Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

sábado, 1 de março de 2008

So young

Suede -" So Young "

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Animais....!

Fotografia de Alfredo Cunha

" Se existissem domínios mais sombrios da noite ele tê-los-ia descoberto. Jazendo com os dedos enfiados nos ouvidos para não esquecer o chilreio estridente dos miríades de grilos negros com quem partilhava a choupana de paredes nuas. Uma noite, meio adormecido na enxerga, ouviu algo galopar pelo quarto e saltar fantasmagoricamente ( viu ele, enquanto lutava para se erguer) pela janela aberta. Ficou sentado buscando em volta com o olhar mas o vulto tinha desaparecido. Conseguia ouvir cães de caça gritando a plenos pulmões, lamentos torturados e latidos quase de agonia vindos do ribeiro, subindo o vale. Inundaram o pátio da choupana num pandemónio de uivos em soprano e arbustos entrechocando-se. Ballard, nu e de pé, viu à ténue luz das estrelas a porta da frente encher-se da soleira para cima com cães vociferando. Ali ficaram por um momento numa moldura palpitante de pelagens malhadas e depois arquearam-se para a frente e encheram o quarto, descreveram um círculo num crescendo de corpos entrelaçados e depois precipitaram-se de roldão pela janela fora entre uivos dissonantes, arrastando primeiro os pinázios, a seguir o caixilho, deixando um buraco quadrado e nu na parede e um tinido nos ouvidos de Ballard. Enquanto ele ali estava praguejando mais dois cães entraram pela porta. Pontapeou um ao passar, enterrando-lhe os dedos nus no quadril ossudo. Estava aos saltos, guinchando agarrado ao pé, quando um último cão entrou no quarto. Caiu sobre ele e agarrou-lhe uma pata traseira. O animal lançou um uivo penoso. Ballard golpeou-o cegamente com o punho fechado, pancadas fortes e insistentes que ecoaram no quarto quase vazio por entre imprecações e queixumes desesperados."

Excerto de " Filho de Deus ", de Cormac McCarthy, Trd. Paulo Faria

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Para relembrar constantemente

Fotografia de João Silva,publicada no New York Times de 11/10/2007


Tom Zé e Jarbas Mariz cantam Companheiro Bush

Recordações




Sinatra & Bono -" I've got you under my skin "






Tom Zé -" Augusta, Angélica e Consolação "

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Coisas sentidas mas sem sentido

" O inferno " - Gustave Doré


Bauhaus -" Ziggy Stardust "

É preciso sonhar

Ennio Morricone - "Love Theme" do filme "Cinema Paradiso"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

I'm A Beleiver

Robert Wyatt -" I'm A Beleiver "

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Ophélia


On the calm black water where the stars are sleeping

White Ophelia floats like a great lily;

Floats very slowly, lying in her long veils...

- In the far-off woods you can hear them sound the mort.

For more than a thousand years sad Ophelia

Has passed, a white phantom, down the long black river.

For more than a thousand years her sweet madness

Has murmured its ballad to the evening breeze.

The wind kisses her breasts and unfolds in a wreath

Her great veils rising and falling with the waters;

The shivering willows weep on her shoulder,

The rushes lean over her wide, dreaming brow.

The ruffled water-lilies are sighing around her;

At times she rouses, in a slumbering alder,

Some nest from which escapes a small rustle of wings;

- A mysterious anthem falls from the golden stars.


II

O pale Ophelia! beautiful as snow!

Yes child, you died, carried off by a river!

- It was the winds descending from the great mountains of Norway

That spoke to you in low voices of better freedom.

It was a breath of wind, that, twisting your great hair,

Brought strange rumors to your dreaming mind;

It was your heart listening to the song of Nature

In the groans of the tree and the sighs of the nights;

It was the voice of mad seas, the great roar,

That shattered your child's heart, too human and too soft;

It was a handsome pale knight, a poor madman

Who one April morning sate mute at your knees!

Heaven! Love! Freedom! What a dream, oh poor crazed Girl!

You melted to him as snow does to a fire;

Your great visions strangled your words

- And fearful Infinity terrified your blue eye!


III

- And the poet says that by starlight

You come seeking, in the night, the flowers that you picked

And that he has seen on the water, lying in her long veils

White Ophelia floating, like a great lily.


Arthur Rimbaud


Peter Hammill - "Ophelia" (ao vivo em Itália,1983)

Divertimento puro: a minha costela (Pop)adolescente

Vampire Weekend -" A-Punk "

A musa venal



Musa do meu amor, ó principesca amante,
Quando o inverno chegar, com seus ventos irados
Pelos longos serões, de frio tiritante,
Com que hás de acalentar os pésitos gelados?
Tencionas aquecer o colo deslumbrante
Com os raios de luz pelos vidros filtrados?
Tendo a casa vazia e a bolsa agonizante
o ouro vais roubar aos céus iluminados?
Precisas, para obter o triste pão diário,
Fazer de sacristão e de turibulário,
Entoar um Te-Deum, sem crença nem favor,
Ou, como um saltimbanco esfomeado, mostrar
As tuas perfeições, através d'um olhar
Onde ocultas, a rir, o natural pudor!
" A musa venal ", de Charles Baudelaire, Trd.Delfim Guimarães

Simbiose (im)perfeita

Elvis Costello e Fiona Apple - "Shabby Doll "

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A vida não pára

Lenine - " Paciência "

" De súbito uma força desconhecida atingiu-o no peito e no flanco, oprimindo-lhe ainda mais a respiração, caiu no buraco e ali, no fundo do buraco, qualquer coisa começou a brilhar. Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção.

- Sim, nada foi como devia ser - disse a si mesmo. - Mas não importa. É possível, «isso» pode fazer-se. Mas «isso» é o quê? - perguntou a si mesmo e sossegou. "

Excerto de " A morte de Ivan Ilitch ", de Lev Tolstoi, Trd. António Pescada


Monty Phyton - Funeral de Graham Chapman (legendado)

Marjane Satrapi, uma mulher no Irão





" Não sou, de todo, uma pregadora e é por isso que faço arte e também não gosto de pregadores. Enquanto artistas, o nosso dever é levantarmos questões para mostrar que a situação é complexa. Pomos cada pessoa perante um dado e ela que se encarregue de julgar. Não somos portadores de respostas, e nesse sentido este não é um filme revolucionário. Coloca perguntas sobretudo num plano humano. Hoje, falamos de ocidentais e orientais, de muçulmanos e cristãos, mas os cristãos não se parecem todos. Há indivíduos e o indivíduo é a base da democracia. Compreender que um ser humano tem um valor é a base de tudo. É isso que estamos a caminho de perder a grande velocidade. Se há uma mensagem neste filme é, justamente, retomar tudo a um nível individual, humano. A partir daí talvez consigamos fazer a boa pergunta. "

Excerto de entrevista a Marjane Satrapi por Alexandra Lucas Coelho(em Paris), publicada no Ípsilon de 22/02/2008

Olhar a morte com os olhos bem abertos

Charlize Theron


" « Quando eu não existir, o que existirá? Não existirá nada. Pois onde estarei eu quando não existir? Será isso morrer? Não, não quero.»
Levantou-se de um salto, quis acender a vela, procurou-a com as mãos trémulas, derrubou a vela e o castiçal para o chão e deixou-se cair para trás, sobre a almofada. « Para quê? Tanto faz - disse consigo, olhando a escuridão com os olhos muito abertos. - É a morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe, nem quer saber, e não têm pena. Estão a tocar. (Ouvia através da porta o som das vozes e das cantorias.) A eles tanto se lhes dá, mas também eles hão-de morrer. Loucos! Eu antes, eles depois; e também a eles acontecerá. Mas estão alegres. Animais!» Teve um acesso de raiva. E sentiu um mal-estar de agonia, insuportável. Não é possível que todos estejam sempre condenados a este medo horrível. "

Excerto de " A morte de Ivan Ilitch ", de Lev Tolstoi, Trd. António Pescada

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Para não cair no esquecimento

Bósnia, 1983-Fotografia de James Nachtwey


" Somos virgens no horror como na volúpia. Poderia eu suspeitar desse horror ao deixar a Praça de Clichy? Quem saberia prever, antes de entrar verdadeiramente na guerra, tudo quanto esconde a alma sórdida, heróica e preguiçosa dos homens? Nesse momento eu era arrastado por uma fuga em massa para a chacina geral, para o fogo... Que tinha subido das profundezas e acabara por chegar. "

Excerto de " Viagem ao fim da noite ", de Céline, Trd. Aníbal Fernandes




John McCain é o Dr. Strangelove

A sedutora

Monica Vitti seduz Marcello Mastroianni, no filme " A noite ", de Michelangelo Antonioni

Excertos da banda sonora da minha adolescência

Boney M -" Rivers of Babylon "


Boney M - "Daddy Cool "

Já não era adolescente e ainda continuo adolescente

The Cure -" A forest "

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O medo, o terror, o pesadelo, a privação da liberdade

" Assim se arrastam as nossas noites. O sonho de Tântalo e o sonho do conto inserem-se numa teia de imagens mais indistintas: o sofrimento do dia, feito de fome, pancadas, frio, fadiga, medo e promiscuidade, transforma-se de noite em pesadelos sem forma, de uma indescritível violência, que na vida livre acontecem somente nas noites de febre. Acorda-se a cada instante, gelado pelo terror, com um sobressalto de todos os membros, sob a impressão de uma ordem gritada por uma voz cheia de ira, numa língua incompreensível. "

Excerto de " Se isto é um homem ", de Primo Levi,Trd. Simonetta Cabrita Neto

Desejar e regeitar

Flaming Lips num episódio da série de Tv" Charmed "

Dedicatória


Fiona Apple e Elvis Costello cantam " Tymps"

Semelhanças

Buddy Holly and The Crickets -" Oh Boy! "


Elvis Costello -" Pump it up "

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mais uma vez, o medo

" Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissese que ele acordava, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhava os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meio mãe, meio amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida, mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio."

Excerto de "Uns braços", de Machado de Assis

" Cry Baby "



´


Janis Joplin -" Cry Baby "(ao vivo em Toronto 1970)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O medo de existir

Excerto de " Lost in Translation ", de Sofia Coppola

" Lóri sempre se espantava de como Ulisses a conhecia. Mas apesar de ele poder compreender, receava sua censura ou que ele desanimasse e a abandonasse, e nunca lhe dissera que o «mal» muitas vezes voltava: o ar dentro dela tinha então cheiro de poeira molhada. Vai recomeçar, meu Deus? Perguntava-se então. E reunia toda a sua força para parar a dor. Que dor era? A de existir? A de pertencer a alguma coisa desconhecida? A de ter nascido?"

Excerto de " Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector

Temo-nos temido um ao outro

" Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo."

Excerto de " Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres", de Clarice Lispector

" Dream Baby Dream "

Bruce Springsteen -" Dream Baby Dream "


Suicide -" Dream Baby Dream "

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Provocar emoções com a voz

This Mortal Coil -" Song to the Siren "original de Tim Buckley

Viver, viver intensamente

" Mylia encostava-se ao calor de Theodor como apenas o fazia com a mãe. O que Mylia desenvolvera por si, na sua solidão, era o toque nas coisas materiais, nas coisas que não falam. Tocava nelas obscenamente, se assim se pode designar o cruzamento da mão de um ser humano com uma mesa, por exemplo, ou mesmo com a falha na madeira de uma mesa.
- Não é correcto tocares assim nas coisas - dizia-lhe a mãe.
- Então, como se toca ?
- Com menos força, agarrando menos. Não te envolvas tanto.
O que a mãe não lhe dizia, mas outros sim, era que ela agarrava nas coisas como se estivesse excitada, como se agarrasse um homem. Havia pois um pudor familiar evidente naquela frase quase técnica:
- Não é correcto tocares assim nas coisas. "


Excerto de " Jerusalém ", de Gonçalo M. Tavares, Ed. Caminho, 2005

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Penetrar no outro

"Lucretia"por Lucas Cranach(1535)

Memórias tocantes (1)

Kevin Ayers - "My I ?"

" I Want You "


Fiona Apple covers "I Want You" with Elvis Costello

Dedicada a alguém que não conheço.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

The Stranglers -" No More Heroes "

"Whatever happened to Leon Trotsky?

He got an ice pick

That made his ears burn

Whatever happened to dear old Lenin?

The great Elmyra, and Sancho Panza?

Whatever happened to the heroes?

Whatever happened to the heroes?

Whatever happened to all the heroes?

All the Shakespearoes?

They watched their Rome burn

Whatever happened to the heroes?

Whatever happened to the heroes?

No more heroes any more

No more heroes any more

Whatever happened to all the heroes?

All the Shakespearoes?

They watched their Rome burn

Whatever happened to the heroes?

Whatever happened to the heroes?

No more heroes any more

No more heroes any more "

Caetano Veloso -" Livros "

Douglas Sirk (6)

" Injustamente acusado de ironizar a realidade, Sirk tenta acima de tudo mostrá-la como é, exagerando nos tons mas mantendo a verdade, por muito simples ou novelesca que pareça. No fundo, é uma profunda operação estética, de imagem e conteúdo, muitas vezes nascendo de romances ou filmes secundários, de alguém que teve, como é fácil de notar, algum encantamento pelo lado mais romântico e até dramático da América de então."

Excerto do artigo " As cores do melodrama ", de Pedro Santos, publicado na Revista Op. Nrº 25/Inverno de 2007

Douglas Sirk (5)


Imitation of Life - directed by Douglas Sirk 1959 With Lana Turner, John Gavin, Susan Kohner, Sandra Dee - Susan Kohner was born on November 11, 1936 in Los Angeles, California. Her mother was actress Lupita Tovar, a successful performer from the 1930's and it was only natural that for Susan to gravitate toward acting. Her first role was in To Hell and Back (1955) in 1955. One more film in 1956 and one in 1957 brought her to the attention of producers in the movie industry. Susan made four in 1959. The best of the lot was Imitation of Life (1959), a film starring Lana Turner and Sandra Dee. It was a dual story of Lana portraying a struggling actress and Susan as Sara Jane, struggling with the fact that although she appeared white, her mother was black. Susan's role as a young woman trying to cope in the white world while hiding the fact she was black was enough to win her an Academy Award nomination as Best Supporting Actress. Unfortunately, Susan lost out to Shelley Winters in The Diary of Anne Frank (1959). After appearing in Freud (1962) in 1962, Susan left films for good with the exception of appearing in the television program "Temple Houston" (1963) in 1963. She wed John Weitz in 1964 and retired to raise a family.

This glamorized remake of the 1934 film Imitation of Life bears only a passing resemblance to its source, the best-selling novel by Fannie Hurst. Originally, the heroine was a widowed mother who kept the wolf from the door by setting up a successful pancake business with her black housemaid. In the remake, Lana Turner stars as a would-be actress who is raising her daughter on her own. She chances to meet another single mother at the beach: African-American Juanita Moore. Moore goes to work as Turner's housekeeper, bringing her light-skinned daughter along. As Turner's stage career goes into high gear, Moore is saddled with the responsibility of raising both Turner's daughter and her own. Exposed to the advantages of the white world, Moore's grown-up daughter (Susan Kohner) passes for white, causing her mother a great deal of heartache. Meanwhile, Turner's grown daughter (Sandra Dee), neglected by her mother, seeks comfort in the arms of handsome photographer John Gavin. When Moore dies, her daughter realizes how selfish she's been; simultaneously, Turner awakens to the fact that she hasn't been much of a mother for her own daughter, whose romance has gone down the tubes.

Douglas Sirk (4)


Has Anyone Seen My Gal? - Directed by Douglas Sirk - 1952 with Charles Coburn, Lynn Bari, Larry Gates, Piper Laurie, Rock Hudson - Douglas Sirk directed this frothy musical comedy set in the 1920s starring Charles Coburn as Samuel Fulton, an elderly man with a multi-million dollar fortune. With no family of his own to whom he can leave his money, Fulton is pondering what to do with his estate. Years ago, he was in love with a woman named Harriet, whom he asked to marry. She turned him down and married another someone else, but he's still fond of her and considers leaving his millions to her family. However, Fulton decides to first give them a test. Posing as an eccentric and threadbare artist, he rents a room from Harriet (Lynn Bari) and her husband Charles (Larry Gates). He then arranges for an anonymous gift of $100,000 to be presented to them so that he can watch their reactions. Sadly, things don't go well; Harriet browbeats the rest of the family into moving into a mansion and tries to convince her daughter Millicent (Piper Laurie) to break up with her boyfriend, poor but good-hearted soda jerk Dan (Rock Hudson), in favor of a wealthier and more socially prominent man. Songs include "Tiger Rag," "When the Red, Red Robin Comes Bob-Bob-Bobbin' Along," "It Ain't Gonna Rain No More," and "Gimme a Little Kiss, Will Ya, Huh?" James Dean has a tiny part as a customer at the soda fountain; it was his first appearance onscreen.

Douglas Sirk (3)

All That Heaven Allows directed by Douglas Sirk 1955 with Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorehead, Conrad Nagel, Virginia Grey. One of director Douglas Sirk's best and most successful romantic soapers of the 1950s, All That Heaven Allows is predicated on a May-December romance. The difference here is that the woman, attractive widow Cary Scott (Jane Wyman), is considerably older than the man, handsome gardener-landscaper Ron Kirby (Rock Hudson). Sirk builds up sympathy for Cary by showing how empty her life has been since her husband's death, even suggesting that the marriage itself was no picnic. Throwing conventionial behavior to the winds and facing social ostracism, Cary pursues her romance with Ron, who is unjustly perceived as a fortune-hunter by Cary's friends and family--especially her priggish son Ned (William Reynolds). Amusingly, Conrad Nagel was to have had a much larger part as Harvey, an elderly widower who carries a torch for Cary, but his role was trimmed down during previews when audiences disapproved of an implicit romance between a sixtyish man and a fortysomething woman! All That Heaven Allows was remade by unabashed Douglas Sirk admirer Rainer Werner Fassbinder as Ali--Fear Eats the Soul (1974), in which the age gap between hero and heroine was even wider.

Douglas Sirk (2)

Written on the Wind - Directed by Douglas Sirk 1956 with Dorothy Malone, Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack - Perhaps the definitive Douglas Sirk production, Written on the Wind is based on the novel by Robert Wilder. The story revolves around the Hadleys, a wealthy but thoroughly debauched family of Texas oil millionaires. Robert Stack is self-destructive alcoholic Kyle Hadley, while Dorothy Malone won an Oscar for her equally vivid potrayal of Kyle's nymphomaniac sister Marylee. Kyle manages to win beautiful, level-headed advertising executive Lucy Moore (Lauren Bacall) away from his best friend, virile Hadley Oil geologist Mitch Wayne (Rock Hudson), but Lucy soon comes to regret her decision to marry into the hell-on-earth Hadley family. When Lucy becomes pregnant, Kyle assumes that Mitch is the father, leading to a maelstrom of fever-pitch emotionalism and stark tragedy. Before he quite knows what is happening, Mitch is on trial for murder; the one person who can clear him is the craven Marylee, who demands Mitch's sexual favors as the price for her testimony.

Douglas Sirk (1)

The Tarnished Angels - Directed by Douglas Sirk 1957 with Rock Hudson, Dorothy Malone, Robert Stack, Jack Carson, Robert Middleton - William Faulkner's novel Pylon was optioned by Universal producer Albert Zugsmith, who used it as the source for his 1957 production The Tarnished Angels. Robert Stack is a disillusioned World War One ace eking out a living as a barnstorming pilot/parachutist during the early 1930s. New Orleans newspaperman Rock Hudson runs across Stack at a two-bit carnival. He becomes fascinated with Stack's fall from grace, and latches onto him. As he is drawn into Stack's iconoclastic, individualistic lifestyle, Hudson finds he is also drawn to the pilot's long-suffering wife, Dorothy Malone. Jack Carson is on hand as Stack's chief mechanic, whose anger over the pilot's abusive treatment of Malone explodes into tragedy.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Karen Dalton -" It Hurts Me Too "

O regresso do Western

3:10 to Yuma Official Trailer


3:10 To Yuma (The Original)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A tensa alegria da noite de sábado

Tom Waits - Heart Attack and Vine

" Ao descer a rua sentia nos calcanhares a leveza da tensa alegria da noite de sábado. Andava toda a gente cá fora! Quase esperava ver Brock a espreitar da esquina onde costumava postar-se com os amigos, e não ficaria surpreendida se visse o pai sentado à porta de uma loja qualquer com os braços pendentes entre os joelhos, vencido, um náufrago, a dormir de de olhos abertos. Não os viu mas viu toda a gente conhecida. Com as pantorrilhas enrijadas pela pressão sobre a chateza quente e resistente do passeio, do passeio de toda a gente, Loretta sorria e trocava saudações com as pessoas que tinham vindo arejar depois de jantar - conhecia toda a gente e toda a gente conhecia Loretta. O bairro não era mau de todo. Sua mãe odiara-o, mas a vizinhança não era má; as pessoas gostavam muito simplesmente de passear um pouco e de se descontrair depois de uma longa semana, e às vezes metiam-se em sarilhos, mas isso era coisa de pouca dura. Não havia nada de reprovável nesses conflitos."

Excerto de " Eles ", de Joyce Carol Oates, Ed. Livraria Civilização,Trd. Daniel Augusto Gonçalves,1974

sábado, 5 de janeiro de 2008

domingo, 30 de dezembro de 2007

Os beijos cheios de paixão

" Os beijos cheios de paixão, diferentes de todos os que recebera, fizeram-lhe esquecer, de repente, que ele amava, talvez, outra mulher. Pouco depois, aos seus olhos já não era culpado. O cessar da dor pungente, vinda da suspeita, a presença de uma felicidade que ela nem sequer nunca sonhara deram-lhe exaltações de amor e de alegria louca. Aquela noite foi encantadora para todos, menos para o presidente de Verrières, que não podia esquecer os seus industriais enriquecidos. Julião não pensava já na sua negra ambição, nem nos seus projectos tão difíceis de executar. Pela primeira vez na sua vida era arrastado pelo poder da beleza. Partido num sonho vago e doce, tão estranho ao seu carácter, apertando devagarinho aquela mão que lhe agradava como uma beleza perfeita, escutava o movimento das folhas de tília, agitadas pela leve brisa da noite, e os cães do moleiro do Doubs, que ladravam ao longe. Mas esta emoção era um prazer e não uma paixão. Ao entrar no seu quarto pensou apenas numa felicidade: a de voltar a pegar no seu livro favorito; aos vinte anos a ideia do mundo e do efeito a produzir nele sobrepõe-se a tudo. "

Excerto de " O vermelho e o negro ", de Sthendal, Trd. Maria Manuel e Branquinho da Fonseca, Ed. RBA Editores,1994

"Devagar e Sempre" - Pixinguinha

Roda de Choro, num sábado de manhã tocando Devagar e Sempre de Pixinguinha, na loja Ao Bandolim de Ouro.

Almeida Junior


Almeida Junior, um dos maiores pintores brasileiros do século XIX. Ver aqui, mais pinturas presentes em exposição realizada em S.Paulo.

Segredos íntimos


Ler aqui, artigo publicado na Revista Entre Livros.

Balanços de 2007 (4)


O balanço de 2007, por Francisco José Viegas, no blogue " A origem das espécies ", aqui, aqui, e aqui.

Balanços de 2007 (3)


sábado, 29 de dezembro de 2007

Balanços de 2007 (2)




Anais Mitchell -" Old Fashioned Hat "

Os dez melhores discos, nacionais e internacionais, para o Blogue do JL.

Balanços de 2007 (1 )

Os dez livros do ano, para o suplemento Babelia do jornal El País.

"Exit Music "(for Donnie Darko) - Radiohead

Aqui não há inocentes

" - Ai de quem me diga que alguém é inocente. Tudo menos isso. Porque aqui não há inocentes. Ninguém está aqui por acaso. Quem atravessou o portão deste Pátio não é inocente. Fez qualquer coisa de mal, mesmo que tenha sido em sonhos. Ou pelo menos, a sua mãe, quando o paria, pensou em qualquer coisa de mal. Cada um, claro, diz que não é culpado, mas, em todos estes anos que aqui passei ainda não conheci um só caso que tivesse sido para cá trazido sem mais nem menos e sem culpa nenhuma. Quem aqui entra, culpado é ou, no mínimo, passou perto de um culpado. Ffiii! Foram muitos os que soltei, por ordem alheia ou à minha responsabilidade. Mas eram todos culpados. Aqui não há inocentes. Mas há culpados, aos milhares, que não estão aqui e que jamais para cá virão parar, porque se todos os culpados acabassem aqui, este pátio teria de se estender de mar a mar. Eu conheço os homens, são todos culpados, só que nem todos estão destinados a comerem o pão aqui."

Excerto de " O pátio maldito ", de Ivo Andric, Trd. Lucia e Dejan Stankovic,Ed. Cavalo de Ferro,2003

Radiohead - "You"

Morrisey - " Everyday Is Like Sunday "

Gomez -" Machismo "

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

"Roda Viva" - Chico Buarque

Roda Viva

Composição: Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente

Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa

No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda viva

E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente

Até não poder resistir

Na volta do barco é que sente

O quanto deixou de cumprir

Faz tempo que a gente cultiva

A mais linda roseira que há

Mas eis que chega a roda viva

E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata

Não quer mais rodar não senhor

Não posso fazer serenata

A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa

Viola na rua a cantar

Mas eis que chega a roda viva

E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira

Que um dia a fogueira queimou

Foi tudo ilusão passageira

Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa

Faz força pro tempo parar

Mas eis que chega a roda viva

E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante

Roda moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas rodas do meu coração

A consoada

" Sentados à grande mesa, todos riem e galhofam, mas eis que chega o esperado e fiel amigo. Faz-se então o silêncio das grandes ocasiões. Nem palavra, porque a coisa impõe respeito. Enchem-se os pratos desta delícia e é uma refeição inteira, que para ser a preceito apenas se completa com os doces tradicionais desse dia e as frutas secas que também é de uso petiscar - os figos, as passas de uva, as pêras e as ameixas, a noz, a avelã, a amêndoa e o pinhão -, e que, depois do honesto vinho de mesa, fazem boca para os mais apaladados e espirituosos néctares, que no Alto Douro são de se lhe tirar o chapéu. Nisto degenerou a parca ceia de magro, da originária consoada, e temos em boa razão de convir que degenerou bem, evoluiu num mais lato e farto sentido das coisas, quer pela graça sentimental, quer no verdadeiro conteúdo. Dá aprazimento e conforto. Pelo tempo frio come-se melhor. Bênçãos devemos aos céus, quando generosamente as coisas, assim a nosso contento se transformam. E é este o caso."

Excerto de " A consoada ", incluído no " Roteiro Sentimental Douro" de Manuel Mendes, escrito entre 1961/1963 e publicado em 1964 e 1967, reeditado em 2002 pela Afrontamento

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Upperclass Twit (Idiota de Classe Alta do Ano) - Monty Python

Biggus Dickus (A Vida de Brian) - Monty Python

Negativland's Mashin' of the Christ

Devo -" Beautiful World "

Sugarcubes -" Deus "


Imagem captada no blogue Ilustração Portuguesa.

Luís Filipe Meneses e os tubarões

Ler aqui artigo de Rui Ramos, publicado no " Público" de 19/12/2007.

A tragédia de Mayerling na história das moscas*

" Voltando às moscas... Imaginemo-las em plena cópula. Seguramos o mata-moscas, estudamos o melhor ângulo para o balanço. Balançamos. As duas moscas caem no chão, coladas uma à outra. Arremetemos outra vez e elas, sempre coladas, escapam-se antes de o mata-moscas aterrar. O mata-moscas estonteou-as, mas elas resistem, sempre coladas uma à outra: saltam, estebucham, voltam a saltar, porém cada vez mais baixo, mais rente ao chão, asas translúcidas e trementes, estropiadas mas ainda sôfregas, sempre lúbricas até ao derradeiro alento. Mesmo no estertor da agonia, as moscas optam pela paixão da morte conjunta. A tragédia de Mayerling na história das moscas."


* Excerto de " As Contadoras de Histórias", Fernanda Botelho, Biblioteca Prestígio,2001

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Notas sobre a politica e o Estado em Maquiavel -Hannah Arendt


"O primeiro capítulo do Príncipe contém o quadro conceitual principal de toda a obra. O Príncipe é como a condensação dos Discorsi [os Comentários à Primeira Década de Tito Lívio], os Discorsi são um comentário do Príncipe; a ênfase do Príncipe incide nas "monarquias", nos Discorsi, sobre as "repúblicas", mas a monarquia e a república estão presentes nas duas obras. Para Maquiavel é decisivo que ele tenha achado uma nova palavra para designar ambas. Essa palavra é Estado."
Ler aqui texto publicado na revista Lua Nova: Revista de Cultura e Política.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Comparar com o presente(1)

Shape your product future with U.S. Royalite United States Rubber, 1960

Billie Davis - 'Whatcha Gonna Do'

Verão e Amor

Jantzen, 1946 Pete Hawley

Peter and Gordon -" A World Without Love"

Pop Gear - Gold Pants Dance

The Honeycombs in Pop Gear

Consumir sem pensar no dia seguinte

Ethyl Avenue, 1953 Ric Howard (1912-1996)

A felicidade de ter um frigorífico bem recheado

General Electric, 1952

Nick Cave -" The Ship Song "

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

" Liberdade" de Fernando Pessoa

Utopias

Brian Eno & David Byrne - "Mea Culpa "

" - Quando conversar com um proletário, serei vermelho. Agora estou à conversa consigo e digo-lhe: a minha sociedade inspira-se naquela que no princípio do século nono organizou um bandido chamado Abdla-Aben-Maimum. Naturalmente, sem o aspecto industrial que eu confiro à minha e que será forçosamente uma garantia do seu sucesso. Maimum quis fundir os livres pensadores, aristrocatas e crentes de duas raças tão distintas como a persa e a árabe, numa seita na qual implantou diversos graus de iniciação e mistérios. Mentiam descaradamente a toda a gente. Aos judeus prometiam a chegada do Messias, aos cristãos a de Paracleto, aos muçulmanos a de Madhi... foi de tal modo que uma turba de gente com as mais distintas opiniões, situação social e crença, rabalhava em prol de uma obra cujo verdadeiro fim era conhecido por muito poucos. Desta forma Maimum esperava chegar a dominar por completo o povo muçulmano. Escuso de acrescentar que os directores do movimento eram uns cínicos estupendos, que não acreditavam absolutamente em nada. Nós vamos imitá-los. Seremos bolcheviques, católicos, fascistas, ateus, militaristas, em diversos graus de iniciação."

Excerto de " Os sete loucos", de Roberto Arlt, Trd. Rui Lagartinho e Sofia Castro Henriques, Ed. Cavalo de Ferro,2003



Brian Eno & John Cale - "One Word "

"S.Paulo 451" - Belle Chase Hotel

Arizona Dream (Kusturica, 1993) - Talent Show

Bow Wow Wow -" I Want Candy "

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

" Independança " - GNR

" Eis que aterro sobre a data da gravação deste LP. Ouvi pré-misturas, ideias, convivi com problemáticas teóricas de conciliação do que se pretende com o que pode ser feito aqui em Portugal. Discuti. Abri a minha consciência para o GNR. Escutei o Miguel Megre numa inabitual revelação de teclados e absorvi a sua silenciosa sensibilidade. Enfrentei a solidão irónica mas não menos brutal e exacta do Toli e topei um Alexandre Soares sensual, noutra onda, mas sabedor que ele havia criado o GNR: um grupo famoso do rock português, por dois ou três êxitos de malabarismo artístico e melodias persuasivamente comerciais. Porém apercebi-me da nova dimensão do grupo: presenciava a rotura entre o que fora rock imitador e o que poderia ser rock autónomo no domínio da concepção e da curtição, se bem que servo da tecnologia do rock internacional mais avançado. A ideologia da New Wave dominava o conjunto. O GNR avançou com as suas forças de choque: ousou este LP com uma composição de 27 m num só lado do disco, metronomicamente hipnótica, ilustrada de citações do mais up to date Marquis de Sade ou Talking Eno Heads, ambiciosamente jogando com poesia experimental, live in studio, improvisando na cold wave, teoricamente afirmando saber que Berio existe e abominando o "rock português" no sentido em que qualquer revolução clama contra os valores dominantes. E o Ricardo Camacho foi um bom co-produtor porque nada proibiu. O Vitor revelou-se-me como o grande músico português do rock, como Sarbib é no Jazz ou Emanuel Nunes é na música erudita. Com o seu lugar-tenente Miguel, inventor de invenções melódico-tímbricas, e o seu corpo de ataque de Toli, exímio monomaníaco da tarola, batera-pop, parceiro indispensável para os esquemas robóticos da rítmica exigente do rock contemporâneo. Do Reininho eu era íntimo da sua raríssima cultura de poesia e rock vanguardistas e sabia-lhe da habilidade audio-teatral para a música mas a sua persona vocal, neste LP, surpreendeu-me pelo trémolos ferry-arabizantes, as modulações aleatórias e a capacidade de poder cantar com o GNR, o grupo do momento. Nesta faixa infinita o Vitor foi freetless, frippless, frithless, Artista de Rock.
No lado I procura-se demonstrar um domínio sobre os padrões mais exóticos da new wave dividido em temas que vão dos arranjos de Japan, até ao piano acústico de Corea; colagens sniffantes de pop art; coca-sounds; feed-backs; dissonoes-tupefacto nas actividades digitais; - se algum momento é fraco neste oceano de energia libidinal ele é rotulado por uma pseudo-crítica como "rock português" - mas compreende-se, o disco é feito inteiramente por portugueses.

Electro-scats, multi-ressonâncias, misturas devolucionais, escato-poemas, remoto-melodias, galactico-imitações, lúdico-virtuosismos de baixo, sincronias metamáticas da percussão, passas de strings, etc... cibernantropicamente concluindo: " Independança" é a obra de rock feita em Portugal com maior qualidade e vanguardismo, e o GNR é a mais promissora instituição sonora para produzir rock nas ecologias artificiais da nossa imaginação. "

Jorge Lima Barreto

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Sean Riley e The Slowriders - "Moving On"

" Pedro Páramo" - Juan Rulfo


" Pedro Páramo ", de Juan Rulfo é um dos livros da minha vida. Ler aqui artigo de Margo Glantz, publicado no suplemento Babelia do jornal El Pais.
E, ler aqui análise de Paulo Baía.
Aqui, ler artigo do El País sobre exposição de fotografias de Juan Rulfo que inspiraram o mesmo na sua escrita.

Os ácaros

" - Estou a sentir-me todo comido - respondeu ele. - Parece uma invasão de sarna, é o diabo de uma comichão que nem arranhada consigo acalmar.
Jacques começara por sentir o corpo metido numa labareda e depois, aos poucos, mal passava o fugaz alívio da pele coçada até ao sangue, uma queimadura mais aguda, um enervamento de desatar aos gritos, uma comichosa dor de enlouquecer!
É dos ácaros - disse a tia Norine a rir.
- Só apareceram ontem. Vê só! - Baixou a cabeça e afastou duas borrefas no pescoço que encaixavam entre elas um grão de milho vermelho enfiado na pele.
- Isto não vale nada, não vale mais do que uma pulga! - continuou o tio. - Hão-de encontrar-se por aí até chover.
Jacques invejou o couro batido daquela gente que não sofria, enquanto lhe dava a ele para ranger dentes e espiolhar carnes.
Diabos levem o campo! - Afastou-se dos ceifeiros. Tinha de tirar a roupa para poder arranhar-se à vontade. A meio caminho do castelo não pôde aguentar mais. Despiu-se atrás de um maciço de árvores, quase a chorar com as dores que sentia. Arrancou bocados de epiderme e não houve coçadela, raspagem, beliscão ou esfregadela que lhe saciasse o corpo. Mal esfolava um lado nasciam noutro comichões intoleráveis que iam ardendo, uma de cada vez, e o absorviam, forçavam a dar unhadas em tudo quanto era sítio e a voltar às bolhas maduras que já sangravam."

Excerto de " O castelo do Homem ancorado ", de J.K.Huysmans, Trd. Aníbal Fernandes, Colecção Livros B, Editorial Estampa, P. 129

A nossa "punheta" de bacalhau no Brasil

Ler aqui notícia do Globo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Exposição de Mapplethorpe , em Madrid

Ver aqui artigo no El País e mais fotografias.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Husker Du - "Don't Want to Know If you are Lonely"

Bauhaus -" All We Ever Wanted"

Portishead -" Over "

Jeff Buckley -" So Real "

Jeff Buckley ao vivo em Chicago em 1995

The Neophyte - Gustave Doré


Repensar Deus (1)

« Mas o cristianismo está para além da religião, tem uma existência e uma expressão que são culturais, que estão para além das crenças individuais e subjectivas. Uma pessoa agnóstica pode ser cristã.
Os valores cristãos têm uma dimensão ética, e prática, que está para além da religião. O cristianismo contribuiu de forma decisiva para a compreensão da dignidade humana, que se traduziu na formulação dos direitos humanos, e na igualdade entre os homens, independentemente da religião, sexo, cultura. Tudo isso faz parte do mundo cristão e é partilhado também por aqueles que estão expostos a esses valores, mesmo que não haja uma crença explícita no Deus de Jesus. O mais importante é o amor entre os seres humanos, é fazer o bem, e fazê-lo de modo verdadeiro, e eficaz - não falo da pequena caridade, mas da transformação das estruturas sociais, políticas, económicas, de tal modo que todos os homens possam realizar a sua humanidade. Freud, que era ateu, escreveu um dia uma carta em que disse: « Eu procurei na minha vida ser bom e fazer o bem aos homens, mesmo quando eles foram maus para mim. Se me perguntam a razão disso, não sei responder.» Isto representa um sinal de abertura ao mistério, ao sentido último. É que há aqui um problema: o das vítimas inocentes.
Quem são?
Todos aqueles que foram vítimas da brutalidade humana, os que não puderam levar avante a sua realização humana, todas as vítimas de todas as guerras, todos os homens, mulheres e crianças sobre quem foi exercida brutalidade. Há uma escola filosófica, a Escola Crítica de Frankfurt ( Max Horkheimer, Theodor Adorno, Jurgen Habermas - este último um dos maiores filósofos vivos ) que afirma que há uma dívida para com essas vítimas inocentes, e que pergunta: quem é que pode pagá-la, a essa dívida que a História tem para com os inocentes? E é aqui que surge um enorme clamor por justiça. Num dos últimos textos de Habermas( que á agnóstico), escrito depois do 11 de Setembro, ele fala daquilo que a razão não consegue dar: o perdão.
Porque o perdão é um milagre. »

Excerto de entrevista de Anselmo Borges a Sarah Adamopoulos, publicada na Notícias Magazine de 09/12/2007

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

detidos: hei-de partir quando as flores chegarem

à sua imagem. Este verão concentrado

em cada espelho. O próprio

movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios

dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias

internos.

Vou morrer assim, arfando

entre o mar fotográfico

e côncavo

e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas

o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,

ígneo nessa criança

contemplada. Eu abandono estes jardins

ferozes, o génio

que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva

aos precipícios de agosto, e a mansidão

traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar

palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.

Cada dia é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante

os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro

que talha no calcário a rosa congenital.

A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.

O verão é de azulejo.

É em nós que se encurva o nervo do arco

contra a flecha. Deus ataca-me

na candura. Fica, fria,

esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança

dá a volta à noite, acesa completamente

pelas mãos.

Herberto Helder

Cobra

Poesia Toda

Assírio & Alvim

1979

Dälek - "Tarnished"

Einsturzende Neubaten -" Armenia "

O Pátio Maldito

" A própria localização do Pátio Maldito era estranha, como se tivesse sido calculada para aumentar as torturas e os sofrimentos dos presos( frei Petar voltava muitas vezes a isto, tentando descrevê-lo). Do Pátio nada se vê da cidade, nem do porto, nem do arsenal abandonado lá em baixo na margem do estreito. Só há o céu, imenso e cruel na sua beleza e, ao longe, um canto verdejante da margem asiática, do outro lado do mar invisível, e o vértice do minarete de uma mesquita desconhecida ou da copa de um cipreste gigantesco, atrás do muro. Tudo indeterminado, anónimo e alheio. Assim, um estrangeiro tem a sensação constante de estar numa ilha diabólica, longe de tudo o que até então para si significava vida, e sem esperança de em breve tornar a reencontrá-la. Os presos de Constantinopla sofrem ainda um outro castigo, aquele de não ver nem sentir nada da sua cidade: estão lá, mas é como se estivessem a cem dias de viagem; e essa lonjura aparente atormenta-os como se fosse real. Por todas estas razões, o Pátio, rápida e insensivelmente, dobra um homem, subjuga-o de tal modo que acaba por se perder. Depressa se esquece de tudo o que aconteceu e pensa-se cada vez menos no que acontecerá; assim o passado e o futuro fundem-se num único presente, na terrível e insólita vida do Pátio Maldito. "

Excerto de " O pátio maldito ", de Ivo Andric, Trd. Lucia e Dejan Stankovic, Ed. Cavalo de Ferro,2003

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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