
Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
sábado, 1 de agosto de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
domingo, 26 de julho de 2009
- Não tem. Aí é que se engana - disse Teddy. - Toda a gente pensa que as coisas acabam num ponto qualquer. Mas não. É isso que eu estava a tentar dizer ao Professor Peet. -Mexeu-se no assento e tirou do bolso a lástima de um lenço, uma coisa cinzenta, amarfanhada, e assoou-se. - As coisas só parecem acabar num ponto qualquer porque a maior parte das pessoas só sabe olhar para as coisas dessa maneira - disse ele. - Mas isso não quer dizer que acabem. - Guardou o lenço, e olhou para Nicholson. - Importa-se de levantar o braço um segundo, faz favor? - perguntou.
- O meu braço? Porquê?
- Levante-o. Só um segundo.
Nicholson levantou o braço uns centímetros acima do braço da cadeira. «Este?», perguntou.
Teddy fez que sim com a cabeça. « Que nome dá a isso? », perguntou.
- Como assim? É o meu braço. É um braço.
- Como sabe que é? - perguntou Teddy. - Sabe que lhe chamam um braço, mas como sabe o que é? Tem alguma prova de que é um braço?
Nicholson tirou um cigarro do maço e acendeu-o. « Francamente, isso tresanda a sofisma do pior - disse ele, soprando o fumo. - É um braço, co´s diabos, porque é um braço. Para já, tem de ter um nome para se distinguir de outros objectos. Quer dizer, não se pode simplesmente...»
- Está apenas a ser lógico - disse Teddy, impassível.
- Estou a ser apenas o quê? - perguntou Nicholson, com uma polidez um pouco exagerada.
- Lógico. Estou a tentar ajudá-lo. Perguntou-me como saio das dimensões finitas quando quero. Não é a lógica que eu uso , quando o faço. A lógica é a primeira coisa de que temos de nos desembaraçar.
Nicholson retirou da língua um fio de tabaco, com os dedos.
- Conhece o Adão? - perguntou Teddy.
- Se conheço quem?
- Adão. O da Bíblia.
Nicholson hesitou. « Pessoalmente não », disse ele cortante.
Teddy hesitou. « Não se zangue comigo - disse ele. - Fez-me uma pergunta e eu estou a...»
- Não estou zangado consigo, por amor de Deus.
-Ok - disse Teddy. Estava reclinado na cadeira, mas com a cabeça voltada para Nicholson. - Lembra-se daquela maçã que Adão comeu no Paraíso, como vem na Bíblia? - perguntou. - Sabe o que havia naquela maçã. Por isso, isto é o que eu acho, o que tem de fazer é vomitá-la se quiser ver as coisas como elas são realmente. Quer dizer, se vomitar a maçã, então já não tem mais problemas com blocos de madeira e assim. E fica a saber o que o seu braço é realmente, se estiver interessado. Está a ver o que eu quero dizer? Está a seguir o que eu digo?
- Estou a seguir, estou - disse Nicholson, um pouco seco.
- O problema - disse Teddy - é que a maior parte das pessoas não quer ver as coisas como elas são. Nem sequer querem deixar de estar sempre a nascer e a morrer. Querem sempre novos corpos, em vez de pararem e de ficarem com Deus, que é onde se está realmente bem. - Reflectiu uns instantes. - Nunca vi um tal bando de comedores de maçãs - disse ele. Abanou a cabeça.»
Excerto do conto " Teddy ", deJ.D.Salinger, incluído no livro " Nove contos ", Trd. José Lima, 2ª edição, p.182/183
sábado, 25 de julho de 2009
Venus
terça-feira, 21 de julho de 2009
Nicarágua
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Excerto de " Os grandes cemitérios sob a Lua "(1938), de Georges Bernanos, Trd. Fernanda Pinto Rodrigues
domingo, 19 de julho de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
«Há uma atitude no Ocidente que é dizer: "Ah, o problema dos americanos foi tentarem impor a democracia a um povo que não estava preparado para ela." Acredito firmemente no contrário. Os iraquianos queriam democracia, esperaram prosperidade, paz, modernização, e os americanos não trouxeram nada disso.
Todos os dias ouço essa atitude no Ocidente: "Sabe, essas pessoas são assim, nós também éramos, com o tempo as coisas mudarão." É a atitude de considerar que não precisamos de ter princípios quando atravessamos o mar, porque respeitamos a especificidade. Isto é profundamente hipócrita. Não é verdadeiro e é contraproducente. A aspiração das nações, das pessoas em toda a parte, é praticamente a mesma. As pessoas querem viver melhor, querem vidas melhores para os filhos, mandá-los para a escola. Em toda a parte querem viver com dignidade.
O que acontece às vezes é que não lhes é dada alternativa. Há um ditador e a forma de as pessoas se organizarem é a religião. E todo o discurso se desenvolve a partir daí. Quando a verdadeira aspiração não é essa.
Não penso que haja no islão algo que impeça as sociedades de se tornarem democráticas, modernas, avançadas.
Precisamos de olhar para "o outro" como um vasto mundo de diferentes línguas, tradições, crenças. Há países islâmicos com eleições abertas, por exemplo, hoje mesmo, a Indonésia. A vasta maioria dos indonésios não vê contradição entre democracia e crença, e é a mais populosa nação islâmica do mundo. Isto pode acontecer em qualquer lado. A Indonésia teve uma mulher presidente, o Bangladesh, o Paquistão, a Turquia tiveram mulheres primeiras-ministras. Podemos empurrar as pessoas para o pior de si, mas é mais responsável empurrá-las para o melhor.
Se resolvermos o problema do Médio Oriente e as relações entre Ocidente e mundo islâmico, talvez as pessoas mais teimosas fiquem isoladas e não sejam capazes de mobilizar massas.» ler aqui entrevista completa.
Entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Amin Maalouf, publicada no P2(Público) de 10/07/2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
segunda-feira, 6 de julho de 2009

«Em tempos, o lavrador do Douro era alguém muito especial,que não precisava de ter uma psicologia, bastava significar um cargo dentro de um território. A Marca era esse território, e dentro dele tudo se passava sem muitas surpresas; interessado nas obrigações, o lavrador era uma espécie de místico que a filoxera estremeceu, mas que sobrevive ainda numa certa alegoria onde lampeja o espírito rácico. Talvez isto aconteça com todos os territórios e as suas populações e os seus clãs; mas no Douro é particularmente evidente essa convulsão de opiniões que expulsam tudo o que não se refere aos seus costumes e à sua organização modelada pelo clima, a sedentariedade, a minúcia de uma cultura e o método que repudia transformações e crescimento. Diferente do que pensam os economistas, uma área produtiva não se destina apenas a ser rentável; sobretudo é uma área onde a vida se condensa e se transmite. Representa uma condição histórica que se reflecte e se repercute, pondo a tónica principal, não no lucro, mas sobretudo na circulação da energia, que implica o lucro também, mas que acentua a persuasão da inteligência, do investimento moral. Pode acontecer que, mercê de uma imobilidade sentimental, mais do que motivada por carência material, um território se degrade e a crise se instale irremediavelmente. O perigo de uma civilização local é o de ela se tornar incomunicável; com o Douro, com o Nordeste Transmontano, com o País inteiro talvez, passa-se isto: ama a sua anexão ao hábito, á energia que não dinamiza e que se circunscreve a uma intriga momentânea e suburbana. Nada mais, tudo se converte em rotina. E, com ela, procede-se à sensibilidade barroca, ao apanágio do pormenor, ao retraimento cívico em favor da gesta privada. Enquanto se degusta a passividade, cai-se no arcaico. E a pessoa provincial dificilmente se recupera para universalidade da esperança, ficando-se no diálogo com os mortos e o colóquio com os antepassados, elevados à qualidade de monitores pelo conforto que a sua distância ministra.»quinta-feira, 2 de julho de 2009
Los cuernos que hicieron dimitir al ministro portugués*
Caricatura de Fernando Vicente«El Ministro de Economía e Innovación de Portugal, Manuel Pinho, presentó este jueves por la noche su dimisión, ya aceptada por el jefe de Gobierno, el socialista José Sócrates, tras hacer en el Parlamento un gesto indecoroso hacia el portavoz del Partido Comunista.» El Mundo
«La fragilidad política del primer ministro portugués, José Sócrates, ha aumentado con un escándalo mayúsculo en el Parlamento, que provocó la dimisión del ministro de Economía, Manuel Pinho. Pésima señal en la recta final de la Legislatura, a poco más de dos meses de las elecciones. La Asamblea de la República, en sesión plenaria, realizaba el último debate parlamentario antes de vacaciones sobre el Estado de la Nación, en el que la oposición en bloque, derecha e izquierda, condenó la política del Gobierno socialista.» El País
«O ministro da Economia e Inovação português, Manuel Pinho, apresentou nesta quinta-feira sua renúncia, já aceita pelo primeiro-ministro, o socialista José Sócrates, depois de ter feito um gesto ofensivo ao porta-voz do Partido Comunista em pleno Parlamento de Portugal.» Folha de S.Paulo
«Manuel Pinho é desde hoje o ex-ministro da Economia do Governo de José Sócrates na sequência de um gesto no Parlamento. Uma situação que lamenta mas que deu por encerrada numa entrevista à SIC onde admitiu não querer fazer carreira na política. Sobre o futuro não quis abrir o jogo. “Agora o que quero passar é umas belíssimas férias”, disse Pinho, que aproveitou para elogiar as reformas do Executivo e dizer que ainda há muito a mudar.» Público
«Quem demitiu Manuel Pinho? O PCP ou o Bloco de Esquerda? A disputa entre os dois partidos à esquerda do PS deu nas vistas. Mas o gesto que matou o ministro da Economia teve um simbolismo global.» Expresso
«Na sequência do seu gesto durante o debate do Estado da Nação, Manuel Pinho pediu demissão do cargo de ministro da Economia: simulou um par de chifres com os dedos, gesto dirigido a Bernardino Soares, líder da bancada parlamentar do PCP. O primeiro-ministro confirmou e aceitou a demissão.» Diário de Notícias
* Título do El Mundo
domingo, 28 de junho de 2009
domingo, 21 de junho de 2009
El hombre blanco enloquece con la tierra*

domingo, 14 de junho de 2009
Summer´s Evening
sábado, 13 de junho de 2009
António Variações

Visões Ficções
sexta-feira, 12 de junho de 2009
As mulheres eram desejadas mas não tinham desejo. Eram objectos sexuais mas não sujeitos sexuais. Raramente lemos sobre a maioridade sexual de uma mulher descrita na sua perspectiva. Onde é que a Marilyn Monroe nos conta a sua própria história sexual? E a Bela Adormecida, disse-nos alguma vez como foi acordar com o beijo do príncipe?
As mulheres não falaram durante muito tempo porque as silenciaram. Tanto na vida como na literatura, nos filmes ou nos palcos. Aquelas que ousaram paixões intensas viram-se condenadas, mortas, perseguidas, apelidadas de ordinárias e prostitutas. Em Portugal tivemos alguns casos famosos. A amada do Vitorino Nemésio, Margarida Jácome Correia, foi enfiada à força pela família numa clínica de loucos. O seu livro está aí e descreve bem o seu drama. E não esqueçamos que, ainda hoje, todos os anos, em África, dois milhões de meninas são mutiladas para lhes retirarem a capacidade de sentirem prazer sexual.»
Excerto de entrevista dada a Andreia Sanches, por Ana Zanatti, publicada no P2(Público) de 12/06/2009
Com bikini e sem bikini
Gisele Bündchen, para a Calzedonia, ver aqui.Lo que no es seguro es si podrán seguir haciéndolo por mucho tiempo ahora que la práctica ha sido ilegalizada por la nueva ley antipornografía, aprobada el pasado mes de octubre por el parlamento de Indonesia. El texto, redactado con intencionada ambigüedad, declara prohibidos "el desnudo o las representaciones de desnudos", así como los "movimientos del cuerpo contrarios a la moral pública".» continuar a ler aqui.
Exemplos

«Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus
melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas
responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira
preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para
quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.»
quarta-feira, 10 de junho de 2009
A cidade das aldeias*
O presente trabalho, realizado sob a forma de reportagem fotográfica e vídeo, visa possibilitar a leitura do que subsiste dos antigos Lugares da cidade do Porto e dos caminhos entre eles, registando e divulgando o que ainda hoje se pode observar, revelador de uma forma de assentamento e formação de território, de construção e de vivência de uma outra cidade, a cidade das aldeias, que corre o sério risco de ser literalmente engolida pela velocidade desenfreada própria dos dias em que vivemos, resultado das dinâmicas de desestruturação urbana e social que, infelizmente, vão esquecendo estes espaços, as suas gentes e os conjuntos edificados.Comparando a planta da cidade do Porto desenhada sob a direcção de Augusto Teles Ferreira e impressa no ano de 1892 com a cidade actual verificamos que, ainda hoje, subsiste uma substrutura rural que, à época, constituía uma rede de caminhos e lugares exteriores ao centro urbano em processo de consolidação.Esses lugares, aquando da delimitação administrativa da cidade ocorrida no final do século XIX, seriam integrados no perímetro urbano, ficando a Estrada de Circunvalação como linha de fronteira da nova cidade que acolhia no seu interior um conjunto de lugares e de freguesias novas, incorporava áreas de freguesias vizinhas e deixava de fora algumas parcelas de terreno, que, embora pertencentes ao concelho, sempre foram consideradas exteriores à cidade que se havia circunvalado.
Pela imagem, pretende-se tornar pública essa outra cidade que abrange, na área geográfica do concelho do Porto, núcleos como Pinheiro de Campanha, S. Pedro, Azevedo, Areias, Contumil, Pego Negro, Granja, Vila Cova, Campo, Aldeia Nova do Monte, Fojo, Águas Férreas, Outeiro do Tine, Aval de Baixo, Ramalde do Meio, Vilanova de Cima, Furamontes, Ribeirinho, Campinas, Arrábida, Olivais, entre muitos outros lugares que nos vão falando de percursos, de espaços, de construções e de gentes.
Este sentimento de viver periférico, presente nos lugares visitados, poderá, um dia, vir final e felizmente a desaparecer e dar lugar a uma realidade policêntrica, assente em contínuos de território, o qual, ligado por redes e canais, será capaz de unir e esbater as sensações de dentro e fora, contribuindo para minimizar a sensação de centro e periferia, quer no plano físico quer no plano das mentalidades e sentimentos, consolidando e dando espessura ao tecido urbano.Assim, as redes vão-nos ligar os pontos e os canais vão-nos traçar as rectas e articular a sobreposição das redes, cosendo-as ao concelho ao qual pertencem e aos concelhos limítrofes, promovendo um tecido forte e coeso, permitindo que não sejam áreas conflituantes, mas sim conjugadas e convergentes num só objectivo: a ampliação da cidadania e a gestão participada do território municipal pelas populações, comprometendo todos num esforço unitário, em busca de uma estrutura onde todos tenham lugar.
É um registo fotográfico que permite pensar que, numa cidade equilibrada, esta diversidade de ocupação do solo ajuda a qualificar o ambiente urbano, oferecendo a leitura de várias épocas históricas, de vários tempos, de vidas que podem, trinta e cinco anos passados sobre o 25 de Abril, se todos quisermos, coexistir em harmonia, derrubando a última muralha desta cidade e pensar, na Área Metropolitana do Porto, mais do que na metropolitanidade, na rur-urbanidade.»
Mário João Mesquita, apresentação da *exposição a decorrer no CPF.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Movimento Perpétuo Associativo
«O jornal britânico The Times elogiou na terça-feira a actuação dos portugueses Deolinda em Londres, destacando a presença em palco de Ana Bacalhau e as canções que preenchem o álbum Canção ao lado» continuar a ler aqui.
Sol, 09/06/2009
Em nome do desenvolvimento(2)
«El gobernador de California, Arnold Schwarzenegger, ha presentado un plan de ahorro mediante la apuesta por la enseñanza on line en detrimento de los libros de texto tradicionales, según informa la BBC. Con esta iniciativa, el gobernador pretende reducir el gasto anual en millones de dólares. Además, añade que al privilegiar el estudio digital los alumnos conseguirán una mejor formación.» continuar a ler aqui.
El País, 09/06/2009
Em nome do desenvolvimento(1)
Viver com menos...
Ilustração de Raúl Arias«Hay crisis. Todos hablan de ella. A todos nos afecta. Todos coinciden en que es grave. Pero nadie acaba de explicarnos bien lo que pasa. Los analistas académicos hablan como si sufriéramos una fiebre más o menos pasajera, un desajuste del sistema que se solucionará con alguna receta.
Pero hay otras voces. Economistas, sociólogos, pensadores de diversos ámbitos que opinan que estamos ante algo más que un desarreglo de los mercados financieros. ¿Qué crisis es ésta? Para muchos, más que una crisis económica es una crisis ecológica: no hay planeta suficiente para mantener el ritmo de vida que llevamos. El modelo de crecer y gastar, usar y tirar, explotar y contaminar llega a su fin.
«Aunque tengamos la mirada puesta en la debacle de los mercados financieros, la convulsión que estamos experimentando denota mayor hondura, remitiéndonos a los modos de producir, consumir y vivir hoy predominantes en el planeta», afirma Santiago Álvarez, director del Centro de Investigaciones para la Paz, en el último número de la revista» continuar a ler aqui.
domingo, 7 de junho de 2009
Excerto do Capítulo XXI, da eloquência parlamentar nos Estados Unidos, " Da Democracia na América ", de Alexis de Tocqueville, Trd. João Carlos Espada, Ed. Principia
Recenseamento das almas
- Quantos? - Uma porção deles! - respondeu o intendente, pondo a mão diante da boca para dissimular um soluço.
- Sim, era justamente isso o que eu pensava - murmurou Manilov. - Morreram bastantes...
- Mas quantos? - insistiu Chichikov.
- Sim, quantos? - repetiu Manilov.
- Quantos? Como posso eu saber ao certo? Ninguém os contou... - desculpou-se o intendente.
- Sim, claro ninguém os contou... - pronunciou Manilov. E voltando-se para Chichikov: - É o que eu supunha, morreram muitos, mas não se sabe bem quantos.
- Pois bem, meu amigo - disse Chichikov, dirigindo-se ao intendente -, não há outro remédio agora senão contá-los. Arranje-me, por favor, uma lista completa dos mortos, com os nomes de todos.
- Isso mesmo - confirmou Manilov. - Uma lista com os nomes de todos os mortos.
- Às suas ordens, senhor! - proferiu o intendente, e retirou-se.
- E para que quer essa lista? - inquiriu então Manilov.
A pergunta confundiu um pouco o visitante. Corou, tartamudeou, fazendo visíveis esforços para encontrar as palavras adequadas. E o caso não era para menos. Manilov ia ouvir coisas extraordinárias, como nunca antes escutara nenhum ouvido humano.
- Deseja saber para que quero esta lista? Pois bem, vou dizê-lo: tenciono comprar-lhe os camponeses que...
Não chegou a concluir a frase, Manilov interrompeu-o:
- Permita-me que lhe pergunte: deseja comprá-los com ou sem as terras?
- Não se trata precisamente de camponeses... - esclareceu Chichikov. - Só quero comprar os que morreram...
- Como?... Desculpe-me... Sou um pouco duro de ouvido, creio que percebi mal...
- Pretendo adquirir as almas mortas que figuram ainda como vivas no recenseamento - explicou Chichikov.»
Excerto de " Almas mortas ", de Nicolai Gogol, Trd. José António Machado, Ed. Estampa
sábado, 6 de junho de 2009
Anjos

Fotografias: Azulejos da Igreja de Santo Ildefonso, no Porto.
Música: Ópera Semele de Haendel, cantada por Kathleen Battle.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Kung Fu
maoinvisivel, viseu 04/06/09 19:00(comentário publicado na edição online do Diário Económico)
Lamento o desaparecimento do actor David Carradine, para mim, será sempre o bom monge de Shaolin, de nome Caine, o meu Kung Fu, que desbaratava com uns golpes fantásticos hordas de malfeitores. É uma referência da minha infância, e da melhor época televisiva que passou por este país. Apetece dizer, que os bons não deviam partir. Talvez no além se encontre com os malfeitores dos novos tempos, usurários disfarçados de banqueiros e afins, que para além de amnésicos, são falsos surdos, mudos e cegos e, ainda por cima não sabem escrever e alegam que outros escrevem e assinam por eles. Outros, troçam, afirmam que alguém se esqueceu de entregar um qualquer bilhete de identidade. Chega-lhes Kung Fu. Está explicado, porque afinal os bons se vão embora. É para continuarem a espadeirarem os maus quando lá chegam. Recebem-nos à porta e zás. Nem sequer, chegam a entrar. Justiça, vale mais tarde do que nunca. Depois, os pedaços são capaz de ficar espalhados num qualquer limbo. Paz, e que nunca te falte a força, Kung Fu! Já agora, peço-te: dá um abraço apertado ao Vasco Granja e diz-lhe, olá e obrigado amiguinho, da minha parte. Até sempre!
Tudo isto é triste, tudo isto é fado
“Eu e a minha mulher, antes de eu estar nesta posição, quando éramos apenas professores, não tínhamos as nossas poupanças debaixo do colchão, nem tão pouco no estrangeiro. E agora também não. Entregámos as nossas poupanças a quatro bancos, incluindo o BPN, para eles gerirem as nossas poupanças. Esperávamos que eles gerissem as poupanças bem, que conseguissem um bom rendimento. Infelizmente estamos a perder muito, muito dinheiro. Boa parte das nossas poupanças estão desaparecidas”, afirmou o chefe de Estado citado pela TVI.» ler mais aqui.
Lusa, Público, 03/06/2009
Tudo isto é triste, tudo isto é fado.
Este homem é doutorado em Economia, foi director do Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, primeiro-ministro entre 1985 e 1995. É Presidente da Républica desde 2006.
E, não sabe gerir as suas economias?!
terça-feira, 2 de junho de 2009
Fomos enganados???!!!
«Os clientes do Banco Privado Português que se manifestam hoje junto à sede do banco em Lisboa acusam o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, de ter falhado enquanto presidente da CMVM, entre 2000 e 2005.
"O sr. ministro das Finanças tem responsabilidades pela situação em que nos encontramos, porque liderou a CMVM [Comissão de Mercado de Valores Mobiliários] entre 2000 e 2005, período no qual o BPP lançou os produtos de retorno absoluto", afirmou à agência Lusa Ruy Ribeiro, cliente do BPP.
"Não temos culpa que a supervisão tenha falhado. Somos aforradores, não somos especuladores", reforçou Ruy Ribeiro. "Fomos enganados", sublinhou, numa altura em que os manifestantes gritam o 'slogan' "Queremos o nosso dinheiro!".» Lusa, Público Online, 02/06/2009
1) Teixeira dos Santos presidiu a CMVM entre 2000 e 2005, actualmente é ministro das Finanças.
2) Victor Constâncio é presidente do Banco de Portugal desde 2000.
Ambos, tiveram conhecimento da comercialização dos chamados produtos de retorno absoluto. Todos os bancos comercializaram esses produtos, embora a designação dos mesmos fosse diferente de banco para banco. A outra designação mais usada era "produtos de taxa garantida".
Inicialmente, as aplicações eram feitas com base num acordo verbal entre o funcionário bancário e o cliente. O cliente raramente questionava o risco porque pressupunha que o banco garantia sempre o capital aplicado e os juros acordados.
Mais tarde, com base em instruções do Banco de Portugal/CMVM foi criado um mandato para ser assinado pelo cliente dando poderes ao banco para comprar e vender acções,obrigações, warrants, etc.
Durante toda a década, apesar do risco para o cliente, não foi criada legislação que permitisse enquadrar juridicamente estas aplicações.
Os clientes com a ambição de terem uma taxa superior às taxas habitualmente praticadas, ou não questionavam, ou quando questionavam era-lhes transmitido que a garantia era dada pelo banco, sendo o risco nulo.
Muitos deles, saltaram de banco em banco na procura de melhores taxas. Quando eram confrontados com a possibilidade de risco inerente ao banco onde tinham feito a aplicação, recusavam-se a acreditar. " Os Bancos não vão à falência "- diziam eles -" se houver problema o Estado resolve "!
Pois !
Não devia de resolver, mas moralmente tem a obrigação de o fazer. A regulação não existiu. Foi conivente.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
domingo, 31 de maio de 2009
«Vera em tudo uma rapariga de bem. Boas maneiras, bem vestida e com uma cultura superior. Excepto que, sempre que só na presença de qualquer homem, logo se despia e exigia que o coitado, ou talvez não, a penetrasse urgentemente. A família, alarmada e em vergonha profunda pelo comportamento descabido dela, arranjou um casamento apressado para resolver a situação. Nada feito. Mesmo apaixonada pelo marido, continuava a oferecer-se em bandeja a todo e qualquer par de calças ou calções que lhe aparecesse pela frente. assim permaneceu a sra. V. até à sua morte, com a profícua idade de 73 anos. Imagem de decoro quando vigiada por terceiros, depravação sexual em pessoa sempre que a ocasião o permitia, em jeito de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.Caso nrº 189 apresentado por Kraftt-Ebing, psiquiatra alemão do século XIX, a sra. V. surge como exemplo de ninfomania, doença imaginária que era diagnosticada em mulheres que não ficavam no seu cantinho sexualmente reprimido e revelavam ter desejos libidinosos próprios. Tal como os homens faziam porque assim se esperava. Ebing chega a descrever o que intitula "ninfomania aguda mortal", em que raparigas até entâo insuspeitas revelavam um súbito "desejo ilimitado de gratificação sexual", "delírios obscenos", "exigindo" o coito e terminando por morrer de "exaustão". Tadinhas.
É certo que as senhoras descritas por Ebing bem não estavam. Alguma coisa terá causado a morte das que se ficaram. Porém, tal não terá sido, poderei jurar, o excesso de desejo sexual. Uma infecção que lhes afectou os neurónios?
Uma intoxicação acidental? O que tiver sido, antes de acabar com elas, diluiu-lhes as inibições sociais, levando ao seu comportamento tão contrário às convenções da época.
Passado mais de um século, espera-se que já ninguém diagnostique ninfomania a mulheres que exigam o coito com frequência, porque elas andam por aí e recomendam-se! Mas outras etiquetas vieram continuar a tradição. Veja-se, por exemplo, como a promiscuidade, palavra feia, tanto foi usada durante a crise HIV. De súbito, os novos malcomportados eram esses tais, os promíscuos, que andariam por aí a ter sexo que nem o pacman do jogo de video. A "promiscuidade" foi incluída na lista dos comportamentos a evitar, tal como o sexo sem preservativo, quando na verdade, desde que se use a borrachinha maravilha, o número de parceiros não vai ser causa de infecção.
Escreveu Ebing: "Estas pobres mulheres disseminam o espírito da lascívia, desmoralizam o ambiente e tornam-se num perigo para rapazes e raparigas." Se então o moralismo era mais descarado, agora ele surge encapotado. E promiscuamente se continua assim a julgar o comportamento alheio. Que com a libertinagem dos outros sempre se pode muito mal.»
Fotografia de Brassaï e crónica de Nuno Nodin " A promiscuidade da ninfomania ", publicada na Pública de 31/05/2009
'Matisse: 1917-1941' (Os anos voluptuosos*)

*«La estancia está inundada de luz. Entre biombos y sillones de mimbre, un hombre de cabello ralo, bigote y barba encanecidos, con traje, corbata y una bata blanca a modo de guardapolvo, sujeta un bloc en sus rodillas mientras dibuja a una bella mujer desnuda. Matisse (1869-1954), el gran pintor francés, aparece en su estudio de Niza retratado en 1939 por un prometedor fotógrafo, Brassaï. Wilma Javor, una joven húngara, posa sin pudor mientras el ya anciano artista aparece abstraído en lo que más le interesa, la figura humana.» continuar a ler aqui.
Julia Luzán, El País, 31/05/2009
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