
Luís António Cardoso da Fonseca Mail: luiscardosofonseca@hotmail.com
sábado, 2 de junho de 2007
sexta-feira, 1 de junho de 2007
"Sgt Pepper..." - The Beatles

Este disco, por muitos, considerado o melhor de sempre, faz hoje 40 anos que foi editado.
Ver aqui, site dos Beatles.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Marguerite Duras versus Playboy da Indonésia
Playboy da Indonésia: imagens carnais encontram-se com fé muçulmana
The New York Times
22:00 24/07
Jane Perlez
DENPASAR, Indonésia – Quando Erwin Arnada, editor-chefe da revista Playboy da Indonésia, respondeu uma intimação ao quartel-general da polícia da capital da nação, Jacarta, ele sorriu, comportou-se como um bom cidadão e, em troca, foi tratado educadamente durante as quase seis horas de questionamento.
Leia abaixo o texto
O escape, relembra ele, foi algo mais ou menos assim:
“Quando você conheceu Kartika Oktavina Gunawa?” perguntou a polícia, referindo-se sabidamente à modelo que apareceu no centro da edição da revista na Indonésia vestindo um modesto roupão azul que fez anúncios de lingerie nos jornais ocidentais parecerem decididamente obscenos.
“Como você não consegue lembrar?” perguntou o policial, segundo a explicação do editor sobre recente encontro de bom temperamento.
“Porque eu conheço muitas jovens bonitas todos os dias”, Arnada disse ter respondido.
Os interrogadores riram invejosamente, disse ele. Eles acusaram Gunawan e ele de violarem as provisões de indecência do código criminal, e então os deixaram ir embora.
A Playboy chegou na Indonésia, a nação mais populosa do mundo, três meses atrás com um edição especialmente criada para levar em conta os costumes locais – nada de fotografias de mulheres nuas, nada de nudez.
A revista é publicada sob licença em 20 países, a maioria na Europa. A Indonésia é o primeiro país muçulmano da revista desde que uma edição turca não ‘pegou’ em meados dos anos 90.
Corretamente como esperado, um grupo indonésio, o Front dos Defensores Islâmicos, o qual se especializou em ataques a casas noturnas e esconderijos de jogatina, atirou pedras no escritório da Playboy em Jacarta, causando tantos danos físicos e psicológicos, disse Arnada, que foi impossível para a equipe continuar produzindo lá.
A revista saiu daqui para a capital de Bali, uma ilha Hindu, onde turistas estrangeiros desfilam em reduzidos trajes de banho e saltam felizes em clubes noturnos cheios de álcool.
As segunda e terceira edições foram produzidas na nova sede da revista, um andar de uma casa pertencida a um líder espiritual Hindu, um amigo de Arnada, o qual é muçulmano. Os mais recentes layouts da revista são moldados entre objetos de pendura de Bali e oferendas religiosas a deuses hindus.
Enquanto a reação dos grupos islâmicos na capital não tenha sido surpreendente, a revista também foi pega em um debate parlamentar sobre um projeto de lei anti-pornografia que está testando o coração da tolerância na Indonésia.
A Sociedade Indonésia Contra Pirataria e Pornografia, a qual está pressionando o projeto de lei, registrou um processo contra a revista, estimulando a investigação policial.
Goenawan Mohamad, o fundador da Tempo, uma semanal do país, e um distinto colunista, diz que Arnada tem modelado uma revista tão obediente que seria um absurdo bani-la.
Embora apóie o direito de a Playboy ser publicada, Mohamad disse achar difícil ele ser um entusiasta quanto à causa da revista. “A Playboy é uma revista bem conhecida por causa da falta de vestimenta das mulheres”, disse ele. “Qual é a birra?”.
Em um esforço para tornar a edição indonésia mais aceitável a sensibilidades locais, a entrevista da edição do mês foi com o autor e novelista dissidente mais famoso da nação, Pramoedya Ananta Toer. Ele morreu dia 30 de abril aos 81 anos, logo após de a edição ter sido impressa.
A maioria dos artigos nas primeiras três edições foram as repetições de qualquer revista de interesse geral na Ásia: uma história sobre amputados da guerra civil do Camboja, as histórias de noivas de encomenda indonésias, um ensaio fotográfico sobre violência doméstica contra crianças e um grande artigo sobre o Timor Leste.
As fotografias centrais das Coelhinhas da Playboy em escassas, contudo dificilmente libidinosas, roupas (a segunda coelhinha foi uma francesa de Bali, Doriane Amar – os ataques tem afastado modelos indonésias) e uma coluna de corações solitários direcionada a homens foram a maior sugestão de que a Playboy da Indonésia foi, realmente, direcionada a leitores homens.
A capa da terceira edição foi certamente mais carnal, embora ainda discreta em comparação a outras publicações nas bancas daqui: uma modelo indonésia vestida em um longo suéter de pêlo e um par de roupas de baixo mostra divisão e a sugestão – embora somente a sugestão – de seu umbigo.
Para Arnada, 41, que tem um passado de publicação de tablóides de entretenimento e de produção de filmes de terror, toda a confusão reflete os medos da intrusão da cultura ocidental. “Por que mais eles continuariam gritando sobre a Playboy”, perguntou.
Uma publicação amplamente distribuída na Indonésia, a Red Light, que é pertencida a um dos maiores conglomerados indonésios, o Jawa Pos, é bem mais provocativa, disse Arnada.
Impressa em papel de jornal bruto e vendida nas ruas por mascates pelo equivalente a 20 centavos de dólar, a Red Light carrega anúncios por prostitutas e seus números de telefone, mostra fotos de homens e mulheres nus, e é enfeitada com manchetes sexualmente provocativas.
O Conselho de Imprensa Indonésio, um corpo governamental, na verdade apoiou a publicação da Playboy, dizendo que o país agora tem liberdade de imprensa. Então, por enquanto, Arnada e Ponti Colorus, que cuida do lado financeiro da companhia de publicação, a Velvet Silver Media, pareceram ter prevalecido.
As primeiras duas edições, de 100 mil cópias cada, venderam rapidamente, mesmo com um preço relativamente alto de US$3,80. A terceira está indo bem.
Alguns dos principais anunciantes – companhias de cigarro e telefone celular, e marcas de perfume, óculos de sol e relógios – que fugiram da segunda edição, com medo de ameaças do Front islâmico, retornaram para a terceira edição.
Arnada, um auto-proclamado festeiro, disse que um proeminente dono de clube noturno de Bali havia concordado em sediar o evento da Coelhinha.
Mas sempre um homem de negócios, Arnada permanece cauteloso. “Não digo que eu ganhei”, disse ele. “Não sei onde a bola está indo. De repente eu sou um suspeito, e outras publicações com imagens de nudez têm uma boa vinda”.
" Está descalça. Tem o cabelo despenteado. Veste um roupão curto, de algodão preto, amplo.
A cena é muito lenta, longa.
Lentamente, vai colocar-se debaixo do ventilador de pesadelo. Fica ali.
Agarra os cabelos, afasta-os do seu corpo, num gesto de desânimo-alguém que sufoca de calor.
Depois deixa cair os braços ao longo do corpo.
Na abertura do roupão, o branco do corpo nu.
Imobiliza-se. Cabeça para trás. Procura o ar. Sufoca.
Procura sair fora do calor.
Graça pungente do corpo magro, frágil. "
Excerto de " India Song ", de Marguerite Duras, Ed.Quetzal
The New York Times
22:00 24/07
Jane Perlez
DENPASAR, Indonésia – Quando Erwin Arnada, editor-chefe da revista Playboy da Indonésia, respondeu uma intimação ao quartel-general da polícia da capital da nação, Jacarta, ele sorriu, comportou-se como um bom cidadão e, em troca, foi tratado educadamente durante as quase seis horas de questionamento.
Leia abaixo o texto
O escape, relembra ele, foi algo mais ou menos assim:
“Quando você conheceu Kartika Oktavina Gunawa?” perguntou a polícia, referindo-se sabidamente à modelo que apareceu no centro da edição da revista na Indonésia vestindo um modesto roupão azul que fez anúncios de lingerie nos jornais ocidentais parecerem decididamente obscenos.
“Como você não consegue lembrar?” perguntou o policial, segundo a explicação do editor sobre recente encontro de bom temperamento.
“Porque eu conheço muitas jovens bonitas todos os dias”, Arnada disse ter respondido.
Os interrogadores riram invejosamente, disse ele. Eles acusaram Gunawan e ele de violarem as provisões de indecência do código criminal, e então os deixaram ir embora.
A Playboy chegou na Indonésia, a nação mais populosa do mundo, três meses atrás com um edição especialmente criada para levar em conta os costumes locais – nada de fotografias de mulheres nuas, nada de nudez.
A revista é publicada sob licença em 20 países, a maioria na Europa. A Indonésia é o primeiro país muçulmano da revista desde que uma edição turca não ‘pegou’ em meados dos anos 90.
Corretamente como esperado, um grupo indonésio, o Front dos Defensores Islâmicos, o qual se especializou em ataques a casas noturnas e esconderijos de jogatina, atirou pedras no escritório da Playboy em Jacarta, causando tantos danos físicos e psicológicos, disse Arnada, que foi impossível para a equipe continuar produzindo lá.
A revista saiu daqui para a capital de Bali, uma ilha Hindu, onde turistas estrangeiros desfilam em reduzidos trajes de banho e saltam felizes em clubes noturnos cheios de álcool.
As segunda e terceira edições foram produzidas na nova sede da revista, um andar de uma casa pertencida a um líder espiritual Hindu, um amigo de Arnada, o qual é muçulmano. Os mais recentes layouts da revista são moldados entre objetos de pendura de Bali e oferendas religiosas a deuses hindus.
Enquanto a reação dos grupos islâmicos na capital não tenha sido surpreendente, a revista também foi pega em um debate parlamentar sobre um projeto de lei anti-pornografia que está testando o coração da tolerância na Indonésia.
A Sociedade Indonésia Contra Pirataria e Pornografia, a qual está pressionando o projeto de lei, registrou um processo contra a revista, estimulando a investigação policial.
Goenawan Mohamad, o fundador da Tempo, uma semanal do país, e um distinto colunista, diz que Arnada tem modelado uma revista tão obediente que seria um absurdo bani-la.
Embora apóie o direito de a Playboy ser publicada, Mohamad disse achar difícil ele ser um entusiasta quanto à causa da revista. “A Playboy é uma revista bem conhecida por causa da falta de vestimenta das mulheres”, disse ele. “Qual é a birra?”.
Em um esforço para tornar a edição indonésia mais aceitável a sensibilidades locais, a entrevista da edição do mês foi com o autor e novelista dissidente mais famoso da nação, Pramoedya Ananta Toer. Ele morreu dia 30 de abril aos 81 anos, logo após de a edição ter sido impressa.
A maioria dos artigos nas primeiras três edições foram as repetições de qualquer revista de interesse geral na Ásia: uma história sobre amputados da guerra civil do Camboja, as histórias de noivas de encomenda indonésias, um ensaio fotográfico sobre violência doméstica contra crianças e um grande artigo sobre o Timor Leste.
As fotografias centrais das Coelhinhas da Playboy em escassas, contudo dificilmente libidinosas, roupas (a segunda coelhinha foi uma francesa de Bali, Doriane Amar – os ataques tem afastado modelos indonésias) e uma coluna de corações solitários direcionada a homens foram a maior sugestão de que a Playboy da Indonésia foi, realmente, direcionada a leitores homens.
A capa da terceira edição foi certamente mais carnal, embora ainda discreta em comparação a outras publicações nas bancas daqui: uma modelo indonésia vestida em um longo suéter de pêlo e um par de roupas de baixo mostra divisão e a sugestão – embora somente a sugestão – de seu umbigo.
Para Arnada, 41, que tem um passado de publicação de tablóides de entretenimento e de produção de filmes de terror, toda a confusão reflete os medos da intrusão da cultura ocidental. “Por que mais eles continuariam gritando sobre a Playboy”, perguntou.
Uma publicação amplamente distribuída na Indonésia, a Red Light, que é pertencida a um dos maiores conglomerados indonésios, o Jawa Pos, é bem mais provocativa, disse Arnada.
Impressa em papel de jornal bruto e vendida nas ruas por mascates pelo equivalente a 20 centavos de dólar, a Red Light carrega anúncios por prostitutas e seus números de telefone, mostra fotos de homens e mulheres nus, e é enfeitada com manchetes sexualmente provocativas.
O Conselho de Imprensa Indonésio, um corpo governamental, na verdade apoiou a publicação da Playboy, dizendo que o país agora tem liberdade de imprensa. Então, por enquanto, Arnada e Ponti Colorus, que cuida do lado financeiro da companhia de publicação, a Velvet Silver Media, pareceram ter prevalecido.
As primeiras duas edições, de 100 mil cópias cada, venderam rapidamente, mesmo com um preço relativamente alto de US$3,80. A terceira está indo bem.
Alguns dos principais anunciantes – companhias de cigarro e telefone celular, e marcas de perfume, óculos de sol e relógios – que fugiram da segunda edição, com medo de ameaças do Front islâmico, retornaram para a terceira edição.
Arnada, um auto-proclamado festeiro, disse que um proeminente dono de clube noturno de Bali havia concordado em sediar o evento da Coelhinha.
Mas sempre um homem de negócios, Arnada permanece cauteloso. “Não digo que eu ganhei”, disse ele. “Não sei onde a bola está indo. De repente eu sou um suspeito, e outras publicações com imagens de nudez têm uma boa vinda”.
" Está descalça. Tem o cabelo despenteado. Veste um roupão curto, de algodão preto, amplo.
A cena é muito lenta, longa.
Lentamente, vai colocar-se debaixo do ventilador de pesadelo. Fica ali.
Agarra os cabelos, afasta-os do seu corpo, num gesto de desânimo-alguém que sufoca de calor.
Depois deixa cair os braços ao longo do corpo.
Na abertura do roupão, o branco do corpo nu.
Imobiliza-se. Cabeça para trás. Procura o ar. Sufoca.
Procura sair fora do calor.
Graça pungente do corpo magro, frágil. "
Excerto de " India Song ", de Marguerite Duras, Ed.Quetzal
quarta-feira, 30 de maio de 2007
" Aniki - Bóbó " - Manuel de Oliveira


A frescura e a fotografia deste filme, de Manuel de Oliveira, ficaram na história do cinema português.
Quinta das Lágrimas




QUINTA DAS LÁGRIMAS
Fui há muitos anos à Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e baloiçavam. Parecia uma ponte militar, para assédio à cidade.
A Quinta das Lágrimas esteve para ser comprada pelo meu pai quando ele veio do Brasil e se deixava sugestionar pelas lendaz históricas e coisas famigeradas de glória antiga. Havia uma enorme árvore da cânfora nos arredores da casa, que era como uma estufa, com muitos vidros e caixilhos descascados. Numa caleira de pedra corria a água. sobre um líquen vermelho. Dizia-se que era «o sangue de Inês». Como disse, a moradia era decepcionante, um pouco ao estilo dos chalés de Sintra em que veraneavam os banqueiros do século XIX e os ricos-homens dos cafezais de S. Tomé. Estavam na moda os jardins de Inverno, e nesse tipo de casas havia pavilhões envidraçados onde se tomava chá e bebia água de sifão. Mas não posso garantir que na Quinta das Lágrimas fosse assim.
Era numa tarde muito quente, em Maio. O calor de Maio, em Coimbra, traz no coração o perfume da tília em flor; desde o alto do Jardim da Sereia ele abate-se até ao fundo da cidade como um lenço abafante e suave. É um calor e um perfume que deprimem. Acompanham os estudantes quando eles revêem a matéria, fumando com gesto irritado e deixando o olhar parar nas varandas da frente onde outros estudantes mourejam nas páginas das sebentas.
Mas, voltando à Quinta, que está num vale sem horizontes, que seriam dantes os fecundos campos de regadio, com manantes a visitar-lhe os muros para roubar capôes e melancias: estranhei-a, de tão deserta. Não havia um só visitante, ou um morador; e não vi também guardião. Só um cãozito sujo, de pêlo em que a lama secara, me lançava de longe alguns ladridos curtos, sem cólera, por simples obrigação.
A casa não tinha cortinas nem vestígios de ser habitada. Havia, em volta, alguns canteiros onde crescera a beldroega e umas açucenas tão altas que podiam chamar-se o bordão de S. José. Na parede, uma mancha de água que se infiltrara pelo telhado parecia a sombra de uma mulher; uma mulher alta e corpulenta, que risse, os ombros deitados para trás. Ouvi, ou pareceu-me, um arrastar de passas, mas durou pouco; tudo ficou silencioso outra vez. Porém, quando eu já me afastava vi, sentada numa velha cadeira de verga, uma senhora ainda nova, com uns óculos na mão direita e que olhava para mim com uma frieza condescendente. Se era a dona da casa era uma excêntrica, porque estava vestida com uma saia cor de ferrugem, tendo por cima um vestido verde, aberto, e um cinto dourado. Os cabelos usava-os soltos e eram de um belo loiro carregado com reflexos mais claros sobre as orelhas. O rosto era rosado, mas notava-se que usava carmim, muito fino e brilhante. Estendeu as pernas com um movimento preguiçoso; estavam nuas e eram tão brancas como o ventre das trutas. Até certo ponto parecia muito uma lavradeira abastada, dessas do Alto-Minho que se descalçam ao fim das tardes de Verão para ir regar, [...]
AGUSTINA BESSA LUIS, “Adivinhas de Pedro e Inês”,
GUIMARÃES & C.a, EDITORES, 1983, pp. 7, 8
Agustina Bessa-Luís
A SENHORA CLARINHA
Em Fontelas de Cima, repentino sobrado do Alto Douro, ficava a venda da senhora Clarinha. Era uma mulher baixinha, minuciosa nas contas, pouco afeiçoada à clientela, mas mais correcta de maneiras do que éhabitual em patroa de balcão e locanda. A montra, feita duma janela ainda apresentável no seu parapeito verde, exibia maços de velas e lamparinas. A senhora Clarinha servia as necessidades das almas e outras que o não eram. Ela própria tinha a sua devoção pessoal a 5. Judas Tadeu; oferecia-lhe todos os meses um litro de azeite, do melhor, e um quilo de bolachas jazz band. Não que o santo, no seu pequeno soco de escaiola, demonstrasse apetite e gostos adamados. Quem comia as bolachas era o Tito, filho de sacristão e cara de Caim. Era um exemplo paleolitíco com aquela fauce bravia e os olhos juntos. Atirava pedradas aos carros, corria de rastos, tinha esconderijo nas minas e nas pedreiras. Mas sabia o seu latim e tocava a Santos como se quisesse fazer cair as muralhas de Jericó. Enfim, havia prós e contras nesse chambão. No coro, com a opa de cetineta vermelha, estava regular; no adro, parecia ainda humano; na torre do sino, um morcego vampiro ou gárguia de Nôtre Dame. Vamos lá destrinçar as espécies e fazer paleontologia! O caso é outro.
A senhora Clarinha, numa manhã de Maio, recebeu uma carta extraordinária. Era dirigida aos devotos de S. Judas Tadeu e devia ser copiada duzentas vezes e mandada a outros tantos fiéis, a começar pelo nome que lhes era indicado. Porém o nome não constava na carta, e a senhora Clarinha achou-se embaraçada para cumprir aquela intimação; o que a punha em perigo gravíssimo. Interrompida a cadeia, caíam sobre ela desgraças impossíveis de evitar, como incêndios, inundações, mortes de parentes e amigos. Ela estava muitíssimo apoquentada e fechou a loja antes das sete horas. Sentou-se numa cadeirinha de palha e pôs-se a pensar. Tinha algum dinheiro, nome honrado e uma vinha com o seu quarteirão de oliveiras. A casa era dela, com duas salas com um fausto de vistas e uma coroa de bouças velhas em volta. Tinha de tudo na loja — fio de Norte, papos-secos, tesouras da poda. Também vendia grandes rebuçados de avenca, quase do tamanho de pires e embrulhados em papel de seda branco. Desde Fontelas de Cima até Moura Morta, eram famosos. A senhora Clarinha abanou tristemente a cabeça. Não tinha esperança de escapar à terrível ameaça que sobre ela desabara. O Tito, que vinha à noite trazer a canada do leite, encontrou-a meio transtornada e com a carta na mão.
— Lê o que aí diz — pediu ao rapaz. Ele juntou as letras, foi-se explicando.
— Duzentas vezes esta letania! Deite-a fora, não faça caso.
— A carta de S. Judas? Não se pode, é proibido.
Estava tão branca atrás do mostrador verde, que era como uma aparição. Um feixe de ráfia projectava atrás dela uma espécie de auréola loira. O Tito teve medo, e não era um moço acanhado. As ratoeiras a fogo, nos laranjais, já lhe tinham acertado nas pernas duas ou três vezes.
Em poucos dias, a senhora Clarinha morreu do aperto de alma em que estava. Não pôde mandar a ‘carta de S. Judas Tadeu’, e alguma coisa ‘tinha que lhe acontecer’ Deus nos livre do que o destino manda sem nos dar o direito de executar a sua ordem. Ai!
Datado: 10-8-1974
AGUSTINA BESSA LUIS, CONVERSAÇÕES COM DMITRI E OUTRAS FANTASIAS,
Inverso, A REGRA DO JOGO, 1979, p. 35
Em Fontelas de Cima, repentino sobrado do Alto Douro, ficava a venda da senhora Clarinha. Era uma mulher baixinha, minuciosa nas contas, pouco afeiçoada à clientela, mas mais correcta de maneiras do que éhabitual em patroa de balcão e locanda. A montra, feita duma janela ainda apresentável no seu parapeito verde, exibia maços de velas e lamparinas. A senhora Clarinha servia as necessidades das almas e outras que o não eram. Ela própria tinha a sua devoção pessoal a 5. Judas Tadeu; oferecia-lhe todos os meses um litro de azeite, do melhor, e um quilo de bolachas jazz band. Não que o santo, no seu pequeno soco de escaiola, demonstrasse apetite e gostos adamados. Quem comia as bolachas era o Tito, filho de sacristão e cara de Caim. Era um exemplo paleolitíco com aquela fauce bravia e os olhos juntos. Atirava pedradas aos carros, corria de rastos, tinha esconderijo nas minas e nas pedreiras. Mas sabia o seu latim e tocava a Santos como se quisesse fazer cair as muralhas de Jericó. Enfim, havia prós e contras nesse chambão. No coro, com a opa de cetineta vermelha, estava regular; no adro, parecia ainda humano; na torre do sino, um morcego vampiro ou gárguia de Nôtre Dame. Vamos lá destrinçar as espécies e fazer paleontologia! O caso é outro.
A senhora Clarinha, numa manhã de Maio, recebeu uma carta extraordinária. Era dirigida aos devotos de S. Judas Tadeu e devia ser copiada duzentas vezes e mandada a outros tantos fiéis, a começar pelo nome que lhes era indicado. Porém o nome não constava na carta, e a senhora Clarinha achou-se embaraçada para cumprir aquela intimação; o que a punha em perigo gravíssimo. Interrompida a cadeia, caíam sobre ela desgraças impossíveis de evitar, como incêndios, inundações, mortes de parentes e amigos. Ela estava muitíssimo apoquentada e fechou a loja antes das sete horas. Sentou-se numa cadeirinha de palha e pôs-se a pensar. Tinha algum dinheiro, nome honrado e uma vinha com o seu quarteirão de oliveiras. A casa era dela, com duas salas com um fausto de vistas e uma coroa de bouças velhas em volta. Tinha de tudo na loja — fio de Norte, papos-secos, tesouras da poda. Também vendia grandes rebuçados de avenca, quase do tamanho de pires e embrulhados em papel de seda branco. Desde Fontelas de Cima até Moura Morta, eram famosos. A senhora Clarinha abanou tristemente a cabeça. Não tinha esperança de escapar à terrível ameaça que sobre ela desabara. O Tito, que vinha à noite trazer a canada do leite, encontrou-a meio transtornada e com a carta na mão.
— Lê o que aí diz — pediu ao rapaz. Ele juntou as letras, foi-se explicando.
— Duzentas vezes esta letania! Deite-a fora, não faça caso.
— A carta de S. Judas? Não se pode, é proibido.
Estava tão branca atrás do mostrador verde, que era como uma aparição. Um feixe de ráfia projectava atrás dela uma espécie de auréola loira. O Tito teve medo, e não era um moço acanhado. As ratoeiras a fogo, nos laranjais, já lhe tinham acertado nas pernas duas ou três vezes.
Em poucos dias, a senhora Clarinha morreu do aperto de alma em que estava. Não pôde mandar a ‘carta de S. Judas Tadeu’, e alguma coisa ‘tinha que lhe acontecer’ Deus nos livre do que o destino manda sem nos dar o direito de executar a sua ordem. Ai!
Datado: 10-8-1974
AGUSTINA BESSA LUIS, CONVERSAÇÕES COM DMITRI E OUTRAS FANTASIAS,
Inverso, A REGRA DO JOGO, 1979, p. 35
terça-feira, 29 de maio de 2007
Jacques Tati

The immortal Monsieur Hulot
Jacques Tati, um dos génios do cinema mais ignorados. Filmou a vida moderna como mais ninguém o fez.
200 anos de Romances de Aventuras em Portugal

O capitão Morgan : romance de aventuras / Emilio Salgari ; versão do original italiano de Aurora Rodrigues (Dora). Lisboa : João Romano Torres, [193-]. (Salgari) BN L. 31678 P.
200 anos deRomances de Aventuras em Portugal, ver aqui.
Monet e Proust
Rock Arch West of Etretat (The Manneport)
" Mas, ás vezes, é no momento em que tudo nos parece perdido que chega o aviso que pode salvar-nos; batemos a todas as portas que não abrem para nada, e a única por onde podemos entrar e que em vão procurámos durante cem anos, esbarramos nela sem dar por isso, e abre-se. "
Excerto de " O tempo reencontrado ", de Marcel Proust, Trd. Pedro Tamen, Ed. Círculo de Leitores
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Evo Morales

6 El presidente Evo Morales, anunció este lunes que pedirá al Comité Ej ecutivo de la FIFA la reconsideración de la resolución que excluye la práctic a del fútbol a ciudades por encima de los 2.500 metros sobre el nivel del mar.(Fotos: José Lirauze/ABI)
Existe algo de surreal nesta fotografia, o culto da imagem de um politico; baseado numa camisola.
Pericles Lavat

AQUÍ ESTUBO SU PADRE…PUTOS”
Fotos de una cárcel abandonada
“Uno de los ritos del hombre cuando llega a un nuevo sitio, cuando ocupa un lugar, bien sea como habitación o como espacio de trabajo, es erigir un altar.
Llenamos las paredes y muebles con objetos que hablan de quiénes y porqué somos.
No sólo sirven para recordar aquello que está ausente, sino para confirmar nuestra identidad. De tal manera, la imágenes que se presentan en esta serie, son parte de la evidencia dejada atrás por sus habitantes, sean estos reos o custodios, de una cárcel abandonada.”
Pericles LavatCuernavaca, Morelos, México
Encadernação

Capa em mosaico — técnica que utiliza recortes de couro de cores variadas, embutidos ou superpostos — realizada por Augustin du Seuil para a edição de Daphnis et Chloé pertencente ao Regente (1718).
Encadernação, ver aqui.
domingo, 27 de maio de 2007
" Ladies and gentleman we are floating in space " - Spiritualized

São discos como este, que marcam a nossa existência e nos fazem acreditar na essência da vida.
Ver aqui, site dos Spiritualized.
Mark Rothko
Mark Rothko, No. 10,1950. Oil on canvas, 229.2 x 146.4 cm (90 1/4 x 57 5/8), The Museum of Modern Art, New York, Gift of Philip Johnson, 1952, © 1998, The Museum of Modern Art, New YorkBy 1950 Rothko had reduced the number of floating rectangles to two, three, or four and aligned them vertically against a colored ground, arriving at his signature style.
Mark Rothko, pintor, ver aqui.
The Belle and Sebastian

Um dos discos da minha vida, descoberta tardia no entanto mantêm toda a sua frescura juvenil e melodiosa. Magnifico disco.
Legislar
" Na medida em que evidencia o abismo existente entre governantes e cidadãos, a profusão de leis é um mau sintoma. Já no século V a.C. Platão afirmava que, numa sociedade civilizada, as leis seriam em número reduzido, uma vez que os cidadãos tenderiam a portar-se bem. O zelo legislativo nacional é uma prova de que o governo não tem confiança nos cidadãos e de que estes, por seu lado, o não respeitam. O casal Sócrates-Cavaco deveria reflectir sobre isto. "
" Dura Lex Sed Simplex "(14/05/2006), excerto de artigo de Maria Filomena Mónica, compilado pela Quasi, com o nome de " Confissões de uma liberal ", e editado na colecção Inéditos Sábado.
" Dura Lex Sed Simplex "(14/05/2006), excerto de artigo de Maria Filomena Mónica, compilado pela Quasi, com o nome de " Confissões de uma liberal ", e editado na colecção Inéditos Sábado.
" Um homem célebre " - Machado de Assis
O escritor brasileiro Machado de Assis, é uma das minhas mais recentes descobertas, fruto da publicação de dois livros da sua autoria, na colecção: Curso breve de Literatura Brasileira, dirigida, por Abel Barros Baptista e editada pela Livros Cotovia.
Estou a ler uma antologia de contos, com o título de um dos contos " Um homem célebre ", que comprei recentemente na feira do livro.
Estou a ler uma antologia de contos, com o título de um dos contos " Um homem célebre ", que comprei recentemente na feira do livro.
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