
Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
sábado, 11 de outubro de 2008
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
" Devo acrescentar que acredito pouco nas leis. Demasiado duras, são transgredidas com razão. Demasiado complicadas, o engenho humano encontra facilmente maneira de se escapar por entre as malhas dessa nassa monótona e frágil. O respeito pelas leis antigas corresponde ao que tem de mais profundo a piedade humana; serve também de almofada à inércia dos juízes. As mais velhas participam daquela selvageria que se empenhavam em corrigir; as mais veneráveis são um produto da força. A maior parte das nossas leis penais só atinge, talvez felizmente, uma pequena parte dos culpados; as nossas leis civis nunca serão bastante maleáveis para se adaptar à imensa e fluída variedade dos factos. Mudam menos rapidamente que os costumes; perigosas quando eles as ultrapassam, são-no ainda mais quando pretendem precedê-los."
Excerto de " Memórias de Adriano ", de Marguerite Yourcenar, Trd. Maria Lamas, Ed. Ulisseia
Excerto de " Memórias de Adriano ", de Marguerite Yourcenar, Trd. Maria Lamas, Ed. Ulisseia
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Não acreditem neles*
" Esta crise não se percebe com a declaração (deleitada) do fracasso do "neolibelarismo" (quem sabe o que é precisamente o "neolibelarismo" (quem sabe o que é precisamente o "neoliberalismo"?), nem com vociferações, que já se tornam ridículas, sobre a irresponsabilidade e a "ganância" de Wall Street, da City e outros lugares de perdição. Talvez seja bom começar pelo que, de facto, aconteceu. A crise foi revelada pelo problema do subprime na América, ou seja, pelo excessivo crédito de risco à habitação, sem qualquer forma de garantia ou expectativa racional de pagamento. Mas não veio exclusivamente daí, nem por si mesmo o subprime explica o resto da história. O facto é que todo o crédito cresceu sem lógica ou limite, até ao ponto em que desde o Estado americano à grande banca (comercial ou de investimento) e a uma qualquer companhia de seguros pouco ilustre, o mundo inteiro ficou endividado.
Isto quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que centenas de milhões de pessoas, na América, na Ásia e na Europa, se habituaram a viver para lá dos meios que tinham ou que podiam ter, pelo artifício simples de gastar o dinheiro que não era deles. E, em segundo lugar, que isto se passou com a cumplicidade e colaboração do Estado ( Estados, na verdade ), de instituições financeiras e de organismos reguladores de carácter nacional ou internacional. Aqui, por exemplo, há anos que se fala no endividamento da banca. Só que, tirando um ocasional "velho do Restelo" suficientemente ingénuo para ir à televisão arrancar os cabelos, não se fez nada.
A animosidade crescente contra os responsáveis pela catástrofe é, em parte, merecida. O cidadão comum não compreende a justiça subjacente ao caso. Quem rouba um automóvel ou uma bicicleta ( um delito certamente menor) marcha direitinho para a cadeia. Quem cria uma desordem financeira, sem precedente histórico, e contribui para o sofrimento de milhões, continua no gozo da sua importância e dos seus proventos. Sucede que as finanças são uma disciplina abstracta e, pior ainda, "irreal". Quem especula em Wall Street, na City, em Madrid ou Lisboa não vê a "realidade" arrumada e matemática, que obedece às suas próprias leis. E, quando essa 2realidade" se impõe como universal e única, o fim está próximo. Principalmente, se por oportunismo os políticos também perdem a cabeça e decidem acreditar na tribo da economia e dos "negócios".
* Crónica de Vasco Pulido Valente, Público de 10/10/2008
Isto quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que centenas de milhões de pessoas, na América, na Ásia e na Europa, se habituaram a viver para lá dos meios que tinham ou que podiam ter, pelo artifício simples de gastar o dinheiro que não era deles. E, em segundo lugar, que isto se passou com a cumplicidade e colaboração do Estado ( Estados, na verdade ), de instituições financeiras e de organismos reguladores de carácter nacional ou internacional. Aqui, por exemplo, há anos que se fala no endividamento da banca. Só que, tirando um ocasional "velho do Restelo" suficientemente ingénuo para ir à televisão arrancar os cabelos, não se fez nada.
A animosidade crescente contra os responsáveis pela catástrofe é, em parte, merecida. O cidadão comum não compreende a justiça subjacente ao caso. Quem rouba um automóvel ou uma bicicleta ( um delito certamente menor) marcha direitinho para a cadeia. Quem cria uma desordem financeira, sem precedente histórico, e contribui para o sofrimento de milhões, continua no gozo da sua importância e dos seus proventos. Sucede que as finanças são uma disciplina abstracta e, pior ainda, "irreal". Quem especula em Wall Street, na City, em Madrid ou Lisboa não vê a "realidade" arrumada e matemática, que obedece às suas próprias leis. E, quando essa 2realidade" se impõe como universal e única, o fim está próximo. Principalmente, se por oportunismo os políticos também perdem a cabeça e decidem acreditar na tribo da economia e dos "negócios".
* Crónica de Vasco Pulido Valente, Público de 10/10/2008
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Parte da vida*
" É uma velha história sufi. Um homem atravessava, uma tarde, a praça do mercado quando alguém lhe puxou pela manga. « Eu sou a Morte », disse a figura. « Vim para te avisar que temos encontro marcado às seis da manhã. » O homem ficou muito assustado, mas pensou que poderia fazer bom uso da informação adiantada. Vendeu o que tinha rapidamente, comprou os três melhores e mais rápidos cavalos que havia na cidade e lançou-se através do deserto em direcção a uma cidade distante, onde tinha a esperança que a Morte não conseguisse encontrá-lo.
Cavalgou toda a noite, como o vento, esgotando cavalo após cavalo, até que, aproximando-se as seis horas da manhã, chegou a um pequeno oásis, onde desmontou para beber água antes de continuar a viagem. Quando se encaminhava para o poço, uma figura silenciosa que estava ao lado deste olhou o relógio e levantou-se, dizendo: « Curioso. Eu ia jurar que o senhor não conseguiria chegar a horas! »
Não vale a pena fugir. Nem, pelo contrário, procurá-la. Ela tem a sua hora e é pontual.
Na última das análises, é a nossa concepção da morte que decide todas as respostas às perguntas que a vida nos faz.
Conscientes do nosso fim, tudo passa a ter sentido numa vida tão curta. Com o sentido, vem a necessidade de lhe desvendar o segredo e a descoberta só pode ser feita quando se chega ao coração. É preciso, nessa altura, abrir de par em par o coração ao corpo da vida. É assim que se cresce e é possível ter paz.
« A vida e a morte são uma só, tal como o rio e o mar são um só. » Khalil Gibran sabia do que falava. "
* Crónica de Victor Cunha Rego,publicada no DN em 20/01/95, e incluída no livro " Os dias de amanhã ".
Cavalgou toda a noite, como o vento, esgotando cavalo após cavalo, até que, aproximando-se as seis horas da manhã, chegou a um pequeno oásis, onde desmontou para beber água antes de continuar a viagem. Quando se encaminhava para o poço, uma figura silenciosa que estava ao lado deste olhou o relógio e levantou-se, dizendo: « Curioso. Eu ia jurar que o senhor não conseguiria chegar a horas! »
Não vale a pena fugir. Nem, pelo contrário, procurá-la. Ela tem a sua hora e é pontual.
Na última das análises, é a nossa concepção da morte que decide todas as respostas às perguntas que a vida nos faz.
Conscientes do nosso fim, tudo passa a ter sentido numa vida tão curta. Com o sentido, vem a necessidade de lhe desvendar o segredo e a descoberta só pode ser feita quando se chega ao coração. É preciso, nessa altura, abrir de par em par o coração ao corpo da vida. É assim que se cresce e é possível ter paz.
« A vida e a morte são uma só, tal como o rio e o mar são um só. » Khalil Gibran sabia do que falava. "
* Crónica de Victor Cunha Rego,publicada no DN em 20/01/95, e incluída no livro " Os dias de amanhã ".
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Gestão do desconhecido
" Outward Bound " de Norman Rockwell«El modelo de saber que hasta ahora hemos manejado era ingenuamente acumulativo; se suponía que el nuevo saber se añade al anterior sin problematizarlo, haciendo así que retroceda progresivamente el espacio de lo desconocido y aumentando la calculabilidad del mundo. Pero esto ya no es así. De manera que este no-saber no es un problema de falta provisional de información, sino que, con el avance del conocimiento y precisamente en virtud de ese crecimiento aumenta de manera más que proporcional el no-saber (acerca de las consecuencias, alcances, límites y fiabilidad del saber). Si en otras épocas los métodos dominantes para combatir la ignorancia consistían en eliminarla, los planteamientos actuales asumen que hay una dimensión irreductible en la ignorancia, por lo que debemos entenderla, tolerarla e incluso servirnos de ella y considerarla un recurso. La sociedad del conocimiento se puede caracterizar precisamente como una sociedad que ha de aprender a gestionar ese desconocimiento.»
El retorno de la incertidumbre por Daniel Innerarity( es profesor de Filosofía en la Universidad de Zaragoza y autor de El nuevo espacio público) El País Online, 07/10/2008
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Incêndio
Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão
Incêndio, de Al Berto
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão
Incêndio, de Al Berto
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A alma é uma porta aberta...

" Air on a G-String ", suite para orquestra nrº 3, de J.S.Bach, arranjada e interpretada por Per-Olov Kindgren.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Em nome do progresso???!!!(1)
Rio Sabor, fotografia de Luís Bartolo(2008)«No oeste selvagem aparece sempre o esqueleto de um bisonte devorado por chacais. A nascente do Sabor é um nordeste selvagem. Serranias de erva tenra, giesta, carqueja e urze, grandes pedras zoomórficas e um esqueleto de vaca à beira da água. »
Reportagem de Alexandra Lucas Coelho e fotografias de Paulo Pimenta, P2(Público) de 03/04/05/10/2008.
Fotogaleria, ver aqui.
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domingo, 5 de outubro de 2008
Penguin Cafe Orchestra -" Music For A Found Harmonium "
Ao vivo na BBC em 1989
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O mistério do amor

" Andamos nesta vida a tentar decifrar o mistério de sermos, de termos nascido e sabermos que vamos morrer, o que é isto, de onde é que viemos, para onde é que vamos, como no princípio dos tempos. Há um outro mistério que o ilumina e que se chama amor. Redentor, revigorador, regenerador, perversor. O amor acontece-nos, não se fabrica. Toda a luz do mundo incide sobre um única pessoa e a luz de que nós precisamos, para iluminar o nosso caminho, derrama-se dessa pessoa para nós. O que é isto de elegermos ou sermos eleitas por?
O que o amor desencadeia dentro é a única forma de nos aproximarmos da divindade. É a desordem de esquemas e normas, e é a única alavanca para ordenarmos o caminho. Tudo o que é normativo é condicionante e a minha religião, o islão, o judaísmo - as religiões do Livro - são muito penalizadores das mulheres. Porque a origem do mundo está em nós, está no nosso corpo. "
Ilustração de Honoré Daumier e excerto de crónica " Eles são o outro ", de Ana Sousa Dias, Pública de 05/10/2008
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sábado, 4 de outubro de 2008
A decadência...

" Não é a primeira vez que minhas pernas fraquejam quando me levanto bruscamente. Dou três passos bobos, antes de me firmar, e a magrinha ri, pensa que estou bêbado. Lembro-me do meu pai, que se queixava de dormências, achava que era cardíaco e fazia check-up todo o mês. Ao deixar-mos a sala de jantar, a magrinha adiante e o meu cunhado logo atrás de mim, precipito-me no banheiro. Sempre que preciso urinar às pressas, lamento usar o pau do lado direito, que é o lado errado, o que me obriga a dar-lhe um nó antes de o trazer para fora. Viso afinal o centro da latrina, tenho a bexiga repleta, mas o líquido arde e se recusa a extravasar. Algo me inibe. É como se a mão que segura o pau não me pertencesse. Vem-me a sensação de ter ao lado alguém invisível segurando o meu pau. Agito aquela mão, articulo os dedos, altero a empunhadura, tomo consciência da minha mão, mas agora é como se eu manipulasse o pau de um estranho à minha frente: Já não sinto a bexiga, desisto, fecho a braguilha. "
1) Fotografia de Jane Birkin
2) Excerto de " Estorvo " de Chico Buarque
3) Música " La Décadance ", de Serge Gainsbourg, cantada por Serge Gainsbourg e Jane Birkin
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A minha discoteca: " Remain in light " - Talking Heads(vinyl)

1. Born Under Punches (The Heat Goes On)2. Crosseyed And Painless3. The Great Curve 4. Once In A Lifetime5. Houses In Motion6. Seen And Not Seen7. Listening Wind8. The Overlord
Ver aqui na Wikipédia.
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Fotografias de João Cutileiro
Untitled, Londres, 1966(© João Cutileiro)
«O género que mais fascina Cutileiro na fotografia é o retrato, com rosto ou sem ele, com roupa ou sem ela. Na exposição que vai abrir portas, que recupera imagens captadas em Inglaterra e em Portugal durante os anos 50, 60 e 70 e impressas pelo autor, não há grandes derivações. Revelam-se corpos ora em pose assumida e ambientes íntimos, ora em flirt a espreitar pelo buraco da fechadura. Em Blow Up (Hampstead Heath, 1965), Cutileiro lembra esse papel do fotógrafo como um caçador implacável a “roubar” imagens a casais incógnitos que rebolam abraçados pelos jardins. Na longa sequência La Grande Stripteaseuse (Londres, 1966) revela-se a cumplicidade entre retratista e retratado e mistura-se sensualidade com uma certa joie de vivre.» Sérgio B. Gomes, P2, Público de 01/10/2008
«O género que mais fascina Cutileiro na fotografia é o retrato, com rosto ou sem ele, com roupa ou sem ela. Na exposição que vai abrir portas, que recupera imagens captadas em Inglaterra e em Portugal durante os anos 50, 60 e 70 e impressas pelo autor, não há grandes derivações. Revelam-se corpos ora em pose assumida e ambientes íntimos, ora em flirt a espreitar pelo buraco da fechadura. Em Blow Up (Hampstead Heath, 1965), Cutileiro lembra esse papel do fotógrafo como um caçador implacável a “roubar” imagens a casais incógnitos que rebolam abraçados pelos jardins. Na longa sequência La Grande Stripteaseuse (Londres, 1966) revela-se a cumplicidade entre retratista e retratado e mistura-se sensualidade com uma certa joie de vivre.» Sérgio B. Gomes, P2, Público de 01/10/2008
Lentes para ler nas entrelinhas...*
Ilustração de Henrique Monteiro«Otras generaciones anteriores de mujeres dedicadas a la política (Golda Meir, Indira Gandhi, Margaret Thatcher, incluso hasta cierto punto Hillary Clinton) eran lo que suele llamarse mujeres "fálicas": actuaban como "damas de hierro" que imitaban y trataban de superar la autoridad masculina, ser "más hombres que los propios hombres". En un comentario reciente en Le Point, Jacques-Alain Miller destacaba que Sarah Palin, por el contrario, exhibe con orgullo su lado femenino y su maternidad. Ejerce un efecto "castrador" en sus oponentes masculinos, no porque sea más viril que ellos, sino porque emplea el arma femenina por excelencia, la degradación sarcástica de la autoridad masculina; sabe que la autoridad "fálica" del varón no es más que una pose, una apariencia que hay que explotar y ridiculizar.»
*El País Online,02/10/2008, Crónica de Slavoj Zizek
Slavoj Zizek es filósofo esloveno y autor, entre otros libros, de Irak. La tetera prestada. Traducción de María Luisa Rodríguez Tapia
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O corretor que perdeu a fé???!!!
Nikanor, de 32 anos, é monge. Vive na Bulgária, no velho mosteiro de Tsurnogorski, a 50 quilómetros de Sofia, capital. Foi ali que encontrou a fé, em Deus, depois de ter perdido a que depositava no sistema financeiro mundial.Stoyan Nenov/Reuters, Público Online,02/10/2008
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008
" Você vai aprender. Vai aprender a latir. A atacar. A morder. A farejar cocaína. A receber restos de comida. É isso, você aprende, ódio é uma coisa fácil de aprender. É mais fácil você aprender a odiar do que a cozinhar ou usar computador. Eles dizem, aquilo é uma merda, você acredita, aquilo é uma merda. Aquilo fede. Fede mesmo, eu sinto o fedor. Aquilo é podre. Podre, é podre, a gente aprende. O homem aprende tudo. Por isso o homem progride. A ciência progride. Os Estados Unidos progridem. A indústria. A tecnologia. Mas o coração do homem, eu ouvi um homem falando isso na televisão, um homem muito importante, o coração do homem não progride. Então, disse Érica, os progressos não servem para porra nenhuma, vacinas para salvar bestas, a verdade é essa. Mas isso não vem ao caso. Interessa é que você tem que tomar cuidado com esses caras porque senão, senão você vai aprender o que eles querem ensinar. Você vai se foder."
Excerto de " O Matador ", de Patrícia Melo, ED. Campo das Letras
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
Dias históricos que era melhor não conhecer*
Na sua autobiografia, Groucho Marx lembra aqueles dias em que se sentava no barbeiro, ouvia uma dica sobre acções que deviam ser compradas e corria - ainda com a toalha ao pescoço e o sabão de barba na cara - até à Bolsa mais próxima. Groucho era um humorista, preferia o sentido sorridente da vida, os dias do capitalismo feliz. A esses dias seguiu-se a Terça- -Feira Negra (29 de Outubro de 1929) com banqueiros a atirarem-se das janelas dos arranha- -céus. Interruptor para cima, interruptor para baixo - o mercado de capitais é assim e, ao que parece, não sabe ser de outra maneira. Enquanto focada na loucura por papéis - seja de jogadores tubarões ou pequenos accionistas - a Bolsa parece assunto de ficção. Dá bons filmes e livros, mas não lhe reconhecemos aquele suor com que se vive o quotidiano. Fazemos mal em pensar assim. Àquele crash de um dia, seguiram-se anos de Grande Depressão. Desemprego generalizado. Já não é tão fascinante e custa mais a passar.
* Ferreira Fernandes, DN, 30/09/2008
* Ferreira Fernandes, DN, 30/09/2008
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Adolescência
"Há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro."
Em "Dom Casmurro" (1899)
"Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada."
Em "Dom Casmurro" (1899)
Frases de Machado de Assis sobre a adolescência.
Em "Dom Casmurro" (1899)
"Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada."
Em "Dom Casmurro" (1899)
Frases de Machado de Assis sobre a adolescência.
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As nossas acções não bastam para definir o nosso destino*
«Todos os anos, o mundo indigna-se com o Nobel da Literatura. Motivo? Philip Roth. Será possível que o mais brilhante escritor americano de hoje não ganhe o prémio? A pergunta é absurda por dois motivos. Primeiro, porque existem listas infindáveis de escritores maiores que falharam o Nobel (Joyce, Nabokov, Borges, etc.). E, segundo, porque o Nobel premeia escritores humanistas, ou seja, optimistas, que oferecem à Academia Sueca uma visão inspiradora, e muitas vezes sentimental, da natureza humana.
Roth é o avesso disto e o último livro, Indignation, acabado de sair por estas bandas, é talvez o exemplo mais radical do pessimismo de Roth. Em Indignation, encontramos Marcus Messner, estudante universitário que abandona a família em Newark para fugir de duas condenações: o talho do pai, onde se preparam carnes kosher, e a paranóia do mesmo, que começa a alimentar um medo irracional e mórbido com a segurança do filho. Um pequeno erro pode precipitar consequências catastróficas, diz esta Cassandra judia, que assim reproduz a definição clássica de tragédia. Fatalmente, a tragédia abate-se sobre o filho, que nos relata a sua vida, ou o fim dela, do outro lado da eternidade.
Memórias póstumas, como diria o outro, que apenas sublinham a tensão fundamental da obra de Roth: as nossas acções não bastam para definir o nosso destino; o imponderável intromete-se na nossa conduta, subvertendo muitas vezes as intenções primevas. Isso é particularmente pungente no caso de Marcus, apostado em conseguir o primeiro diploma da família e em escapar a um destino funesto; mas subitamente destruído por vontades alheias e erros menores. Indignation é o relato desse fim sangrento. Um fim só comparável ao dos animais no matadouro.»* Crónica publicada no Expresso Online de 29/09/2008, ler aqui na integra.
João Pereira Coutinho
Roth é o avesso disto e o último livro, Indignation, acabado de sair por estas bandas, é talvez o exemplo mais radical do pessimismo de Roth. Em Indignation, encontramos Marcus Messner, estudante universitário que abandona a família em Newark para fugir de duas condenações: o talho do pai, onde se preparam carnes kosher, e a paranóia do mesmo, que começa a alimentar um medo irracional e mórbido com a segurança do filho. Um pequeno erro pode precipitar consequências catastróficas, diz esta Cassandra judia, que assim reproduz a definição clássica de tragédia. Fatalmente, a tragédia abate-se sobre o filho, que nos relata a sua vida, ou o fim dela, do outro lado da eternidade.
Memórias póstumas, como diria o outro, que apenas sublinham a tensão fundamental da obra de Roth: as nossas acções não bastam para definir o nosso destino; o imponderável intromete-se na nossa conduta, subvertendo muitas vezes as intenções primevas. Isso é particularmente pungente no caso de Marcus, apostado em conseguir o primeiro diploma da família e em escapar a um destino funesto; mas subitamente destruído por vontades alheias e erros menores. Indignation é o relato desse fim sangrento. Um fim só comparável ao dos animais no matadouro.»* Crónica publicada no Expresso Online de 29/09/2008, ler aqui na integra.
João Pereira Coutinho
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Desejo adolescente...!!!
Excerto de filme "Gomorra", de Matteo Garrone
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Duras realidades em que não queremos pensar...

«México ha vuelto a ser este lunes escenario de un asesinato múltiple del crimen organizado. La policía ha encontrado 17 cadáveres en Tijuana, de los que 12 yacían junto a una escuela de primaria. Los cuerpos estaban maniatados y amordazados, algunos en ropa interior o desnudos, y les habían colocado una bolsa de plástico en la cabeza. Además, a algunos les habían cortado la lengua. Las nuevas víctimas se suman a las más de 3.000 que ha causado la violencia en México durante este año.» El País Online
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008
No centenário da morte de Machado de Assis

Ver aqui biografia na Wikipédia.
" Apesar de não ser dado a melancolias, nem achar que o ofício de banqueiro vá com tais lástimas, separei-me dele com simpatia. Vim pela Rua da Princesa, pensando nele e nela, sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chácara. Não faltam cães atrás da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: «Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é ofício de cães, e o cão do casal Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é ofício de defunto.»
Pareceu-me este dizer tão subtil e tão espevitado que preferi atribuí-lo a algum cão que latisse dentro do meu próprio cérebro. Quando era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que era um elefante que engolira um rouxinol. Creio que falavam da Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um cão filósofo, e o mérito do discurso será todo dele. Quem sabe lá o que me haverá dado algum dia o meu cozinheiro? "
Excerto de " Memorial de Aires", Ed. Livros Cotovia,2003
Cecilia Bartoli canta Giovanna d'Arco pt. 1 de Rossini, cantada originalmente por Marietta Alboni.
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Na morte de Paul Newman

«Se apagó el azul. La mirada transparente de Paul Newman se rindió el viernes al embiste de un cáncer de pulmón que cerró para siempre los ojos más alabados de Hollywood. Películas como El buscavidas, Marcado por el odio o El juez de la horca están impregnadas del talento de este actor incorruptible al que la fama no consiguió transformar en carne de revista rosa. Tan célebre por su trabajo como por su activismo político, su generosidad filantrópica y su pasión por la velocidad (era piloto de automovilismo), Newman falleció en su granja de Westport (Connecticut) a los 83 años. Con cerca de un centenar de títulos a sus espaldas, un Oscar al mejor actor, otro honorífico, un premio de la Academia por su labor humanitaria y nueve candidaturas, sabía que la muerte le acechaba y el pasado agosto optó por abandonar el hospital y los tratamientos médicos para disfrutar en la intimidad de sus últimos días.»Barbara Celis,Nova York,28/09/08,El País Online
Paul Newman - "The Hustler"( 1961) Final Game
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Dançarino universitário!!!
A Certain Ratio - "Do the Du"
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Interrupção...
interrupção
do Lat. interruptiones.
f.,
suspensão;
acto ou efeito de interromper;
intermissão;
reticência.
do Lat. interruptiones.
f.,
suspensão;
acto ou efeito de interromper;
intermissão;
reticência.
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Simplicidade,despojamento,emotividade e ... outra forma de tratar as vacas!
Tibetan Song Tibet Music Arola kahmpa Tsegoen
Premonitório e actual...
" Viviane Forrester já o escrevera em "O Horror da Economia", mas a presença, ao vivo, no colóquio da Gulbenkian deu um tom dramático às suas verdades, que são as de muitos, entre os quais nos incluímos.
Forrester di-lo, é claro, melhor do que a maioria. Neste momento melhor do que todos.
Global, hoje, é a mentira da venda de uma «sociedade de emprego», que já não existe mas que ainda nos avalia e nos faz andar a toque de caixa. Global é a mentira de uma «economia de mercado» que também já acabou e deu lugar a uma economia virtual e especulativa. Global é a chantagem do discurso «anti-pessimista», ele, sim, calculadamente pessimista porque aprisiona as pessoas às suas cabalas.
Voltando à precedente coluna desta pequeníssima série de três, «As cabeças incógnitas», começa a haver razões para crer que os actuais líderes políticos europeus, cujo pensamento se desconhece, ao contrário do que sempre sucedera na Europa, saibam dos crimes que a actual mentira global comporta.
Tornam-se, assim, cúmplices dos que dirigem o casino.
Sem dúvida alguns deles serão bem-intencionados. A necessidade sentida por Guterres ou Blair pela educação é visceral e verdadeira. Mas o culto da «rentabilidade» - e é nesses sentido que tantos também querem mais educação - no lugar do culto da dignidade pessoal e do Estado acabará por impor a sua mentira global.
A Europa não está condenada por ser velha. Está muito fraca porque a sua economia é já virtual. Mas talvez perca o medo de morrer e volte a lutar."
Crónica " As cabeças incógnitas ", de Victor Cunha Rego, publicada originalmente no DN(1998/1999) e coligida no livro " Os dias de amanhã", Ed. Cículo de Leitores,2000
Forrester di-lo, é claro, melhor do que a maioria. Neste momento melhor do que todos.
Global, hoje, é a mentira da venda de uma «sociedade de emprego», que já não existe mas que ainda nos avalia e nos faz andar a toque de caixa. Global é a mentira de uma «economia de mercado» que também já acabou e deu lugar a uma economia virtual e especulativa. Global é a chantagem do discurso «anti-pessimista», ele, sim, calculadamente pessimista porque aprisiona as pessoas às suas cabalas.
Voltando à precedente coluna desta pequeníssima série de três, «As cabeças incógnitas», começa a haver razões para crer que os actuais líderes políticos europeus, cujo pensamento se desconhece, ao contrário do que sempre sucedera na Europa, saibam dos crimes que a actual mentira global comporta.
Tornam-se, assim, cúmplices dos que dirigem o casino.
Sem dúvida alguns deles serão bem-intencionados. A necessidade sentida por Guterres ou Blair pela educação é visceral e verdadeira. Mas o culto da «rentabilidade» - e é nesses sentido que tantos também querem mais educação - no lugar do culto da dignidade pessoal e do Estado acabará por impor a sua mentira global.
A Europa não está condenada por ser velha. Está muito fraca porque a sua economia é já virtual. Mas talvez perca o medo de morrer e volte a lutar."
Crónica " As cabeças incógnitas ", de Victor Cunha Rego, publicada originalmente no DN(1998/1999) e coligida no livro " Os dias de amanhã", Ed. Cículo de Leitores,2000
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
David Foster Wallace
Ilustração de Harry Aung«David Foster Wallace, de 46 años de edad, el mejor cronista del malestar de la sociedad norteamericana en la época a caballo entre los siglos XX y XXI, apareció ahorcado en su domicilio de Claremont, California, el viernes, 12 de septiembre, por la noche.
David Foster Wallace, de 46 años de edad, el mejor cronista del malestar de la sociedad norteamericana en la época a caballo entre los siglos XX y XXI, apareció ahorcado en su domicilio de Claremont, California, el viernes, 12 de septiembre, por la noche. El cuerpo fue descubierto por la esposa del escritor, Karen Green, que inmediatamente se puso en contacto con la Policía Local. La noticia se hizo pública 24 horas después, y ha causado una fuerte conmoción en la comunidad literaria estadounidense, que se debate entre la consternación y la incredulidad. »
Eduardo Lago ELPAÍS.com 15/9/2008
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