" Como à força, fora ele uma noite ao teatro lírico, em companhia do abade de Estevães, que amava a música pelo muito amor que tinha à guitarra, delícias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado. Calisto inteirou-se do enredo da ópera, e assistiu em convulsões ao espectáculo, que era a Lucrécia Bórgia.
G. Donizetti, "LucreziaBorgia"Act II, sc. 2 (fragment)Joan Sutherland, Alfredo KrausCond. Richard Boning,CoventGarden, 1980
Saiu da plateia frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: «Amici, noctemperdidi! Melhor me fora estar lendo o meu Eurípedes e Séneca, o trágico! Medeia não mata os filhos cantando, como a celerada Lucrécia! As devassidões postas em música, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o estridor das trompas e dos zabumbas. É um tripúdio isto, amigo abade! Quem sai do seio da natureza rude, e de repente se acha à labareda destes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial filosofia destas tramóias de teatros!» Assanhou-se o abade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o Estado subsidiava o Teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais. Calisto fez pé atrás, e exclamou: - Obstupui!... O abade zomba!... O Estado!... o meu colega disse o Estado! - Sim, o tesouro... - confirmou o clérigo. - A res publica? o dinheiro da nação? - Certamente: pois de quem há-de ser o dinheiro, senão da nação? - Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do teatro de Lisboa! - Vinte contos de réis. Calisto Elói correu a mão pela fronte humedecida de suor cívico, e sentou-se nas escadas da Igreja de S. Roque, porque ao espanto, cólera e dor de alma seguiram-se cãibras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abade, e foi para casa. "
Excerto de " A Queda de um Anjo", de Camilo Castelo Branco, Ed. Clássicos Público,1995
" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. "
Robert Walser