulgar. Por isso morrem, e dão à morte nomes heróicos, como Sócrates deu, cruelmente marcado na sua prisão, que ele pediu para o corpo velho e sem esplendor, de verme com consequências divinas, mas não divino.»
Fotografia de Agustina Bessa Luís, por Jorge Afonso
Excerto de " Os meninos de ouro "(1983), Ed. Guimarães Editores, 7ª Edição(1987)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Canção do dia(2): " The Girl From Ipanema " - Astrud Gilberto(1964)*

* Música composta por Tom Jobim, incluída no álbum "Getz/Gilberto"(1964) de Stan Getz e João Gilberto.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Canção do dia(1) : " Samsara " - Rupert Hine(1981)





























Eugenio Murillo



« El dibujante Eugenio Murillo Fuentes (1958) lee a Jorge Luis Borges, y en los papeles blancos del artista empiezan a aparecer muros y umbrales. Borges fue el hombre que recogió la historia del emperador chino Shih Huang Ti, quien construyó una gran muralla para aislar su imperio del mundo y quien mandó quemar todos los libros para que la historia comenzara en el reinado de Shih Huang Ti.» ler aqui o artigo completo.»
Darío Chinchilla Ugalda, Ancora, La Nácion, Costa Rica

domingo, 11 de outubro de 2009

Leituras de domingo(1)

«...A "obamania" é um triste sinal de que o Ocidente perdeu qualquer espécie de faculdade crítica. A palavra e o gesto bastam para lhe esconder o que se passa no mundo. Como se uma grande potência pudesse de repente mudar com uma criatura simpática e uma pequena dose de persuasão e boa vontade.
Para começar alguns factos: Guantánamo não fechou; a prática de sequestrar putativos terroristas (eufemisticamente denominada "extraordinary rendition") em países "terceiros" não acabou; e não acabou também a prática de prender suspeitos de terrorismo, dentro e fora da América, e de os tratar como "no campo de batalha". Pior ainda, Obama não quis condenar, nem investigar os crimes de Bush, nomeadamente a tortura; só prometeu, nos casos mais benignos, tribunais militares (regidos, como é evidente, por lei especial) e sobretudo não limitou ou diminuiu a secrecidade e o arbítrio do Estado segurança. Isto quanto aos celebrados direitos do homem e à convivência amigável entre a América e o islão, em que ele proclama acreditar.»

Vasco Pulido Valente, Público de 11/10/2009


« A confissão feita sob tortura não era válida se não fosse ratificada sem tortura, e noutro lugar, donde não se pudesse ver o horrível instrumento, e não no mesmo dia. Eram descobertas da ciência, para tornar, se tal fosse possível, espontânea uma confiança forçada, e satisfazer ao mesmo tempo o bom senso, o qual dizia dizia claramente que a palavra extorquida pela dor não pode merecer fé, e a lei romana que consagrava a tortura. Aliás a razão dessas precauções, iam buscá-la os intérpretes à própria lei, ou seja a estas estranhas palavras: «A tortura é coisa frágil e perigosa e sujeita a enganar; visto que muitos, por força de ânimo ou de corpo, sofrem tão pouco com os tormentos que não se pode, com tal meio, obter deles a verdade; outros são tão intolerantes à dor que dizem qualquer falsidade, em vez de suportarem os tormentos.» Digo: estranhas palavras, numa lei que mantinha a tortura; e para se compreender por que motivo não se extraía outra consequência senão que «nos tormentos não se deve acreditar sempre», temos de recordar que aquela lei havia sido feita na sua origem para os escravos, os quais, na abjecção e na perversidade do gentilismo, puderam ser considerados como coisas e não como pessoas, e sobre os quais se julgava por isso ser lícita qualquer experiência, a ponto de serem torturados para se descobrir os crimes de outros. Novos interesses de novos legisladores fizeram-na depois aplicar-se também às pessoas livres; e a força da autoridade fê-la durar muitos mais séculos que o gentilismo: exemplo nada raro, mas notável, de como uma lei, depois de estabelecida, pode prolongar-se e expandir-se para além do seu princípio, e sobreviver-lhe.»


Excerto de " História da Coluna Infame ", de Alessandro Manzoni, Trd. José Colaço Barreiros, Ed. Assírio & Alvim, 1991

Mar D´Outubro





quinta-feira, 8 de outubro de 2009

The River

soothing sounds for baby






Sleepy Time

A caça

« Penso no meu filho que está longe, a milhares de quilómetros, num país onde ainda se dorme na cama, e a sua imagem parece-me irreal, esfuma-se e perde-se entre as folhas da árvore, e em troca faz-me tão bem recordar um tema de Mozart que me acompanhou desde sempre, o movimento inicial do quarteto A caça, a evocação do halali na mansa voz dos violinos, essa transposição de uma cerimónia selvagem para um claro gozo imaginário. Penso-o, repito-o, trauteio na memória e sinto ao mesmo tempo como a melodia e o desenho da copa da árvore contra o céu se vão aproximando, travam amizade, se tacteiam e outra vez até que de súbito o desenho se ordena na presença visível da melodia, um ritmo que sai de um ramo baixo, quase à altura minha cabeça, eleva-se e abre-se como um leque de hastes, enquanto o segundo violino é esse ramo mais delgado que se justapõe para confundir as suas folhas num ponto à direita, até ao final da frase, e deixá-la terminar para que o olho desça pelo tronco e possa, se quiser, repetir a melodia. E tudo isso é também a nossa rebelião, é o que estamos fazendo ainda que Mozart e a árvore não possam sabê-lo, também nós à nossa maneira quisemos transpor uma torpe guerra para uma ordem que lhe dê sentido, a justifique e em última análise a leve a uma vitória que seja como a restituição de uma melodia depois de tantos anos de roucas trompas de caça, que seja esse allegro final que sucede ao adágio como um encontro com a luz. O que se divertiria Luís se soubesse que neste momento o estou comparando com Mozart, vendo-o ordenar pouco a pouco esta insensatez, elevá-la até à sua razão primordial que aniquila com a sua evidência e a sua grandiosidade todas as prudentes razões temporais. Mas que amarga, que desesperada tarefa a de ser músico de homens, por cima da lama e da metralha e do desalento, urdir esse canto que julgámos impossível, o canto que travará amizade com a copa das árvores, com a terra devolvida aos seus filhos. É da febre. E como riria Luís ainda que também a ele lhe agrade Mozart.
E assim finalmente hei-de dormir, mas antes darei comigo a perguntar-me se algum dia saberemos passar do movimento onde ainda soa halali do caçador, a conquistada plenitude do adágio e daí ao allegro final que trauteio em voz baixa, se seremos capazes de conseguir a reconciliação com tudo o que tenha ficado vivo frente a nós. Teríamos que ser como Luís; não apenas consegui-lo, mas ser como ele, deixar para trás o ódio e a vingança, olhar o inimigo como o olha Luís, com uma implacável magnamidade que tantas vezes suscitou na minha memória ( mas isto, como dizê-lo a alguém? ) uma imagem do pantocrator, um juiz que começa por ser acusado e a testemunha e cujo julgamento não se limita a separar as terras das águas para que por fim nasça uma pátria de homens num amanhecer enevoada nas margens de um tempo límpido. »


Excerto de " Reunião ", de Julio Cortázar, Trd. Carlos Barata


" La chasse " ( Allegro) de Mozart
« A verdade é que não me importa entender as mulheres, a única coisa que interessa é que gostem de nós.»



In " A menina Cora ", de Julio Cortázar, Trd. Carlos Barata

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

« Às vezes tenho a sensação de que nada do que acontece acontece, porque nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências se vai anulando e negando a si mesma na sua aparente repetição até que nada é nada nem ninguém é ninguém que tivesse sido antes, e a débil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e vêem e sabem o que não se diz nem tem lugar nem é cognoscível nem comprovável. O que se dá é idêntico ao que não se dá, o que rejeitamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e, no entanto, a vida vai-se-nos e vai-se-nos a vida em escolher e rejeitar e seleccionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça da nossa história uma história única que recordemos e possa contar-se. Revolvemos toda a nossa inteligência e os nossos sentidos e o nosso afã na tarefa de discernir o que será igualizado, ou já o está, e por isso estamos cheios de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações e ocasiões aproveitadas, quando a verdade é que nada se afirma e tudo se vai perdendo. Ou talvez nunca tenha havido nada. »

Excerto de " Coração tão branco ", de Javier Marías, Trd. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Ed. Relógio d` Água, 1994


A alma do deserto

" Noivos ao Vento "



Serralves, Festa do Outono, 27/09/2009
" Noivos ao Vento ", peça de teatro concebida e interpretada por Isabel Costa e Filipe Caco( Corda Bamba)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Esperança

















Fotografia sobre fotografia de Helena Almeida, exposta no Museu de Serralves







Estado de merda

" Lata de merda " de Piero Manzoni


Este é o meu estado actual. Invadido por tormentosas diarreias com origem no sistema nervoso central. Impotente perante os acontecimentos ou não-acontecimentos sucessivos. Neste estado de quase letargia, naturalmente, a merda percorre o meu corpo, misturando-se com a impura água, onde navega livremente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

The xx -" Basic Space "

The xx - "Crystalised"

«Se fosse um rapaz modesto e aplicado, em lugar de me deixar cair tão depressa teria começado por deplorar a imperfeição do meu olhar. Mas a dor de ter sido tão cruelmente frustrado na minha espera de algo que tanto ambicionava esvaziou o meu coração de todas as suas outras preocupações.»

Excerto de " O Templo Dourado ", de Yukio Mishima, Trd. Filipe Jarro, Ed. Assírio e Alvim, 1985

terça-feira, 8 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

« Pensou na mãe. Nunca mais deixaria que ela o beijasse. Lembrou-se de que ela costumava dizer-lhe que neste mundo todos eram bons, porque tinham alma e a alma era inteiramente boa; o mal vinha sempre do exterior. E disso também ele estivera sempre convencido, mesmo até meses depois de ter casado com Miriam e de querer matar-lhe o amante. Nisso acreditava ainda, quando ia no comboio a ler Platão. Mas agora parecia-lhe que o amor e o ódio, o bem e o mal viviam lado a lado no coração humano e que não havia diferença de um homem para outro. Em todos se encontrava bondade e maldade. Bastava observá-los com um pouco de atenção, raspar à superfície. Todas as coisas tinham direito e avesso. Para cada animal, havia outro que o destruía; o macho, a fêmea; o positivo, o negativo. A descarga atómica era a única destruição verdadeira, a transgressão da lei universal da unidade. Não podia existir nada em que não houvesse antagonismo. Podia acaso existir espaço num edifício, sem objectos que o limitassem? E energia sem matéria, ou matéria sem energia? Matéria e energia, o inerte e o activo, dantes considerados opostos, sabia-se agora que eram uma e a mesma coisa. »


Excerto de " O Desconhecido do Norte-Expresso "(Strangers on a Train-1950) de Patricia Highsmith, Trd. Elisa Lopes Ribeiro, colecção 9 mm, Ed. Público, 2005

A propósito dos incêndios






















O avião(aviões), andou, desde o nascer do Sol até ao pôr do mesmo, a "regar" o incêndio. Sem sucesso. As chamas alimentadas pelas lágrimas vindas do ar, devoraram pinheiros e mato.
Durante o dia, os aviões, produziram belas imagens que mexeram com a modorra dos habitantes das regiões próximas. A canícula, o isolamento, a falta de divertimentos fez com que todas as atenções se virassem para o céu. Regadas a Super-Bock. Alguém se atirou para o pequeno tanque do fontanário, quase seco. E os outros foram dando vivas à terra, à passagem(ou ao som) dos pássaros do ar.
A tristeza de uns foi o divertimento de outros.
O empobrecimento de alguns foi o lucro de outros. Um, dois, ou três aviões fazendo várias viagens durante todo o dia, abriram o seu ventre, e ajudaram a alimentar o fogo, que só se apagou, quando a natureza disse basta.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

domingo, 23 de agosto de 2009

Desejo adolescente

Excerto de " Amarcord ", de Frederico Fellini

Marie-Louise O'Murphy, amante de Luís XV, pintura de François Boucher
« Não é possível dominar dominar completamente a mulher e o desejo da mulher. Falo de desejo no sentido mais vasto. Ao passo que é possível dominar o desejo do homem.
Por isso é que as mulheres são mais interessantes, porque há sempre linhas de fuga, e daí a velha ideia de que a mulher é volúvel ou doida. São indicações de qualquer coisa no desejo que escapa a um padrão. »

José Gil, a partir de uma conversa com Ana Sousa Dias, publicada no seu artigo " o que sei sobre as mulheres ", Pública de 23/08/2009
« O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão práctica do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir. »


Excerto de " Livro do Desassossego ", de Fernando Pessoa, Ed. Richard Zenith para a Assírio & Alvim

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lee Fields

Judy Dater

" Imogen et Twinka "(1974)
" Sabine "(1973)

Ler aqui entrevista a Judy Dater, por Paul Karlstrom. Realizada em 02/06/2000.

La Santa Sede*



















«El caso es que la sodomía tiene muchos adeptos entre los chicos heterosexuales (o pretendidamente heterosexuales, vete tú a saber...). A mí, de hecho, me lo han propuesto tantas veces que una vez, por pura curiosidad, piqué. Cierto es que no teníamos lubricante, ni experiencia, ni mucho acierto, pero... ¡qué dolor! al principio. Luego, es cierto que el morbo suplía la ausencia de placer, pero echando cuentas, siento que no me compensa. Así es que, lo siento mucho: nunca mais, muchas gracias por probar. Y, desde entonces, jamás he repetido, aunque les haya fastidiado un poco a todos y cada uno de mis novios, novietes, amantes habituales, amantes ocasionales y follamigos que, salvo Pepe el okupa, me lo han pedido repetidas veces.» continuar a ler aqui.
*Pandora Rebato, El Mundo, 21/08/2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

«- Se Clinton lhe tivesse ido ao cu, talvez ela tivesse calado a boca. Bill Clinton não é o homem que dizem ser. Se a tivesse virado de barriga para baixo no Salão Oval e lhe tivesse ido ao cu, nada disto teria acontecido.
- Bem, ele nunca a dominou. Jogou pelo seguro.
- Sabes, depois de chegar à Casa Branca o tipo deixou de dominar. Não podia. Também não dominou a Willey. Foi por isso que ela ficou fula com ele, Quando se tornou presidentes perdeu o seu talento arkansiano típico para dominar mulheres. Enquanto foi procurador-geral e governador de um pequeno estado obscuro, dominar era perfeito para ele.
- Sem dúvida. Basta pensar na Gennifer Flowers.
- O que acontece no Arkansas? Se um tipo cai quando ainda se encontra lá, não cai de muito alto.
- Exactamente. E calcula-se que tenha tara pelo cu. É uma tradição.
- Mas quando chega à Casa Branca, não pode dominar. E quando não pode dominar, Miss Willey vira-se contra ele, e Miss Monica vira-se contra ele. Teria garantido a lealdade dela se lhe fosse ao cu. O pacto devia ter sido esse. Isso tê-los-ia ligado. Mas não houve pacto.
- Bem, ela assustou-se. Sabes bem que esteve prestes a não dizer nada. Starr esmagou-o. Onze gajos na sala com ela naquele hotel, já imaginaste? A massacrá-la? Foi uma geraldina. Uma violação colectiva encenada por Starr naquele hotel.
- Isso é verdade. Mas ela já andava a falar com Linda Tripp.
- Ah, sim.
- Andava a falar com toda a gente. Pertence àquela cultura idiota do blá-blá-blá. A esta geração que se orgulha da sua superficialidade. A sinceridade é tudo. Sincera e vazia, totalmente vazia. A sinceridade que dispara em todas as direcções. A sinceridade que é pior que a falsidade e a inocência que é pior do que a corrupção. Toda a rapacidade oculta sob o manto da sinceridade. E do jargão. Aquele vocabulário maravilhoso de todos eles, e em que parecem acreditar, a respeito da «falta de mérito próprio», quando na realidade estão sempre convencidos de que têm direito a tudo. Chamam carinho ao descaramento e mascaram a desumanidade de perda de «auto-estima». Hitler também tinha falta de auto-estima. Esse era o problema dele. É uma farsa, o que esses miúdos armaram. A hiperdramatização das emoções mais insignificantes. Relação. A minha relação. Clarificar a minha relação. Quando abrem a boca apetece-me amarinhar pelas paredes. Toda a linguagem deles é um somatório da estupidez dos últimos quarenta anos. Conclusão. Eis um dos chavões. Os meus alunos não podem permanecer no lugar onde o pensamento deve ocorrer. Conclusão! Fixam-se na narrativa convencionalizada com o seu princípio, o seu meio e o seu fim. Qualquer experiência, por muito ambígua, intrincada ou misteriosa que seja, tem de se prestar a esse lugar-comum normalizante e convencionalizante de pivô de televisão. Chumbo qualquer miúdo que peça conclusão. Querem conclusão? Eu dou-lhes a conclusão.»


Excerto de " A mancha branca ", de Philip Roth, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues

Jornal do Cuto
















Guardo religiosamente os meus exemplares do Jornal do Cuto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sometimes I Wish We Were an Eagle



Eid Ma Clack Shaw

Jim Cain

Sometimes I Wish We Were an Eagle é o segundo albúm a solo de Bill Callahan(Smog).

Jim Cain

Graciela Iturbide



Ver aqui biografia e mais fotografias no site Amber Online.

Too Many Birds

Too many birds




Too many birds in one tree
Too many birds in one tree
And the sky is full of black and screaming leaves
The sky is full of black and screaming


And one more bird
Then one more bird
And one last bird
And another


One last black bird without a place to land
One last black bird without a place to be
Turns around in hopes to find the place it last knew rest
Oh black bird, over black rain burn
This is not where you last knew rest
You fly all night to sleep on stone
The heartless rest that in the morn, we'll be gone
You fly all night to sleep on stone, to return to the tree with too many birds
Too many birds
Too many birds


If...
If you...
If you could...
If you could only...
If you could only stop...
If you could only stop your...
If you could only stop your heart...
If you could only stop your heart beat...
If you could only stop your heart beat for...
If you could only stop your heart beat for one heart...
If you could only stop your heart beat for one heart beat.


Fotografia de Graciela Iturbide, música " Too many birds " de Bill Callahan

domingo, 16 de agosto de 2009

Doce da Teixeira


O doce da Teixeira é um ícon de Agosto. Todas as festas têm a sua presença e o seu odor a limão. Vendido por mulheres robustas e ruborizadas, que nos desafiam com a sua língua afiada, ao mínimo olhar de soslaio para o cesto dos doces.
Quando era pequeno, aguardava impacientemente que o meu avô materno viesse da festa com o desejado doce. Era um ritual. Nunca falhou. Com a sua morte e com o apurar do gosto fui desejando outras guloseimas.
Ontem segui alguns dos seus rituais: ouvi as bandas filármonicas e comprei o doce da Teixeira que de imediato levei à boca, relembrando sabores e memórias.

Meu querido mês de Agosto*

A música das moscas

Começa o meio de Agosto e são as festas em toda a parte. De Senhoras nossas. Da Agonia; da Assunção; do Desespero; da Angústia; da Depressão; das Dores: de todos os castigos imagináveis que possam ajudar a disfarçar o prazer que dão.

É um prazer ouvir a música ao fundo das bandas a ensaiar aqui ao pé, para a festa de amanhã. Das filármonicas mal preparadas que se querem preparar num dia só; das charangas desafinadas que mais ninguém vai ouvir.

Agosto é um mês de partilhas indesejadas. São as pessoas perto de mais. São as estradas e praias que nos fazem sentir parte de um horrendo organismo multicelular. É o bacanal das moscas, esquecidas até do açucar, tal é a febre pela marmelada. Mas, tal com no amor, não é por uma coisa ser indesejada que é desnecessária.

Ouço a filármonica a deglutir a melodia, já de si escassa, do Malhão, Malhão e, atrás da nuvem de moscas, ainda consigo vislumbrar o coreto onde tudo se vai passar. Aqui ao pé, mas longe de mim. E chego a esta chocante conclusão: afinal gosto. Sem participação e com queixume entredentes, a proximidade destas coisas celebratórias até comove um bocadinho. É como se estivéssemos lá sem termos de lá estar. É como concordar que é melhor ser humano a aturar as moscas do que ser mosca a aturar seja o que for.

Faz-nos bem estarmos perto, estando separados. São os erros dos músicos coagidos que tornam bonito o assassinato musical que cometem.

Miguel Esteves Cardoso, Público, 16/08/2009


*Dino Meira - " Meu querido mês de Agosto "

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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