Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com

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sábado, 25 de abril de 2009

A ninfa inconstante



«É no passado que vemos o tempo como se fosse o espaço. Tudo está longe, na distância em que o passado é uma imensa pradaria vertiginosa, como se caíssemos de uma grande altura e o tempo da queda, à distância, nos tornasse imóveis, como acontece com os acrobatas do ar, que vão caindo a uma enorme velocidade e contudo para eles nunca se cai. É deste modo que caímos na recordação. Nada parece ter-se movido, nada mudou porque estamos a cair a uma velocidade constante e só aqueles que nos vêem de fora – vós, leitores – dão conta de quanto descemos e a que velocidade O passado é essa terra imóvel da qual nos aproximamos com um movimento uniformemente acelerado, mas o trajecto – tempo no espaço – impede-nos de nos afastarmos para ter uma visão que não seja afectada pela queda – espaço no tempo – voluntária ou involuntária. O tempo, ainda que parado, provoca vertigens, que é uma sensação que só o espaço pode provocar.»

Excerto do 1º capítulo de " A ninfa inconstante ", de Guilhermo Cabrera Infante, Trd. Salvato Teles de Menezes, Ed. Quetzal, ler aqui no Público.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

" Etelvina acordou, voltando-se lentamente, ao ver-me, sorriu. « Vim acordar-te», disse eu. Ela bocejou; ao contrário dos meus dentes, dos da minha família, tinha uma dentadura completa e sã; o mal não a tinha atacado pela boca. « É que ontem à noite - explicou-me entre bocejos, acção que eu aprendera que era de péssima educação e ela era sobrinha de um senador, embora falecido; talvez a rua a tivesse contagiado não só no mal mas também nas más maneiras - deitei-me muito tarde.» Reparei então que tinha permanecido nua aquele tempo todo, sem fazer o mínimo gesto para se cobrir, eu a ver a vagina peluda: a primeira que via na minha vida."


Excerto de " Havana para um Infante Defunto ", de Guillermo Cabrera Infante, Trd. Maria do Carmo Abreu

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Talvez receoso do corpo nu

" O apogeu da relação com Fela ( que ambos arranjámos maneira de dissimular muito bem, com manha de adultos) ocorreu num dia em que estava a tomar banho na minúscula casa de banho, que tinha uma janela lateral, sempre fechada, e era aberta por cima, com a parede da porta a terminar logo acima dela, a uma altura de cerca de dois metros. Estava a tomar duche quando ouvi uma voz que me chamava. Só me lembrei de procurar a sua fonte na janela entaipada. A voz disse então: «Aqui em cima», e olhei para cima e era Fela, olhando para mim, a rir, precariamente agarrada ao bordo da parede. Não soube que dizer, habituado há anos a tomar banho só, decidido a não me deixar ver despido. Talvez até tentasse cobrir-me de ridículo. Fela, muito contente com a sua acção audaz, ria, ria. Depois, como cólofon, propôs-me que fizesse o mesmo quando ela estivesse a tomar banho. «Não me tapo» animou-me, mas eu nunca me atrevi a imitá-la, talvez apreensivo por causa do seu feroz pai, talvez receoso do corpo nu."

Excerto de " Havana para um Infante Defunto ", de Guillermo Cabrera Infante, Trd. Maria do Carmo Abreu

Fotografia de Patrick Demarchelier

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" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

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